Coveiros da Festa da Música criar PDF versão para impressão
23-Nov-2006

Luís LeiriaDurante as sete edições da Festa da Música, só se ouviam (merecidos) elogios. Agora, os coveiros da Festa descobrem-lhe subitamente os defeitos. "O modelo esgotava em três dias um montante excessivo", diz a ministra da Cultura. É bem típico de quem acha que uma boa administração da Cultura se resume a cortar verbas.

A Festa da Música podia ser cara, mas enchia e esgotava sempre. Na última edição, que já estava mais cara para o público e oferecia menos concertos, venderam-se quase 52 mil bilhetes. Eram dezenas de milhar de pessoas que obviamente não estavam acostumadas a comprar as caríssimas assinaturas da temporada de concertos da Gulbenkian. Durante aquelas sete edições, foram muitos e muitos milhares de pessoas que provavelmente tomaram pela primeira vez contacto com a música barroca, que aprenderam a amar Bach, que descobriram que havia muito Beethoven para além da Nona Sinfonia.

Aprendi rapidamente a madrugar no primeiro dia em que os bilhetes eram postos à venda e a fazer pacientemente a fila que sempre se formava, para ter a possibilidade de escolher todos os concertos que queria.

Porque os concertos esgotavam. O público olhado como ignaro pelos melómanos de nariz empinado corria a comprar bilhetes para os concertos dos músicos portugueses, de Pedro Burmester, de Jorge Moyano, de António Rosado, de Paulo Gaio Lima. Podia nunca ter ouvido falar da viola de gamba de Philippe Pierlot, mas mesmo assim esgotava os concertos do Ricercar Consort. Nos corredores do CCB, naqueles três dias de imersão musical, viam-se milhares de jovens, de pais que levavam os filhos pequenos, vivia-se um ambiente de felicidade em tudo diferente ao dos velhotes tossicantes que costumam povoar as primeiras filas de muitos concertos da Gulbenkian.

Se alguém duvida que a Festa da Música criou novos públicos é porque nunca foi a nenhuma. Se alguém pensou na época que aquilo era um hipermercado musical (e agora vai ter finalmente coragem de dizê-lo) é porque tinha essa estranha concepção da música clássica como um gueto apenas frequentável por uma elite ciosa dos seus direitos, quais lordes de clube inglês.

A Festa da Música lançou músicos portugueses em circuitos internacionais. A Festa da Música foi a responsável pelo nascimento de agrupamentos como a orquestra barroca Divino Sospiro, maioritariamente composta por portugueses e que já conseguiu reconhecimento e colaborações com alguns dos maiores artistas do panorama mundial.

O que irrita neste episódio do assassinato da Festa da Música é que ninguém diz: acabou porque não há dinheiro e ponto final. Acabou porque há uma coisa chamada défice. Não. Dizem: era muito cara para só durar três dias. Dizem: durante todo o ano, a oferta era pequena. Até parece que agora vai ser maior...

De Mega Ferreira, que depois dos louros da Expo ganha agora a pecha de coveiro do maior evento musical português, ficamos a saber que vai haver uns Dias da Música de Belém, feitos com um terço do orçamento. Afinal, o modelo é o mesmo: três dias de concertos. Só que mais baratinhos. Porque, para aquele público ignaro, é melhor poupar.

Luis Leiria

 
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