EUA: É preciso debater o sistema de pagador único criar PDF versão para impressão
19-Mar-2009

amy_goodman.jpgO presidente Barack Obama prometeu implementar uma reforma do sistema de saúde, mas descartou a opção do sistema de pagador único. O sistema de "pagador único" é aquele que retira da jogada as companhias seguradoras privadas: o governo paga a cobertura, mas a prestação dos serviços médicos continua a ser privada. As pessoas continuam a escolher o médico que desejam consultar e o hospital da sua preferência. Com um sistema de pagador único reduzem-se os custos administrativos e eliminam-se os lucros que as companhias seguradoras agregam à prestação de serviços de saúde. Contudo, as soluções do tipo pagador único quase não aparecem no debate.

A organização Justiça e Precisão na Informação (FAIR, na sua sigla em inglês), que promove a diversidade e a equidade da informação nos meios de comunicação, acaba de publicar um estudo que revela que das centenas de notícias sobre o tema publicadas nos principais jornais ou transmitidas pelas redes de televisão na semana anterior à reunião de saúde de Obama "só cinco dentre esses incluíram opiniões de defensores do sistema de pagador único - e nenhuma delas foi transmitida pela televisão". A maioria das colunas de opinião que se referiam ao sistema de pagador único foram escritas por pessoas que lhe são contrárias.

O Congresso está a estudar o projecto de lei de "Atenção médica ampliada e melhorada para todos", introduzido pela resolução n. 676 da Câmara de Deputados, que foi proposta por John Conyers, democrata representante do estado de Michigan, com o apoio de outros 64 legisladores. Porém, ainda que na reunião do Congressional Black Caucus, que reúne os legisladores afro-americanos, Conyers tenha expressado a Obama o seu interesse em participar da reunião da Casa Branca sobre a saúde, o convite tardou a chegar. O mesmo aconteceu com os demais defensores do sistema de cobertura de saúde de único pagador.

Conyers tinha solicitado ir acompanhado da Dra. Marcia Angell, a primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe do New England Journal of Medicine, a revista médica de mais prestígio no país, e do Dr. Quentin Young. Young é talvez o defensor mais destacado do sistema de pagador único nos Estados Unidos. Foi o médico do Reverendo Martin Luther King Jr, quando ele vivia em Chicago. Com King, as "consultas a domicílio, que normalmente me levavam 15 minutos, estendiam-se a 3 horas", contou-me.

Mas Young chegou a conhecer ainda mais Barack Obama, mesmo que não fosse, e sim o seu sócio, o médico de Obama. Young foi vizinho, amigo e aliado durante décadas. "Obama apoiava o sistema de saúde de pagador único, fazia discursos em sua defesa", disse-me.

No fim de semana passado, centenas de pessoas - entre as quais se encontrava o governador do Illinois e três deputados - reuniram-se para prestar homenagem a este médico de 85 anos de idade. No entanto, qual foi a resposta da Casa Branca ao pedido de Conyers de incluir Young na reunião [sobre saúde]? Um rotundo "não". Quem sabe porque Obama sabe em primeira mão o quão convincente e comprometido é Young.

Depois de muitos protestos, finalmente Conyers foi convidado. Grupos activistas, como a organização Médicos por um Programa Nacional de Saúde (PNHP, na sigla em inglês) expressaram a sua indignação com o fato de que dentre os 120 participantes da reunião não havia nenhum outro defensor do sistema de pagador único. A Casa Branca finalmente cedeu e convidou o Dr. Oliver Fein, presidente da PNHP. Duas pessoas de um total de 120.

Excluídos do debate e silenciados pelos meios de comunicação, os defensores do sistema de pagador único estão a mobilizar-se. Russell Mokhiber, que edita e escreve para o Corporate Crime Reporter, decidiu que chegou a hora de atacar directamente o problema da deterioração do nosso sistema de saúde. Estão a preparar-se para assistir à reunião nacional da American Health Insurance Plans, a Associação dos Planos de Seguro de Saúde dos Estados Unidos, onde se reunirão outros num acto de protesto em que vão queimar as suas facturas do plano de saúde. Mokhiber disse-me: "As companhias seguradoras não podem ser parte do sistema de cuidados de saúde dos norte-americanos. Como podemos vencer essa gente? Temos de dar início a uma confrontação directa". Com o lançamento de uma nova organização, a Single Payer Action, Mokhiber e outros defensores do sistema de pagador único prometem enfrentar os executivos da indústria de seguros de saúde, os grupos de pressão e directamente os deputados, tanto em Washington DC como nos seus estados.

Está a formar-se uma massa crítica de apoio ao sistema de pagador único. Desde o prémio nobel de economia, Joseph Stiglitz - que me disse que ainda que tenha sido contrário a aceitá-lo, terminou por chegar à conclusão de que é a única alternativa possível - até aos próprios fornecedores de assistência médica, que são testemunhos e vítimas directas do fracasso do actual sistema. Geri Jenkins, uma das 150.000 integrantes do recém formado Comité Organizativo de Enfermeiras e Enfermeiros dos Estados Unidos disse-me: "É a única proposta de reforma do sistema de cuidados de saúde que pode funcionar... Hoje estamos a pedir um debate honesto e sério sobre políticas, porque no longo prazo vamos ganhar... as seguradoras de saúde vão cair com o peso da sua própria irrelevância".

Agora, o Dr. Young está convidado para uma reunião no Senado pelos "suspeitos de sempre" - as seguradoras de saúde, as grandes companhias farmacêuticas - e também alguns defensores da reforma do sistema de saúde. Perguntei a Young qual a sua opinião sobre as declarações da Casa Branca e do principal Senador vinculado ao assunto, Max Baucus, de que "o sistema de pagador único está fora do debate". "É indignante", respondeu-me. "Estamos muito zangados". Mas não desistem... Pedi a sua opinião sobre a proposta de mobilização que chama a população a queimar as suas facturas de planos de saúde. "Creio que a coisa está de tal maneira, que arde", disse, rindo. "Quando vejo esses tipos de acções, que não partem de uma iniciativa nossa, dou-me conta de que já se transformou num movimento".

Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna, publicada em 11 de Março de 2009 no Democracy Now.

Tradução: Katarina Peixoto, da Carta Maior. Adaptado para Portugal por Luis Leiria

Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!" um noticiário internacional diário, nos EUA, de uma hora de duração que emite para mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em Espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award" também conhecido como o "Premio Nobel Alternativo", outorgado no Parlamento Sueco em Dezembro.

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