Entrevista a Tariq Ali criar PDF versão para impressão
28-Nov-2006

CHÁVEZ USA OS LUCROS DO PETRÓLEO PARA AJUDAR OS POBRES
venezuela01O escritor paquistanês Tariq Ali acaba de lançar um novo livro, Pirates of the Caribbean: Axis of Hope ("Piratas das Caraíbas: Eixo de Esperança"), onde se refere a um grupo de líderes latino-americanos que desafia o poder do império norte-americano para criar uma força regional que defenda os interesses do Sul. A figura central do livro é o presidente venezuelano Hugo Chávez. Nesta entrevista à BBC, Tariq Ali defende o governo de Chávez, rebate as principais acusações que lhe fazem, e diz que o que Chávez está a fazer é usar os lucros do petróleo para ajudar os pobres, com grandes investimentos em educação, em saúde, em habitações populares, o que explica a sua popularidade. "Esqueça o que diz a oposição. Eles tiveram uma grande oportunidade, durante os últimos 70 anos, e não fizeram nada."
Leia abaixo a entrevista de Tariq Ali à BBC:

Chávez usa os lucros do petróleo para ajudar os pobres

da BBC, em Londres

Chávez tem um bom relacionamento com Fidel Castro. Seria isso um retorno do marxismo?
Não acho. Encontrei Chávez sete vezes nos últimos anos e enquanto escrevia este livro. A julgar pelas políticas que ele está a adoptar, o que me parece é que ele está a criar uma democracia social de esquerda, no modelo do governo trabalhista do pós-guerra britânico.
Usar o Estado para regular o país, gastar o dinheiro do petróleo em saúde, em educação, reforma agrária, construção de casas para os pobres, este é o programa do seu governo.
Ele tem muita clareza a respeito do que faz e diz que nós não estamos a viver no século XX, estamos noutro século e vamos funcionar de acordo com ele, mas não vamos aceitar o Consenso de Washington, não vamos aceitar as políticas neoliberais e vamos desafiar os Estados Unidos.

Um dos argumentos contra Chávez é a maneira como ele parece disposto a associar-se a qualquer um que seja anti-americano. Quem for inimigo de Washington é amigo de Chávez?
Isso é um certo exagero. Basicamente, o que ele está a tentar fazer é criar um bloco no Sul que possa resistir, desafiar e lutar por seus próprios interesses. O seu foco principal está na América do Sul. Então, a vitória de Evo Moralles na Bolívia, de Ortega na Nicarágua, as eleições adulteradas pelo Estado no México... O continente está polarizado entre os bolivaristas e os que apoiam o Consenso de Washington.
E o que é interessante é que não existe fundamentalismo religioso envolvido. Trata-se essencialmente de uma visão social que Chávez e os seus seguidores estão a tentar projectar.

O poder real de Chávez está no petróleo, não? Os chineses querem, os Estados Unidos querem também...
Bem, ele vende bastante para os Estados Unidos, e o petróleo está no centro do programa de reformas que ele está a fazer. O que os Estados Unidos não gostam é do facto de que, se outros países tentarem fazer reformas semelhantes, ele está disposto a oferecer-lhes petróleo barato.
Está a fazer isso com a Bolívia, está a fazer isso com Cuba, provavelmente vai fazê-lo com a Nicarágua. Isso é uma coisa a que os americanos não estão acostumados, enfrentar esse tipo de oposição.

Quão democrático é esse movimento?
É totalmente democrático. Chávez deu ao povo venezuelano o poder de escolher a sua nova Constituição. É a única Constituição no mundo, com excepção da Suíça, que inclui o direito de retirar o presidente.
A oposição opôs-se e, depois, tentou usar esse direito para derrubar Chávez, mas ele venceu. Venceu abertamente, diante dos olhos do público e dos observadores internacionais.
Ele é constantemente atacado pelas redes particulares de televisão e os média privados. Nenhuma TV ou jornal foi proibido ou suprimido. Chávez existe por causa do apoio dos pobres.
A Venezuela é um país onde a divisão de classes é reflectida na divisão racial. Parte da hostilidade das oligarquias a Chávez existe porque ele tem a pele escura.

Acredita que esse movimento está a espalhar-se? Há grandes países sul-americanos contra o movimento. Um deles, na sua opinião, é o Brasil.
O Brasil está claramente contra. E tem havido grandes discussões dentro do PT a respeito do caminho a ser tomado. Vamos ver o que ele (Lula) faz no segundo mandato.

Por que o Brasil não está incluído no "Eixo da Esperança"?
Porque o primeiro mandato de Lula foi muito decepcionante. A decisão tomada pelo seu partido e pelos seus consultores próximos, e especialmente pelo ex-ministro (Antonio) Palocci, foi não fazer nada que questionasse a ordem económica estabelecida no Brasil, o que significa manter tudo o que tinha sido feito para agradar ao FMI e às instituições financeiras globais.
Isso foi muito decepcionante, não apenas para mim, mas para muitos no Brasil. Como resultado, o presidente Lula não ganhou as eleições no primeiro turno, seis milhões de eleitores votaram num candidato à esquerda dele. Espero que, no segundo mandato, o Brasil se torne parte do eixo da esperança.

Diz que Chávez dá dinheiro do petróleo aos pobres da Venezuela. No Brasil, existe o Bolsa Família. Alguns defendem a tese de que o Norte e o Nordeste do país vivem hoje um desenvolvimento económico simplesmente porque existe mais dinheiro em circulação, e que Lula foi eleito pelos pobres. Vê semelhanças entre Lula e Chávez nesse sentido?
Não vejo semelhanças. As políticas radicais de distribuição de riqueza na Venezuela foram muito mais longe do que em qualquer outro país latino-americano. E a experiência brasileira foi decepcionante, uma visão que é compartilhada pela população brasileira.
E nem falamos em corrupção. A corrupção em grande escala e os escândalos que envolvem o PT, um depois do outro... foram muito desmoralizantes. A questão é o que é que Lula é capaz de fazer no segundo mandato.
As publicações internacionais, como Financial Times e Economist, mostram o Brasil como um modelo alternativo ao da Venezuela. Eles estão perfeitamente conscientes do que está a acontecer. Entretanto, eu não perdi a esperança.
O primeiro mandato deveria servir como uma lição para Lula e para aquela facção do PT que quer seguir exactamente o que dizem as instituições financeiras globais. Vamos ver o que acontece. Mas, até agora, não foi bom.
O que eu gostava de ver um governo progressista brasileiro a fazer são duas coisas. Internamente, uma reforma agrária: distribuição de terras aos camponeses pobres. Depois, tentar construir um sistema de educação no país.
E a terceira coisa é que Lula precisa criar uma política externa independente. Fiquei muito chocado quando ele decidiu apoiar a ocupação do Haiti pelos Estados Unidos: a operação franco-americana no Haiti. Enviou tropas brasileiras para ocupar o país, um general brasileiro cometeu suicídio, outro renunciou, porque só o que lhes ordenavam é que matassem os pobres daquela ilha.

Chávez tem sido acusado de autoritarismo e o senhor defende-o neste aspecto. É possível para um país ficar fora do consenso neoliberal e não apelar para o autoritarismo? O senhor foi a Cuba e falou da opressão e da homofobia no sistema cubano.
Isso aconteceu no passado. Eles estão a tentar mudar. A homossexualidade foi legalizada, os autores proibidos nos anos 1970 e 1980 hoje estão a ser publicados. Eles perceberam que têm de mudar, e uma das razões pelas quais estão a mudar é por causa do impacto da Venezuela.
O que os latino-americanos estão a mostrar é que é perfeitamente possível, democraticamente, porque Chávez foi eleito cinco vezes, fazer mudanças sociais. E o povo quer que se faça isso. Estas pessoas estão a usar o sistema democrático para fazer mudanças sociais.
No Ocidente, por exemplo, a democracia está a esvaziar-se, com pouquíssimas diferenças entre a centro-esquerda e a centro-direita.

Chávez não estaria a tentar ser presidente vitalício?
Isso não é verdade. Ele foi eleito todas as vezes. E vai continuar a ser eleito. A oposição na Venezuela está uma confusão, porque eles apoiaram um golpe de Estado contra Chávez, organizaram uma greve da classe média contra ele, falam abertamente em derrubá-lo... Ou seja, não são muito inteligentes.
Eu detecto autoritarismo nas sociedades ocidentais em que vivemos hoje. As mentiras que foram ditas para nos levar à guerra contra o Iraque, mentiras pelas quais os políticos não foram punidos ou julgados.
Na verdade, quando vou à América Latina hoje em dia, e comparo a vibrante democracia latino-americana com o que vemos hoje no Ocidente, acho muito encorajador.
Claro, não há garantias. Não sei o que vai acontecer daqui a dez anos, ninguém sabe. Mas acho que existe um eixo de esperança, e isso é muito encorajador. As pessoas estão envolvidas com a política, enquanto, no Ocidente, jovens com idades entre 16 e 26 anos sequer têm interesse em votar.

Não poderíamos ver a estratégia de Chávez como a velha política populista de dar dinheiro aos pobres em troca de votos?
Se fosse tão simples, a oligarquia venezuelana poderia ter feito a mesma coisa. Não acho que seja tão simples, e acho que as pessoas já não sabem o significado de populismo, essa palavra já foi abusada demais.
O que Chávez está a fazer é usar os lucros do petróleo para ajudar os pobres. Há grandes investimentos em educação, em saúde, em habitações populares, algo que nunca aconteceu antes. Isso explica a popularidade dele, e é por isso que ele vai ser eleito de novo.
E porque ele está a mostrar a outras partes do mundo que isso é possível, é odiado pela elite internacional. Podem-se ler exactamente os mesmos ataques a Chávez em qualquer jornal do Ocidente. Praticamente todos os jornais falam exactamente da mesma maneira sobre ele. Inclusive parte da imprensa brasileira.
Isto é uma indicação de que algo está a ser feito. Não apenas para vencer as eleições. Este não é o objectivo. O objectivo é mudar a situação dos pobres.

Outra crítica feita pela oposição a Chávez é que, ao usar o dinheiro do petróleo dessa forma, ele não estaria a proteger o futuro da Venezuela. O que diz sobre isso?
Acho que o futuro da Venezuela é o povo venezuelano. E se ele está a melhorar as condições de vida dos venezuelanos, a educação, a saúde, ele está a tomar conta do futuro da Venezuela.
Há hoje programas de alfabetização para adultos no país, para garantir que todos possam ler e escrever. O fato de que ele tem de fazer isso no início do século XXI é uma indicação do que não foi feito antes.
Esqueça o que diz a oposição. Eles tiveram uma grande oportunidade, durante os últimos 70 anos, e não fizeram nada.

 
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