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16-Mar-2009

Alice Brito D. José Cardoso Sobrinho é o Arcebispo de Olinda e Recife. Excomungou, há poucos dias, quinze médicos e uma mulher, mãe de uma menina de nove anos, que abortou depois de ter sido reiteradamente violada pelo padrasto. Pelo menos desde os seis anos.

A notícia quase demencial deu a volta ao mundo. Um eco de indignação fez-se ouvir e o Arcebispo tem-se, desde então, desdobrado em entrevistas justificativas da sentença decretada.

Diz o Arcebispo que só interveio porque o Bispo de Pesqueiras, o Bispo responsável pela diocese onde mora a menina, lhe pediu ajuda para evitar que o aborto se realizasse.

O Arcebispo acorreu diligente e empenhado à solicitação de auxílio, e montou, de imediato, competente e enérgico, um esquema de ingerência alicerçado no mais puro fanatismo e na mais transparente hipocrisia.

Informou-se em que hospital teria lugar a interrupção da gravidez. Telefonou ao director e, usando da sua autoridade eclesiástica, conseguiu daquele a garantia de que o aborto não seria realizado. O Director ter-lhe-á assegurado que aquela menina de nove anos e trinta quilos de peso daria à luz, certamente na paz do Senhor, o par de gémeos gerados na violação.  

Com o coração em festa julgou que tinha ganho mais esta partida. Intrusivo e brutal, julgou ser Deus, omnipresente, omnisciente, e todo-poderoso.

Contudo, os médicos agora excomungados, tiveram a verticalidade de analisar a tragédia, recusando a cumplicidade no crime que integraria a não interrupção daquela aviltante gravidez.

Todos os dias, no Ocidente desenvolvido, tecnológico, informatizado e moderno, se fica arrepiado com a lei do Islão, ou com as leituras que dela se fazem, e se clama e reclama contra os desvarios fundamentalistas e cruéis que a sua aplicação suscita. Todos os dias, o Ocidente superior e culto olha de longe as outras culturas, em sucessivos comprazimentos auto-referenciais, proclamando a sua excelência ética.

Eis se não quando lhe cai sobre a consciência altiva o talibanismo mais cruel, logo aceite e subscrito pela cúmplice governação vaticana, a noite vaticana, que numa estereofonia justificativa e solidária, reiterou a justeza da sentença proferida.

Que gente é esta que irrompe pela vida das pessoas, decide por elas, delibera, dá ordens, como se a sua existência dramática e infeliz fosse um pormenor, o seu futuro uma coisa sem importância, e a sua morte provável, dado que a criança corria sério perigo, um mero detalhe.

São proprietários certificados da verdade. Uma verdade tão velha e decadente quanto obscurantista e feroz, daquelas que integram a categoria das verdades fazedoras das grandes tragédias.

Esta gente não tem inquietações, não tem dúvidas, e foi há muito, privada de um mínimo de compaixão, o sal da decência.

Tem nove anos. Nove anos e trinta quilos.

Tinha um padrasto violador.

Estava grávida de gémeos. Corria risco de vida. O agressor não foi excomungado.

Alice Brito

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