Chávez por ele mesmo criar PDF versão para impressão
29-Nov-2006

ESTAMOS A TRABALHAR PELO SOCIALISMO EM TODAS AS FACETAS: MORAL, POLÍTICA, ECONÓMICA, SOCIAL
chavez03Nesta entrevista à TV cubana, dada em 16 Setembro, Chávez rejubila com o que considera ser o renascimento dos Não-Alinhados, fala das mudanças que introduziu no país desde que chegou ao governo, prevê a vitória nas próximas eleições e afirma um compromisso com o socialismo em todas as suas facetas.

Hugo Chávez foi, segundo a imprensa internacional, uma das grandes estrelas da Cimeira dos Não-Alinhados que acaba de terminar, e não só pelo facto de trazer a voz da Venezuela, mas por ter trazido também a da América Latina. Também foram notícia os seus encontros com Fidel. Por que considera que esta Cimeira dos Países Não-Alinhados foi uma das reuniões mais importantes a que compareceu nos últimos tempos?

Na cimeira, a estrela é sempre Fidel. De manhã, perguntavam-me por que não estava Fidel. Como não está? Fidel, aqui, está em todo o lado. Essa é a estrela. Bem, a cimeira em si brilhou como uma estrela. E que grande trabalho o de Cuba, com a Malásia e os ministros dos Negócios Estrangeiros que estiveram lá, Felipe e toda a equipa trabalhando. Tudo foi previsto até o mais mínimo detalhe, até as cubanas com guayaberas vermelhas!

Ficou demonstrada a falsidade das teses imperialistas de que Cuba não se aguentaria depois da queda da União Soviética. Muitos não vinham a Cuba há dez anos, há cinco anos, alguns há mais tempo, alguns vêm pela primeira vez, e todos muitos felizes. Quero que se saiba - e isso vocês sabem - que me sinto cubano, pois compartilho essa alegria, essa felicidade. A Cimeira já brilhou, Cuba brilhou e com isso brilhamos todos, não?

Creio que aqui houve um relançamento dos Não-Alinhados, que era um movimento que muitos davam como desaparecido. Depois da queda da União Soviética vieram, como diz Stiglitz, os felizes anos 90. Fomos todos felizes e coisa e tal, a história acabou; acontece que, coisa e tal, o socialismo não acabou.

Acontece que agora há um ressurgimento da teses de um mundo diferente, alternativo. Por isso creio que vimos um pacto, ou seja, o grupo Não-Alinhado renasceu.

 

Como viu o Comandante?

Fidel falou ontem, achei que a voz dele era um trovão e disse: "estou a engolir tudo, pareço um touro magro na engorda". Acabo de vê-lo uniformizado. Quando o vi assim vestido, disse-lhe: "Fidel, será que eu sou mesmo bruxo?". Ele perguntou-me porquê, parado a três metros. Eu disse-lhe: "Pois seu eu venho de uma entrevista com a CNN e precisamente a última pergunta que a jornalista Janiot me fez foi do tipo 'Acha que Fidel vai retomar o poder'? E eu respondi que nunca o tinha perdido. 'Não, mas acha que ele vai voltar outra vez ao comando do barco?'. Disse-lhe: 'Olhe, Patricia, não vão passar muitas semanas até que o vejamos uniformizado'. Venho para cá e quando paro: uniformizado... Então, agora temos um novo Fidel, assim como há um novo Não-Alinhados, há um novo Fidel.

 

Queria ouvir algumas reflexões suas sobre o que está para acontecer na Venezuela. Temos acompanhado aqui o processo eleitoral, passo a passo, e parece-nos que será uma vitória da Revolução Bolivariana. Como vê o processo e como vê o apelo que fez para a criação de um partido único revolucionário depois das eleições de Dezembro?

Quanto à situação interna, estamos a dois meses e meio de um novo processo eleitoral, o 3 de Dezembro, eleições presidenciais. Tudo indica que vamos ganhar, no entanto sou dos que repete aquela velha expressão do futebolista Yogi Berra: "o jogo ganha-se no fim." Não podemos descuidar-nos até ao último segundo. Há muita motivação, a campanha entrou no calor, porque eu tive de ir para a rua também.

Estou na dupla tarefa de Chefe de Estado, Presidente e também candidato. Estivemos a organizar o povo de novo, como se recorda organizámo-lo para a Batalha de Santa Inés, Florentino, as UBEs (Unidades de Batalha Eleitoral), as patrulhas, agora temos os comandos de batalhões, os comandos de pelotões, os comandos de esquadrões e, bom, a coisa está a aquecer. Sobretudo nos meses de Outubro e de Novembro serão meses de mais calor. O nosso adversário é o império, como sempre, e as suas fichas internas, os seus candidatos de oposição - há 20, ou um pouco mais de 20.

 

Às vezes dá vontade de rir quando falam de um candidato único da oposição, referindo-se a Manuel Rosales...

Há 20 candidatos! A intenção é polarizar, mas este candidato não levanta voo, creio que tem um tiro em cada asa. São 20 e poucos candidatos e todos somados não chegam a 20 pontos nas sondagens. Se os distribuis estatisticamente, daria um ponto por candidato. Temos uma sondagem recente do dia em que saímos, da Datanalisis, que não é do governo, nem tem negócios com o governo, é privada. Quase 60 pontos de intenção de votos, e quando perguntam a popularidade dá 80 pontos.

Então, claro, há um povo que despertou; um povo que, apesar de todas as campanhas mediáticas, da satanização, do populismo da oposição, agora andam a dizer que eles vão distribuir os lucros do petróleo. Olha que isto é o mais ultrapopulismo, dizem que vão distribuir a cada família um milhão de bolívares por mês. Mas o povo não se deixa enganar. O importante é quando um povo desperta. O povo venezuelano pela primeira vez sabe que tem agora um governo capaz de encontrar os recursos necessários, porque quando a Revolução chegou, o governo, como consequência de erros estratégicos dos governos subordinados ao império, que violavam as cotas da OPEP, produziam mais petróleo que o necessário, com uma estratégia chamada de volumétrica. Quer dizer, o que importava era o volume, não o preço, com a privatização da PDVSA, etc. Acontece que o preço do petróleo veio abaixo.

A Venezuela, quando eu cheguei ao governo, não tinha dinheiro para pagar três meses de salários aos professores, aos médicos e aos funcionários públicos. Não havia dinheiro para nada, só pobreza: mais de 50% da população na pobreza, segundo as medições oficiais.

Toda a Cuba se recorda que este filho de Cuba também - como disse Martí em relação à Venezuela, "dê-me a Venezuela do que servi-la", dê-me Cuba em quê servi-la e terão sempre em mim um filho - saiu pelo mundo e até Bagdad cheguei. Sem experiência, mas com a vontade e uma equipa de amigos e companheiros fomos convocar a Cimeira da OPEP e dizer aos reis, aos príncipes, aos presidentes dos dez países, com a Venezuela são 11, que tínhamos de retomar a organização, cumprir as cotas, resgatar o valor da OPEP, resgatar o preço do petróleo. Produzimos a política de bandas e fomos recuperando os ganhos, mas não só pelo preço do petróleo, e sim também pela recuperação das entradas fiscais do petróleo, porque a PDVSA antes era um Estado dentro do Estado e já tinha as entradas fiscais a zero, a PDVSA engolia toda a entrada do petróleo. Só ela e a elite oligárquica.

Depois começámos a resgatar o imposto dobre os rendimentos, que quase não pagavam impostos. A própria PDVSA evadia impostos, imagine o que faziam todas as transnacionais. Sobredimensionavam os seus custos e gastos e com isso as entradas fiscais ficavam quase em zero.

Por outro lado, quase ninguém pagava impostos, especialmente os grandes contribuintes. É sinal de que estava nas mãos da oligarquia, carcomidos pela corrupção e pela ineficácia. Então, disse: não, aqui está a PDVSA e é preciso ensinar a pagar impostos. São as duas grandes vertentes ou caudais para o tesouro nacional, para redistribui-los na educação na saúde, na habitação, nos microcréditos, aumentos de salários, etc.

E a última medida que contribuiu poderosamente para recuperar e salvaguardar o tesouro nacional foi o controlo do câmbio. Se virmos os dados do Banco Central da Venezuela, é horroroso o sangramento do país. Por um lado entravam os recursos do petróleo e de impostos e outros, e por outro saíam. Um sangramento que chegou a 400 milhões de dólares diários, ninguém aguenta isso. Um país que estava agonizante, uma economia no chão, uma miséria. Pela primeira vez um governo começou a tomar estas medidas, que custaram caras, implicam no enfrentamento com o capitalismo, com o imperialismo, etc. Mudando leis, da Constituição até abaixo, recuperando os lucros petrolíferos e distribuindo-os. Orientando-os para os mais necessitados.

Por isso, estas medidas populistas de distribuir a cada venezuelano, a cada família um milhão de bolívares. Que é isso? É penoso. Os que o fazem não conhecem a consciência do povo. Pensam que estão numa Venezuela de há dez ou 15 anos, quando havia um povo maioritariamente adormecido, desinformado, enjoado, confundido, enganado. Agora não, o povo venezuelano despertou.

Então nós certamente que vamos ganhar as eleições. Vamos para outro período de seis anos e nesse período vamos aprofundar o processo revolucionário venezuelano.

 

Uma última pergunta, presidente. A Venezuela está no caminho do socialismo e Fidel escrevia, na sua dedicatória, que Chávez é o campeão olímpico das novas ideias socialistas. Para si, esse socialismo, esse novo socialismo que está a nascer na América Latina terá a possibilidade de demonstrar a sua validade a partir de la experiência venezuelana e a partir de outras experiências que estão a nascer?

 

A Venezuela está apenas num porto, como o azimute da bússola. Direcção? O socialismo. Com uma mudança de 180 graus, porque íamos rumo ao neoliberalismo, ao capitalismo e ao imperialismo. Éramos escravos, uma colónia do sistema imperialista. Agora a viragem é radical, de 180 graus rumo ao socialismo.

Eu cada dia estou mais convencido que sim, porque é o que estou a ver. Olhe que a proposta é socialista, o que nós chamamos de socialismo do século XXI, e estamos a desenvolver, a estudar, a ler muito enquanto caminhamos. Estamos a desenvolver, a ouvir, a experimentar. Este detalhe indica muito. Há dez anos, se perguntasse aos venezuelanos, numa sondagem séria, as suas opiniões sobre o socialismo, a favor do socialismo, quase nunca passava dos dez, doze por cento. Chamaram-lhe até assim, do ponto de vista político-eleitoral: os dez por cento históricos. Todos os partidos, desde o comunista, o socialista e os diferentes partidos do socialismo e os seus candidatos só chegaram aos dez por cento. Havia um teste: como romper essa barreira? Nunca conseguiram, tentaram de muitas formas.

Em apenas dez anos, que é o que dura já o nosso pregão socialista, as últimas sondagens dizem que já 50% dos venezuelanos olham para o socialismo, e uma boa percentagem, que chega a 20%, responde indecisa que não sabe muito bem, mas há 50% que dizem: socialismo.

Agora estamos a falar aos venezuelanos com exemplos muito claros. Por exemplo, quando damos microcréditos para cooperativas, autogestionários, às vezes sem juros, para os mais pobres, digo aos venezuelanos: isto é socialismo. No capitalismo isto é impossível.

Nós que somos cristãos, eu e a maior parte do nosso povo reivindicamos o cristianismo autêntico, defendemos que este socialismo que propomos tem muito de cristão, do amor entre nós mesmos, da igualdade. Isso é impossível no capitalismo. No capitalismo o que impera é o ódio, a competição e, no final, a sobrevivência do mais forte. A lei da selva, o darwinismo social, o egoísmo, o ódio, a ambição pessoal... Perdem-se os valores humanos.

Por isto, esta mensagem é cristã, e não é manipulação nenhuma, é o que eu sinto de verdade. Creio, quando o digo, profundamente, que Cristo foi o primeiro grande socialista da nossa era e Judas o primeiro grande capitalista. Isso o nosso povo entende muito facilmente.

Além disso, estamos a trabalhar do ponto de vista ideológico, para não nos ficarmos nas meras palavras-de-ordem, mas sim desenvolver o que é o socialismo do século XXI. Do ponto de vista moral, a moral socialista; do ponto de vista político, a democracia revolucionária e socialista; do ponto de vista económico, bom, tudo o que é os meios de produção e a propriedade colectiva, o controlo pelo Estado dos recursos estratégicos, a não privatização dos recursos do Estado, a recuperação da terra para a satisfação das necessidades das pessoas e não para o lucro especulativo.

Quer dizer, estamos a trabalhar pelo socialismo em todas as suas facetas: moral, política, económica, social; a sociedade de iguais, o homem novo, para tomar a tremenda frase de Ernesto Guevara.

 

Cubadebate 19/9/2006

Traduzido de www.lahaine.org

 

 
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