Campanha negra, para que te querem? criar PDF versão para impressão
16-Mar-2009
Cecília Honório

Santos Silva devia, do seu banco de sabedoria, ter sacado da teoria do "complot" como eixo do discurso populista, mas como não queria nem podia, preferiu fundar a "campanha negra" na ciência política.

As perversões do arco central da governalibilidade são marca da pequenez das elites políticas. E se é certo que não há como o PSD a contaminar a vida alheia, também não há habilidade como a do PS na asfixia do aparelho de Estado.

O que se passa no Ministério da Educação, a limpeza de funcionários altamente experientes e qualificados, e o controlo estratégico desse grande centro comercial da modernidade (que oferece estatísticas de educação, plano tecnológico ou novas oportunidades) é só um exemplo do melhor do PS ao leme do Estado.

Mas com ou sem ajustes de contas políticos, a vitimização de Sócrates e a sublimação da campanha negra só podem não ser um tiro no pé - e deixar de parecer o que são: uma manifestação de desespero - se Sócrates conseguir pôr o "seu povo" a chorar, amedrontando-o com os riscos da instabilidade e a chantagem do fim da maioria absoluta.

Sócrates precisa desse povo, "quem mais ordena", como o aclamou no espectáculo do Congresso. Precisa de convencer a malta que é vítima dos "maus" - daí a centralidade do "complot" - e os "maus", que lhe fazem mal, são os mesmos que fazem "mal" ao povo.

E assim se multiplicam os "maus". Para além da comunicação social nomeada, há Ferreira Leite que, a anunciar a morte do país (e o PSD seria, porventura, a última sessão de quimioterapia), dá pouco que fazer. Os "maus" mais trabalhosos estão à esquerda. E a diabolização já não tem papas na língua, quando o BE é co-responsabilizado pela instrumentalização de uma central sindical e de duzentos mil trabalhadores e trabalhadoras que vieram à rua.

É sabido, e Santos Silva deve sabê-lo, que a efervescência populista é recorrente em contextos de crise, é legitimadora de governos que, com verborreia de esquerda, governam com políticas de direita, e estanca as crises de legitimidade política. Mas num país conhecido por Primeiros-ministros que, ou fogem, ou andam por aí, a "ficada" de Sócrates exige o melhor do marketing político: "Eu fico, deixem-me trabalhar, devolvam-me a maioria absoluta", é o que o Primeiro-Ministro implora.

Mas, para que o mecanismo funcione, ou seja, para conseguir radicalizar moral e emocionalmente a opinião pública, Sócrates precisa de se fazer mais vítima do que todas as que foi deixando pelo caminho, e precisa que as vítimas se identifiquem com ele.

Só que as vítimas do governo PS não foram alvo de campanhas negras, foram vítimas de políticas negras: desempregados e desempregadas, a quem este governo premiou com a redução da cobertura do subsídio de desemprego e com a contracção das políticas de investimento público; licenciad@s, doutorad@s, investigadores/as, jovens sem emprego, vidas adiadas; funcionári@s públic@s, "privilegiados" para serem descartados e precarizados; professores e professoras, alvo de estudos mentirosos, para poderem ser prato forte da chacota política como absentistas e preguiçosos, enquanto se destruía a sua carreira.

Estes e estas, e tantos outros, foram as vítimas das políticas negras do governo PS.

E não satisfeito por descartar e precarizar, o governo Sócrates instituiu o pânico social: a vigilância, a intimidação, o controlo das pessoas, o desprezo por anos e anos de trabalho, em nome da avaliação, da modernidade, do reformismo, ou de qualquer outro palavrão que eles foram capazes de inventar nestes quatro anos infindáveis.

Sócrates vai ter de arranjar uma lixívia política para as vítimas das suas políticas negras. As vítimas de Sócrates vão ter de continuar a manter elevado o protesto social, porque uma outra esquerda é possível, e porque os serviços públicos são fundadores de democracia, razão pela qual a qualidade da escola pública exige a mobilização de esforços e vontades para uma nova demonstração da força de quem tem razão.

Cecília Honório

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