Para a Clara, para a Joana e para os amigos criar PDF versão para impressão
14-Mar-2009
Miguel Portas

Foram muitos os que ontem passaram pela igreja para se despedirem. Hoje, no estádio da Académica e na Lousã serão outros tantos e mais ainda. Não marcaram presença porque o João fosse uma figura mediática, mas porque era simplesmente um excelente tipo.

Ele era do género jornalístico do antigamente. Até no bigode que nunca largou. Ou no cigarro que o levou. Vivia da luz da lua. Não me lembro facilmente de alguém que gostasse tanto de uma boa conversa como ele. Era um perigo começar uma noite com ele pelo jantar ou procurar terminá-la levando-o a casa. Ele desviava-nos. Desviou-nos ontem pela última vez.

O João era um tipo de esquerda às direitas.
Quando nos conhecemos no liceu Passos Manuel ele já era assim. Eu PC e ele maoísta. Na altura isso tinha imensa importância, mas não para nós. Foi aí que nasceu uma amizade que resistiu, até, aos golpes mais baixos. Uma vez, à porta do liceu, li-lhe umas passagens do Esquerdismo, doença infantil do comunismo sem denunciar a autoria da obra, que cuidadosamente forrara. O João atirou-se de imediato ao reformismo da citação e eu, triunfante, exibi o chato do Lenine. Coisas de miúdos, já se vê. Ou, mais prosaicamente, um pretexto para mais um café, que durou até ontem, com alguns intervalos de permeio.

Eu gostava mesmo daquele tipo. Ele também estava naquela assembleia de estudantes do ensino secundário que a polícia interrompeu e que acabaria no governo civil de Lisboa. Quando a PSP e a Pide nos detiveram, procederam de imediato à identificação dos presentes. Perguntava o filho da puta: nome, nome da mãe, nome do pai... profissão do pai... Quando chegou a altura do João, ele respondeu: "enrabador de curiosos". O pai, que era juiz, nunca deve ter sabido. Como é que não se pode ser amigo de alguém com saídas destas?

Houve um momento em que o passei a admirar profissionalmente.
Era ele jornalista no Semanário e cobria o PC. Foi uma luz de verdade num jogo de mentiras. O PC entrara em ebulição interna e a cultura de fortaleza sitiada de uns era compensada com um jogo muito, muito feio, de informação inquinada do outro. Eu estava, então, na "terceira via" e o João recorreu aos meus conhecimentos. Conferimos muitas vezes as informações que recebia: o valor da notícia propriamente dita, a valia da fonte e os modos de a confirmar por outras vias. O seu interesse era profissional; o meu, confesso, era político. Ele estava de um lado e eu do outro, mas ambos, por diferentes motivos, queríamos informação não contaminada. Ele porque não confundia as ideias com o rigor que o ofício exigia; eu porque sabia que a mentira, bem mais do que a verdade, inviabilizava qualquer hipótese de evolução interna no partido em que ainda acreditava.
Não sei o que o João terá feito aos seus cadernos de apontamentos. Ele apontava tudo, com aquela letra de gaiato aprumado que usou até ao fim dos dias. Sei que deveriam ser exibidos em aulas de jornalismo, para que as novas gerações soubessem como se investigam universos fechados. Aprendi imenso com ele. Tenho pena de nunca lho ter disto deste modo.

Mais ou menos a partir de 2002, a sua vida profissional passou a ser mais difícil. Porque nunca fez favores a ninguém, foi, por mais de uma vez, tramado; porque pensava que o jornalismo escrito não dispensava a inteligência e a paciência, incomodava. Era um chato no mundo da notícia pronta a servir. Espantosamente, continuou a acreditar na profissão, tal como sempre a entendeu. Porque era um tipo sério e exigente, mesmo fora dos quadros das redacções, houve sempre quem lhe fosse propondo, aqui e ali, trabalhos. A sua última grande investigação foi, aliás, o maior dos seus trabalhos: Académica, História do futebol, escrito em parceria com João Santana. Pois, o futebol e a Académica. Mas disso outros dirão muito melhor do que eu.

Já perceberam que sempre gostei do João, ponto. No último ano e meio mais ainda do que antes. Quando lhe detectaram o cancro, marcaram-lhe bilhete de partida para daí a umas semanas. Ele fintou a morte até ontem. Parecia um milagre. Na verdade, carregava numa perna a amizade e na outra a vontade. Há umas semanas parecia ter enganado o destino mais uma vez. A enésima. Ainda o vi depois disso, porque quis estar presente no lançamento da candidatura europeia, onde tinha pelo menos duas grandes amizades. A brincar, dizia à Marisa que não queria partir sem a ver em Estrasburgo. Essa, já não conseguiu. Mas não é importante, porque o levaremos connosco onde quer que estejamos.

Miguel Portas, artigo publicado também no blogue Sem Muros

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