Guerra civil nos Estados Unidos? criar PDF versão para impressão
19-Mar-2009

immanuel_wallerstein.jpgEstamos a acostumar-nos a todos os tipos de quebra de tabus. A imprensa mundial está cheia de discussões sobre se seria uma boa ideia "nacionalizar" bancos. Não foi senão Alan Greenspan, discípulo do superlibertário profeta do puro capitalismo de mercado, Ayn Rand, que disse recentemente que temos de nacionalizar bancos a cada cem anos, e pode ser este o momento de fazê-lo. O senador conservador republicano dos EUA Lindsay Graham concordou com ele. O keynesiano de esquerda Alan Blinder discutiu os prós e contras desta ideia. E apesar de achar que os contras são maiores que os prós, dispôs-se a gastar energia intelectual a escrever sobre este tema no New York Times.

Bom, depois de ouvir propostas de nacionalização de notáveis arqui-conservadores, estamos agora a ouvir discussões sérias sobre as possibilidades de eclodir uma guerra civil nos Estados Unidos. Zbigniew Brzezinski, apóstolo da ideologia anticomunista e conselheiro de Segurança Nacional do presidente Carter, apareceu num talkshow matutino em 17 de Fevereiro, e pediram-lhe que comentasse uma menção anterior à possibilidade de eclodirem conflitos de classe nos Estados Unidos, na esteira de um colapso económico mundial.

Brzezinski disse que estava preocupado com isso devido à perspectiva de "milhões e milhões de pessoas desempregadas enfrentando apertos terríveis", pessoas que ficaram a saber "desta extraordinária riqueza que foi transferida para uns poucos indivíduos, sem precedente histórico na América."

Lembrou aos espectadores que, quando houve uma crise bancária maciça em 1907, o grande financista J.P. Morgan convidou um grupo de ricos financistas à sua casa, trancou-os na biblioteca, e não os deixou sair até que tivessem dado dinheiro para um fundo de estabilização dos bancos. Brzezinski disse: "Onde está hoje a classe endinheirada? Por que não estão a fazer alguma coisa aqueles que ganharam milhões?"

Como nada fazem voluntariamente, disse Brzezinski, "vai haver conflitos crescentes entre as classes, e se as pessoas estão desempregadas e a sofrer realmente, diabos, pode até haver motins!"

Quase simultaneamente, uma agência europeia chamada LEAP/Europe que publica boletins mensais confidenciais intitulados Global Europe Anticipation Bulletins para os seus clientes - políticos, funcionários públicos, empresários e investidores - dedicou a sua edição de Fevereiro à perturbação geopolítica global. O relatório não desenhou uma bonita imagem. Discutiu a possibilidade da guerra civil na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. Previu um "tumulto generalizado" que vai conduzir a conflitos, semi-guerras civis.

Há especialistas que dão conselhos: "Se o seu país ou região é uma zona em que há disponibilidade maciça de armas, a melhor coisa a fazer é... sair da região, o mais depressa possível." O único destes países que se adequa à descrição de disponibilidade de armas em massa é os Estados Unidos. O chefe da LEAP/Europe, Franck Biancheri, observou que "há 200 milhões de armas em circulação nos Estados Unidos, e a violência social já se manifesta nos gangues." Os especialistas que escreveram o relatório afirmam que já está em curso uma emigração de americanos para a Europa, porque é onde "o perigo físico vai ser marginal".

Se Brzezinski espera pelo surgimento de outro J.P. Morgan nos Estados Unidos para forçar o bom senso da classe "endinheirada", o relatório da LEAP/Europe vê uma "última hipótese" na reunião de 2 de Abril em Londres do G20, desde que os participantes aprovem um plano "convincente e audacioso".

Estas análises não vêm de intelectuais de esquerda ou de movimentos sociais radicais. Elas expressam os temores de analistas sérios que são parte do actual establishment nos Estados Unidos e na Europa. Os tabus verbais quebram-se só quando pessoas como estas ficam realmente cheias de medo. Vale a pena quebrar tabus quando se tenta provocar uma acção rápida - o equivalente de J.P. Morgan a trancar os financistas na sua casa em 1907.

Era mais fácil em 1907.

Immanuel Wallerstein

15 de Março de 2009, Comentário nº. 253

Tradução de Luis Leiria

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