O problema não está nos salários criar PDF versão para impressão
16-Mar-2009

Nuno TelesNa semana passada, diversas publicações deram voz ao que Vítor Bento, presidente da SIBS, escreve no blogue da SEDES. Vítor Bento argumenta que, segundo o BCE, os custos unitários de trabalho em Portugal aumentaram mais 24% do que na Alemanha e mais 13% do que a média europeia (presumo que desde 2000). Segundo o economista, tal aconteceu "porque os aumentos salariais foram acima do que deveriam ter sido". A resposta para o problema passará por "uma redução dos salários reais" (Visão, 5/03/09).

Não conheço o argumento de Vítor Bento em pormenor, já que o seu prometido livro ainda não está à venda. Quero acreditar que o seu argumento tem nuances. Contudo as suas declarações, alvo de destaque em inúmeras publicações, valem por si mesmas, e configuram um claro exercício de legitimação da continuação da austeridade assimétrica permanente de que tanto temos falado. É grave, quando proeminentes economistas adoptam um discurso manipulador, simplista e, sobretudo, desastroso para economia portuguesa. É que podem ser levados a sério...

A manipulação

Vítor Bento constrói o seu argumento com base nos custos unitários de trabalho. Este indicador de competitividade é construído através da divisão de todos os custos do trabalho (salários, contribuições para a Segurança Social, etc) pelo produto real. Ora, neste cálculo só o produto é deflacionado. Os custos do trabalho são tomados no seu valor nominal. Ou seja, imaginemos dois países com a mesma moeda, Portugal e Alemanha. Os dois têm crescimentos de 5% do PIB e nos dois os custos salariais estão alinhados com a taxa de inflação (os salários reais estão assim congelados). Portugal tem uma taxa de inflação de 10%, enquanto a Alemanha observa uma taxa de 5%. O resultado será um aumento acrescido dos custos unitários do trabalho de Portugal de 5% face à Alemanha. O problema não estará, neste caso, nos salários, mas sim nas diferentes taxas de inflação.

Foi exactamente isso que aconteceu nos últimos anos na zona euro. A inflação foi bastante diferente de país para país. Como podemos observar pelos gráficos, existe quase uma identificação entre a posição dos diferentes países no primeiro (custos unitários) e segundo gráfico (evolução da inflação). Foram os países com maiores taxas de inflação a exibir uma evolução mais pronunciada dos custos unitários de trabalho.

Custos unitários de trabalho nominais

Índice de preços ao consumidor

Por outro lado, se observarmos a evolução dos custos unitários reais, deflacionando os custos de trabalho, observamos uma queda destes. O que é que isso nos mostra? Uma crescente desigualdade na repartição dos ganhos de produtividade em favor do capital. O problema não está definitivamente nos salários.

Custos unitários de trabalho reais

Os gráficos foram feitos a partir dos dados da AMECO. Clicar para aumentar a imagem.

O simplismo

O facto do problema de competitividade estar situado na inflação e não nos salários reais não nega que haja um problema na divergência dos custos unitários de trabalho. Ele existe, mas a exposição de Vítor Bento, não é só manipuladora, como simplista. Ignora-se por completo a raiz do problema: a falta de coordenação de política económica dos países da moeda única. Até à chegada do Euro, um dos critérios de adesão era a convergência das diferentes taxas de inflação europeias. De facto, nos anos que precederam o euro assistiu-se a uma convergência das diferentes taxas de inflação. No entanto, tal critério foi abandonado no pacto de estabilidade, devido ao estreito entendimento de considerar que com a moeda única a única variável que poderia afectar a inflação seria o défice orçamental. Estavam enganados. A partir da criação do euro as taxas de inflação começaram a divergir nos países aderentes. O resultado foi, por um lado, a existência de taxas de juro reais próximas do zero ou mesmo negativas para os países com maiores taxas de inflação, uma vantagem competitiva face aos países, como a Alemanha, com taxas de inflação menores. Por outro lado, os seus custos unitários de trabalho nominais aumentaram face a estes países, perdendo competitividade.

Vítor Bento deveria defender, neste contexto, uma nova arquitectura económica na U.E., onde haja efectiva coordenação entre os diferentes países e um real orçamento europeu que corrija assimetrias e possibilite uma rede de protecção social a todos os europeus (nada de muito diferente do papel que os orçamentos de cada país têm na coesão nacional).

Prescrição para o desastre

Vítor Bento, que já no passado Outono se manifestava contra a subida do salário mínimo, prescreve um congelamento ou mesmo redução dos salários como forma de Portugal escapar à crise. Parece piada... Num contexto de crise internacional profunda, com a procura internacional deprimida, é irresponsável avançar com este tipo de proposta. Porque não tenhamos ilusões, quando Vítor Bento fala de redução de salários, está a falar dos miseráveis salários pagos pelos grandes exportadores nacionais, como é o sector têxtil. Já nem discuto a relação subjacente, no mínimo discutível, entre custos salariais e competitividade de uma economia. Também não quero discutir a imoralidade de pedir tal ajustamento a quem ganha 500 ou 600 euros por mês no país mais desigual da Europa Ocidental. O que me parece evidente é que qualquer redução dos salários em Portugal teria como efeito imediato a redução da procura interna, única variável que, no presente, consegue ainda suavizar um pouco a abrupta queda das nossas exportações. Se esta crise, a maior desde 1929, já é grave, mais terrível se tornaria. O que precisamos é, pelo contrário, um combate à desigualdades efectivo que valorize os piores rendimentos e dinamize a procura.

Nuno Teles, economista, artigo publicado no blogue Ladrões de bicicletas

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