Venezuela, críticas à esquerda criar PDF versão para impressão
30-Nov-2006
"NÃO CREIO QUE HAJA UMA REVOLUÇÃO NA VENEZUELA"
Manifestantes wayuu no Forum Social Mundial em CaracasQuando se trata da Venezuela as críticas ao "governo bolivariano" só vêm de posições de direita. No entanto, dentro do país ouvem-se vozes críticas ao chavismo a partir de posições de esquerda.
É o caso de
José Quintero Weir, professor na Universidade de Zulia e membro do movimento indígena venezuelano. Eduardo Pérez da rede La Haine entrevistou José Quintero Weir, em Setembro de 2006 numa realização de colectivos autónomos da Cidade do México, onde Quintero apresentou o seu livro "O caminho das comunidades". EDUARDO PÉREZ: Qual é a situação actual dos povos indígenas venezuelanos?

JOSÉ QUINTERO: A anterior Constituição dizia que os povos indígenas da Venezuela não poderiam ser afectados pela exploração dos recursos e que os seus territórios estavam submetidos a um regime especial. Por exemplo, se algum estrangeiro ia para lá e queria visitar uma comunidade indígena tinha que pedir autorização ao Ministério da Defesa. Eram uma espécie de reservas, estávamos isolados. No entanto isso permitiu que durante muito tempo nenhuma companhia pudesse explorar nada.

A Constituição de 1999 elimina essa condição e diz que os indígenas têm direito a um habitat. Habitat é um conceito da biologia. O que nós dissemos é que temos território, que é um conceito político. Todo o povo é povo quando possui um território. Foi muito exacta a designação de habitat na Constituição, realizada por pessoas que não são revolucionárias e vinham dos governos anteriores. A Constituição tem os argumentos legais e jurídicos que as empresas, o Banco Mundial, o Banco Inter-americano de Desenvolvimento necessitavam... Houve uma mudança das constituições em toda a América Latina, porque as novas condições da globalização e as companhias transnacionais assim o exigem, para penetrarem em espaços onde não tinham podido penetrar: Amazónia, serra de Perijá, parte da cordilheira andina, ou seja, zonas de alta biodiversidade, reservas de água, urânio, minerais...

Por outro lado o Estado é dono de todas as terras. Nós dizemos que não, porque as populações indígenas são anteriores ao Estado. As terras do delta do Orenoco eram dos waraos. Se as deixaram, foi porque lá existe a maior quantidade de gás da Venezuela, as terras foram entregues à Chevron-Texaco para 100 anos de exploração. Não é exploração nacional, são empresas mistas. Os wayuu estão a perder o único rio que têm, porque está a ficar sujo pela produção de carvão. As outras minas estão do lado barí e do lado yubka, todas elas estão a ser outorgadas em concessões a empresas sul-africanas, norte-americanas, japonesas, inglesas, brasileiras...

Além disso, nunca se afectou, nem se vai afectar, o fornecimento de petróleo ao principal cliente, os Estados Unidos. A Venezuela produz dois milhões de barris diários, dos quais 200000 são nossos, para consumo interno. O resto da produção é para os Estados Unidos.

E.P.: Quais são as consequências da exploração dos recursos minerais?

J.Q.: As minas são o que se chama "minas a céu aberto", porque não se escava, não há túneis para tirar o material, mas sim dinamita-se, voa toda a parte exterior e certamente cai tudo no bosque, ficando a descoberto um grande buraco. Tiram a pedra de carvão, trituram-na e carregam os camiões. Essa pedra triturada vai para o porto, não é processada na Venezuela. Então mede-se a qualidade do carvão pela presença de enxofre. Quanto mais enxofre tiver, menor a qualidade do carvão. Menos enxofre, maior a qualidade. Quando fazem o furo, o carvão fica a descoberto e tem que ser molhado, senão pega fogo ao solo. Acontece que essa água, com o enxofre, gera ácido sulfúrico. Todas as fontes freáticas morrem e essas terras ficam improdutivas, não há processo de recuperação por via natural. Para que recupere, a via natural pode demorar no mínimo quatro séculos. De tal forma que nós não sabemos o que vai acontecer com as nossas terras. O governo está a oferecer outras terras noutro lugar e dinheiro, mas acontece que essas não são as nossas terras.

A população mais afectada é a que está junto aos campos petrolíferos na costa oriental do lago de Maracaibo. Aí vivem populações añu. Há povos que desapareceram, que são desalojados. Quando a companhia petrolífera inicia um novo poço desaloja a população. Os que não vão embora sabem que vão morrer doentes. Pela tradição casam muito jovens. Esta região está a produzir petróleo desde há 100 anos e na actualidade está toda contaminada. As vacas não parem e se parem os filhos são disformes. A produção agropecuária foi liquidada. Os pescadores têm que viajar distâncias enormes para pescar. Desapareceram muitas espécies que antes eram de consumo interno. È aí que nasce a maior quantidade de crianças sem cérebro. Quando chega o momento de parir o feto já está morto, pela contaminação do ar, por tudo o que produz a indústria petrolífera e petroquímica nesta região. Somos o país com mais casos de crianças sem cérebro. Além disso toda esta região foi declarada zona de operações militares. Lá não há liberdade de circulação. Para poder andar na nossa própria terra temos que, a cada passo, apresentar a nossa credencial ao exército.

Onde se produz carvão a doença é respiratória: a pneumoconiose. Há companheiros que trabalharam nessas minas, há um companheiro que tem trinta anos e tem o aspecto de ter 80.

E.P.: Houve mudanças quanto à participação política dos indígenas?

J.Q.: No princípio muitos companheiros acreditaram que nos estavam a dar uma participação. Há 157 deputados no país: três são indígenas, designados pelo partido do governo e não pelas comunidades. Nenhuma comunidade os reconhece como seus dirigentes ou representantes.

E.P.: De fora parece observar-se uma forte ligação entre a esquerda social venezuelana e Chavez. Qual é a relação actual, incluindo o movimento indígena?

J.Q.: O movimento indígena na Venezuela nunca teve tanta força como agora. Há um movimento social não só indígena, mas também a nível de desempregados, de moradores dos bairros urbanos, que saíram à rua na rebelião de 1989 e não voltaram a casa. Por isso se deu a vitória de Chavez, capitalizou a seu favor todo esse movimento social. Há dois anos se criticasses o governo diziam-te: "Estás a fazer o jogo da direita que quer derrotar o Chavez". Era muito difícil ser crítico nesse momento, sobretudo no contexto do referendo revogatório. Nós dizíamos: "Não vamos votar nem a favor nem contra, não vale esse referendo, estamos a defender uma coisa que não está dentro desse jogo". Imediatamente te identificavam com a direita golpista. Agora que essa direita tradicional perdeu muita força, o que está a acontecer é que o nosso discurso já não é só nosso, também o dizem os operários". "Os partidos tradicionais estão podres, quando vamos assumir nós o controlo?" Aqui está o debate de agora.

É certo que o governo cooptou muito desse movimento social, mas há muitos grupos que dizem que continuam a acreditar em Chavez, mas estão a exigir. Começam a dar um salto político, a avaliar o que estão realmente a viver. Não creio que Chavez tenha possibilidade de mudar: o modelo e os acordos com as companhias transnacionais estão muito claros e muito definidos.

E.P.: Na sua defesa o governo argumenta com o seu trabalho na educação, no aumento da participação popular, etc.

J.Q.: É parte do processo populista, mas isso não constitui uma estratégia real, mas sim saídas tácticas e momentâneas. Fundaram-se 10 do que se chamaram fundos zamoranos, cooperativas parecidas com os kibbutz israelitas. Restam três. Isso não funciona se não é acompanhado de uma política agrária. Também foram entregues empresas em falência. Certamente um bom negócio para o capitalismo. Eu sou dono de uma fábrica, abri falência, mas tenho o meu capital nos Estados Unidos e tenho uma infra-estrutura abandonada, velha e que praticamente não serve para nada. Vem o Estado e compra-ma, e eu fico além disso a ser sócio do Estado e dos trabalhadores. É o que chamam a cogestão, que na Venezuela apenas começou, pelo que não se pode falar de resultados. Mas também não está a corresponder a uma política de industrialização interna.

As pessoas não aspiram a que lhe levem uma bolsa de comida. Porque é verdade o plano Bolívar 2000 dá bolsas de comida. São panos quentes que inclusive foram necessários, mas não fazem parte de um projecto estratégico. As pessoas estão a exigir trabalho, poder decidir sobre o orçamento, etc.

Outro problema é que todo o poder gera corrupção. Os funcionários nãos são como o povo, que tem paciência. O Chavez diz-nos: "Companheiros, paciência." Este plano já dura há sete anos. E o povo teve paciência, mas os funcionários não. Quando se deu a subida do preço do petróleo, isso gerou uma mobilização de divisas incalculável e um maior enriquecimento ilícito.

E.P.: Há uma revolução na Venezuela?

J.Q.: Não creio que haja nenhuma revolução. Houve um governo progressista após ganhar umas eleições. As mudanças que se produziram até vinham de antes. Para falar de revolução tem que haver uma transformação do modelo económico e isso nunca se deu. De facto o primeiro gabinete económico de Chavez, de 1998 a 2002, foi o que deixou Rafael Caldera, que foi quem negociou com o Fundo Monetário Internacional. Todos esses funcionários foram impostos pelo FMI a Caldera. Em 2002 Chavez mudou de pessoas, mas não de política. A Venezuela é na actualidade o melhor pagador da dívida externa. Podemos falar que houve uma abertura de portas. O povo sentiu-se realmente identificado com Chavez e com a sua proposta, saiu à rua e defendeu-o. Isso permitiu que agora se esteja a exigir muito mais. Neste momento os grandes problemas de Chavez são as exigências populares dos seus próprios apoiantes, da sua base social. A diferença está em que ou eles o controlam ou ele os controla, uma das duas.

E.P.: Muita gente apoia o Chavez como mal menor ante os governos tradicionais.

J.Q.: Não ponho em dúvida que Chavez tem as melhores intenções, mas esse não é o problema. Não podemos dizer que a pobreza ou o desemprego são culpa do Chavez. São culpa de um modelo económico capitalista e dependente que se mantém apesar de se dizer que está a acontecer uma revolução. Houve muita esperança de que se mudasse o modelo e muitos companheiros acreditaram e acreditam que é possível que o governo vire o leme. Mas não.

Um dos grandes conflitos que temos todos os que estamos no processo de transformar o mundo é o que fazemos no imediato. Todos pensamos no estratégico. Sim, trata-se de um processo, mas acontece que nunca avançamos para o processo. Entretanto vamos fazendo concessões, que não são nada banais. Se nós não avançamos com outro modelo, quando queremos avançar já não conseguimos, porque ficamos atados pelas concessões que fizemos.

Não podemos continuar a sustentar a filosofia do mal menor, não podemos continuar a sustentar que falta muito para chegar. Isso é ver a história de uma forma linear: "Algum dia vamos lá chegar"... Não. Para nós a história são ciclos e pensamos que é necessário fechar este ciclo e iniciar um tempo novo.

Cidade do México

 
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