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Um heterogéneo grupo de economistas norte-americanos -
onde se incluem os Prémios Nobel da Economia Kenneth Arrow e Robert Solow -
subscreveu recentemente um abaixo-assinado (http://epi.3cdn.net/1eb9aba51935a5b82b_13m6iixpt.pdf). Apoiam a aprovação do Employee
Free Choice Act, uma das promessas de campanha de Obama, porque
consideram que este é "crucial para reconstruir a nossa economia e reforçar a
nossa democracia". O projecto visa facilitar e proteger a formação e actuação
dos sindicatos nos EUA: "Entre 2000 e 2007 o rendimento mediano do agregado
familiar em idade para trabalhar caiu 2000 dólares - um declínio sem
precedentes. Neste período, a totalidade do crescimento foi para um pequeno
número de americanos ricos. Uma razão importante para esta mudança (...) está na
erosão da capacidade de formar sindicatos e de negociar colectivamente".
As desigualdades na repartição dos rendimentos e da
riqueza, que não cessaram de crescer um pouco por todo o lado, registaram uma
verdadeira explosão nos EUA nas últimas décadas. Este padrão, que está na base
da actual crise económica, não pode ser desligado do processo político de
mudança das instituições que enquadram o mundo do trabalho, associado a
transformações regressivas na repartição de direitos e obrigações entre os proprietários
e a esmagadora maioria dos trabalhadores. Perante um dos mais incipientes
Estados Sociais do mundo desenvolvido, o que aliás explica a medíocre
performance dos EUA em matéria de indicadores sociais, os trabalhadores puderam
manter os seus níveis de vida e ter acesso a muitos bens sociais vitais graças
ao recurso maciço ao crédito. A financeirização da economia norte-americana
alimentou-se deste processo e alimentou-o, constituindo uma resposta perversa
para os problemas da excessiva acumulação de capital em poucas mãos: a sua
valorização através dos circuitos financeiros do crédito e da especulação
ocultou o medíocre andamento do investimento produtivo e os problemas de
competitividade desta economia.
Estes desequilíbrios foram sempre saudados pela
generalidade dos economistas portugueses, cuja formação, calibrada para
justificar todos os preconceitos ideológicos, os levava a ver no modelo
norte-americano a mais perfeita aproximação de todos os idealismos mercantis de
manual. Nos EUA propriamente ditos, muitos economistas, mais atentos à
realidade socioeconómica, há muito que vinham alertando para a
insustentabilidade socioeconómica deste modelo que se difundiu nas asas da
globalização um pouco por todo o lado.
Uma das características mais saudadas do modelo
norte-americano era a sua suposta flexibilidade e ausência de rigidez. Na
discussão sobre políticas públicas, como em todas as discussões, há expressões
que ajudam a fixar os termos do debate e a encaminhá-lo para determinadas
direcções. É o que acontece com estas duas palavras, usadas na discussão sobre
a legislação laboral e sobre as regras que enquadram outros mercados. Elas já
contêm em si todo um programa. Quem é que pode defender a rigidez? No entanto,
a legislação laboral é considerada rígida quando, entre outras coisas,
reconhece certos direitos aos trabalhadores, impõe correspondentes obrigações
aos empregadores, estrutura as relações laborais de forma a que os últimos não
sejam capazes de impor alguns custos sobre os primeiros, ou quando suporta
determinados mecanismos de participação colectiva e de determinação das normas
salariais que minimizam os desequilíbrios estruturais entre as partes
contribuindo, por exemplo, para um virtuoso processo de compressão salarial.
Se isto é assim, por que é que se usa a palavra rigidez?
Será que devemos enquadrar esta discussão apenas pelo prisma, pelo suposto
prisma, de quem emprega? E por que é que, implicitamente, os economistas de
manual o fazem quase sempre? O que é constrangimento para uns não pode ser
liberdade e flexibilidade para outros? O que é custo para a empresa não pode
ser benefício para os trabalhadores e para o conjunto da sociedade?
Legislação que distribui os direitos e as obrigações numa
direcção que aparentemente protege quem é empregue pode a prazo redundar em benefício
para certos sectores empresariais sob a forma de trabalhadores mais
qualificados, de maiores incentivos para a modernização da estrutura produtiva
e de mercados mais amplos, suportados por uma procura mais dinâmica. Existe,
além do mais, ampla evidência que aponta para a relação entre os mecanismos
institucionais que protegem a acção colectiva dos trabalhadores e que garantem
uma melhor repartição dos rendimentos e a robustez do Estado Social que garante
a todos o acesso a bens sociais vitais.
Paul De Grauwe, um dos mais reputados economistas
europeus, defendeu precisamente, em artigo recente, que, num contexto de crise
global e de interacção perversa entre a deflação e o sobreendividamento, as
economias com direitos laborais mais assertivos e com Estados Sociais mais
robustos dispõem de mais mecanismos para curto-circuitar a quebra de
investimento e de rendimentos que resulta do esforço de cada agente económico
para fazer face a níveis de endividamento crescentes em contexto de quebra dos
preços (Financial Times 23/02/2009). A maior dificuldade em despedir ou em
cortar os salários, o acesso a subsídios de desemprego mais generosos, que
evitam cortes tão intensos na procura, a maior viscosidade dos preços, que
bloqueiam, pelo menos parcialmente, espirais descendentes geradoras de falência
e de aumentos de desemprego, ajudam a estabilizar as economias.
Infelizmente De Grauwe continua a usar a dicotomia
rigidez/flexibilidade. É preciso superá-la em definitivo. Quem
se apropria do quê e porquê? Esta é a questão económica por excelência. Responder-lhe
obriga-nos a reconhecer, na esteira de Warren Samuels, um dos grandes
economistas institucionalistas norte-americanos, que a economia é sempre
estruturada por sistemas de regras que gerem as interdependências da vida
económica, ou seja, por sistemas que definem quem é que pode impor custos sobre
quem, quem é que pode coagir quem, como é que a liberdade é repartida e quem é
que a ela está exposto. Assim, talvez consigamos ultrapassar com mais
facilidade a rigidez dos simplismos de manual com que tantos economistas
nacionais se enganaram e nos tentaram enganar.
João Rodrigues, Economista e co-autor do blogue
Ladrões de Bicicletas (http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/).
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