Um exemplo de jornalismo de serviço público criar PDF versão para impressão
11-Mar-2009

Renato SoeiroNo decorrer desta crise global, a divulgação dos níveis escandalosos de remuneração dos dirigentes das grandes empresas, incluindo das que estavam falidas, produziu um enorme choque nos seus trabalhadores e na população em geral, a quem se pedia, ano após ano, todos os sacrifícios.

Um trabalho notável para a exposição pública desta extorsão, que ainda continua, está a ser feito pelo jornal holandês "de Volkskrant", o mais importante jornal do país. No seu sítio da internet abriu uma secção onde publica os (normalmente bastante secretos) salários e remunerações dos executivos de topo, sobretudo holandeses ou estrangeiros a trabalhar naquele país. Uma base de dados permite aceder mesmo, pelo nome da pessoa e da empresa, à evolução destas remunerações ao longo dos últimos anos, bem como aos valores extra-salário, como bónus, complementos de pensões, opções de acções, etc.

Esta base de dados é hoje bastante popular na Holanda e tem causado imenso incómodo às direcções das empresas. O "de Volkskrant" começou por recolher dados através dos Relatórios e Contas e das informações que as sociedades cotadas em bolsa são obrigadas a fornecer ao mercado. Mas, com a popularização do site, as suas fontes alargaram-se imenso, porque há pessoas que têm contacto com o processamento desses valores e que, indignados, vão fornecendo informações para publicar.

Em Portugal, também vieram a público alguns casos de despesas sumptuárias, reformas de luxo, pára-quedas dourados e ordenados principescos, alguns pagos já depois de a crise estar instalada. Será que o exemplo holandês vai frutificar? A transparência, tradição no Norte da Europa, nunca foi o nosso forte. Mas talvez a crise nos ajude a mudar.

Renato Soeiro, texto publicado em renatosoeiro.blogspot.com e no jornal O Gaiense.

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