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20-Mar-2009


Uri AvneryEsta semana tive uma experiência nostálgica. Conheci uma delegação parlamentar de um dos países europeus. O que transformou esta reunião numa ocasião especial para mim foi a sua localização.

O "Pasha Room" do Hotel "American Colony" em Jerusalém Oriental é um belo salão quadrado, decorado em estilo árabe tradicional. Eu estava na sala no momento em que Yitzhak Rabin estendeu a mão para Yasser Arafat no relvado da Casa Branca na cerimónia da assinatura do Acordo de Oslo.

Estávamos reunidos lá espontaneamente, activistas da paz israelitas e líderes da Fatah, para celebrar o evento em conjunto. Vimos as cerimónias na televisão e estourámos garrafas de champanhe. Eu ainda tenho uma das rolhas.

Apenas uma hora antes, tinha assistido a um encontro não menos emocionante. Um grupo de jovens palestinianos que, delirantes de alegria, marchavam pelas ruas, de ramos de oliveira nas mãos e uma grande bandeira palestiniana flutuando sobre as suas cabeças. Na esquina, uma unidade da polícia de fronteira - a mais agressiva força anti-árabe em Israel - estava à espera. Naquela altura, até mesmo a simples posse de uma bandeira palestiniana era um crime.

Por um momento, sustivemos a nossa respiração. O que é que ia acontecer? Os palestinos correram para a polícia e colocaram os ramos de oliveira nas suas mãos. Os polícias não sabiam o que fazer. Eles ficaram, obviamente, num estado de total desorientação e não reagiram de todo. Os entusiásticos jovens continuaram o seu caminho pelas ruas de Jerusalém Oriental, cantando e festejando.

Hoje, 15 anos e meio mais tarde, só podemos olhar para trás com saudade a paixão pela paz que então nos dominava. Nada se manteve daquele fervor, daquela esperança, daquele entusiasmo pela reconciliação.

Todos esses sentimentos foram agora substituídos por uma mistura tóxica de desesperança e desânimo.

* * *

Se interromper quaisquer dez transeuntes, aleatoriamente, numa rua de Tel Avive e perguntar-lhes o que pensam sobre as oportunidades de paz, nove entre eles encolherão os ombros e responderão: Não vai acontecer. Nem pensar. O conflito vai simplesmente continuar para sempre.

Eles não vão dizer: Nós não queremos a paz, o preço da paz é demasiado elevado. Pelo contrário, muitos irão declarar que pela paz estão dispostos a devolver os territórios ocupados, inclusive Jerusalém Oriental, e a deixar que os palestinianos tenham o seu próprio país. Certo. Porque não? Mas, acrescentarão: "Nem pensar. Não haverá paz.

Alguns dirão: Os árabes não querem isso. Outros dirão: Os nossos líderes não podem fazer tal. Mas a conclusão é a mesma: Isto não vai acontecer.

Uma sondagem semelhante com palestinianos obteria provavelmente os mesmos resultados: Nós queremos paz. A paz seria maravilhosa. Mas não há nenhuma oportunidade. Não vai acontecer.

Este clima tem produzido a mesma situação política em ambos os lados.

Nas eleições palestinianas, o Hamas ganhou, não pela sua ideologia, mas porque expressa o desespero da paz com Israel.

Nas eleições israelitas, houve um movimento geral para a direita: os de esquerda votaram a favor do Kadima, os do Kadima votaram no Likud, os do Likud votaram a favor das facções fascistas.

Sem esperança não há esquerda. A esquerda é optimista por natureza, ela acredita num futuro melhor, cheio de oportunidades para mudar tudo para melhor. A direita é por natureza pessimista. Não acredita na possibilidade de mudar a natureza humana e a sociedade para melhor, está convencida que a guerra é uma lei da natureza.

Mas entre os desesperados ainda existem aqueles que esperam que uma intervenção por parte dos estrangeiros - americanos, europeus, mesmo árabes - que viriam impor a paz entre nós.

Esta semana, essa esperança foi severamente abalada.

* * *

Na TV foi exibida uma conferência impressionante, uma enorme assembleia de líderes mundiais, que todos vieram a Sharm-el-Sheikh. (Lembram-se que durante a nossa [de Israel] ocupação do Sinai, foi chamado de Ophira? Lembram-se de Moshe Dayan dizer que preferia Sharm-el-Sheikh, sem paz, do que paz sem Sharm-el-Sheikh?).

Quem é que não estava lá? Chineses e japoneses, ombro com ombro, com sauditas e cataris. Nicholas Sarkozy esteve em todo o lado (na verdade, era quase impossível tirar uma fotografia sem que o hiper-activo presidente francês nela não figurasse em algum lugar.) Hillary Clinton foi a estrela. E Hosni Mubarak comemorou a sua proeza de juntar todos eles em solo egípcio.

E para quê? Para pouco, pobre Gaza. Tem de ser reconstruída. Foi uma celebração da hipócrita e santimonial hipocrisia, na melhor tradição da diplomacia internacional.

Antes de mais, ninguém de Gaza esteve presente. Tal como no auge do imperialismo europeu, há 150 anos, o destino dos nativos foi decidida sem que os próprios nativos estivessem presentes. Quem precisa deles? Afinal, são Primitivos. Melhor sem eles.

* * *

Mas não foi só o Hamas que esteve ausente. Uma delegação de empresários e activistas da sociedade civil de Gaza não pôde estar presente também. Mubarak não lhes permitiu passar o cruzamento de Rafah. O portão da prisão chamada Gaza foi barrado pelos carcereiros egípcios. A falta de delegados de Gaza, e sobretudo do Hamas, transformou a conferência numa farsa.

O Hamas governa Gaza. Ganhou as eleições, tal como em todos os territórios palestinianos, e continua a governá-lo mesmo depois de uma das mais poderosas forças armadas do mundo ter gasto 22 dias a tentar desalojá-lo.

Nada vai acontecer na Faixa de Gaza sem o consentimento do Hamas. A decisão mundial de reconstruir Gaza sem a participação do Hamas é pura insensatez.

A guerra terminou com um frágil cessar-fogo que se desmorona diante dos nossos olhos. No seu discurso de abertura da conferência, Mubarak insinuou que é Ehud Olmert que está a impedir um armistício (chamado Tadyah ou calma em árabe).

Ninguém na conferência reagiu. Mas quando não há um cessar-fogo, uma outra guerra, ainda mais destrutiva, está iminente. É só uma questão de tempo - meses, semanas, talvez dias. O que ainda não foi destruído será em seguida destruído.

Então, qual é a vantagem em investir milhares de milhões para reconstruir as escolas, hospitais, edifícios governamentais e casas normais, que serão demolidos novamente de qualquer forma?

Mubarak falou sobre a troca de prisioneiros.

Sarkozy falou muito patético sobre o soldado "Jilad Shalit", um cidadão francês que todos os franceses querem que seja libertado.

Interessante. Existem 11 mil prisioneiros palestinianos nas prisões israelitas. Quantos destes também deterão uma cidadania francesa? Sarkozy não disse. Isso não lhe interessa. Mesmo neste bando de hipócritas, ele esforça-se ao máximo para ganhar o campeonato.

Os participantes da conferência prometeram a Mahmoud Abbas fabulosas somas de dinheiro. Cerca de cinco mil milhões de dólares. Quanto é que vai realmente ser pago?

Quanto dele irá realmente conseguir passar pelo crivo do ambicioso grupo de Ramallah e chegar a Gaza? Segundo uma mulher de Gaza que apareceu na televisão, uma mãe sem tecto que vive numa pequena tenda no meio de uma enorme poça lama: nem um cêntimo.

Foi a parte política da sessão mais séria?

Hillary falou sobre "Dois Estados para dois povos". Outros falaram sobre "O processo político" e as "negociações de paz". E todos, todos eles sabiam que estas [palavras] não eram mais que palavras ocas.

* * *

No seu poema "Se", Rudyard Kipling perguntava " ... consegues suportar ouvir a verdade do que disseste,/Transformada, por gente desonesta, em armadilha para enganar os tolos.". Este é agora um teste para todos aqueles que contribuíram para o nascimento da ideia dos "Dois Estados" há uns 60 anos.

Esta visão foi - e continua a ser - a única solução viável para o conflito israelo-palestino. A única alternativa realista é a continuação da situação actual - ocupação, opressão, apartheid, guerra. Mas os inimigos desta visão têm inteligentemente fingido apoiá-la em todas as ocasiões.

Avigdor Liberman é a favor dos "dois Estados". Absolutamente. Ele explica-o claramente: vários enclaves palestinianos, cada um deles rodeado pelas forças militares israelitas e pelos colonos, como ele mesmo. Estes bantustões serão chamados de "um Estado palestiniano". Uma solução ideal, na verdade: o Estado de Israel ficará limpo de árabes, mas continuará a governar por toda a Cisjordânia e Faixa de Gaza.

Binyamin Netanyahu tem uma visão semelhante, mas diferentemente expressa: os árabes vão "auto-governar-se". Governarão as suas cidades e aldeias, mas não o território, nem da Cisjordânia nem da Faixa de Gaza. Não terão qualquer exército, é claro, nem controle do espaço aéreo sobre as suas cabeças, nem terão qualquer contacto físico com os países vizinhos. Menachem Begin costumava chamar-lhe "autonomia". Mas será a "economia da paz". A economia palestiniana irá "florescer".

Até mesmo Hillary Clinton ridicularizou esta ideia publicamente antes da reunião com Netanyahu.

Tzipi Livni quer "Dois Estados-Nação". Sim, minha senhora. Quando?

Bem ... Primeiro de tudo, tem de haver negociações, ilimitadas no tempo. Que não se tornaram realidade durante os anos em que ela as conduziu, nem foram a parte alguma no que quer que fosse.

Ehud Olmert fala sobre o "processo político" - porque é que ele não o conduziu para uma conclusão bem sucedida durante os anos da sua administração? Por quanto tempo tem o "Processo" de continuar? Cinco anos? Cinquenta? Quinhentos?

Hillary fala de "Dois Estados". Fala com muita garra. Está pronta a falar com qualquer governo israelita, que venha a ser criado, mesmo que inspirado pelas ideias de Meir Kahane. O principal é que falem com Mahmoud Abbas, e que Abbas, entretanto, receba dinheiro, muito dinheiro.

* * *

Um governo de extrema-direita está prestes a ser criado. O Kadima decidiu, o que é de louvar, não aderir. Por outro lado, Ehud Barak, o pai do "Não temos parceiros para a Paz", está procurando desesperadamente uma maneira de entrar. E porque não? Ele não será o primeiro prostituto político do seu partido. Em 1977, Moshe Dayan desertou do Partido Trabalhista, a fim de servir como Ministro dos Negócios Estrangeiros e de camuflagem a Menachem Begin, que pela força impediu a criação de um Estado palestino.

Em 2001, Shimon Peres deixou o Partido Trabalhista para aderir ao governo de Ariel Sharon, a fim de servir como Ministro dos Negócios Estrangeiros e de álibi para o homem cujo nome fez tremer todo o mundo após o massacre de Sabra e Shatila.

Então, por que deveria Ehud Barak não se tornar a camuflagem de um governo que inclui fascistas declarados?

Quem sabe, talvez ainda nos [Israel] vá representar na próxima conferência de Ophira - desculpem, Sharm-el-Sheikh - aquela que será convocada após a próxima guerra, na qual Gaza será arrasada completamente. Afinal, um monte de dinheiro será necessário para construí-la novamente.

7/3/2009

Tradução do Fórum Palestina

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