Aquela vontade inabalável de ser livre criar PDF versão para impressão
23-Mar-2009
João Teixeira Lopes

Este título não me pertence. É retirado dos derradeiros parágrafos de «Vicente», conto que fecha o livro Bichos de Miguel Torga. Trata-se de um corvo que ousa desafiar os Homens, as forças da Natureza e o demiurgo soberano: Deus. Apraz-me citá-lo a propósito das inúmeras manifestações de arrogância e prepotência com que dia após dia somos confrontados neste país de alguma resignação e suicidária melancolia. Na verdade, importa retê-lo, a própria insurgência ou insubmissão são um poder desigualmente repartido. Nem todos possuem as mesmas possibilidades de exercer a sua indignação. Mas cabe aos que gozam dessa oportunidade conquistar espaços para os outros.

Veja-se o que aconteceu no Porto. A autarquia passou a condicionar a concessão de qualquer subsídio a uma cláusula, de bolor salazarista: «ter de se abster de afirmações que ponham em causa o bom-nome da autarquia». A disposição foi declarada inconstitucional pelo Provedor de Justiça. E o teatro Art'Imagem, por iniciativa do seu Director, José Leitão, processou a autarquia, depois de ter recusado a atribuição de um apoio sob tais condições. Rui Rio será ouvido em tribunal na próxima segunda-feira. O edil, sempre magnânimo, ainda sugeriu um compromisso: em vez de "abster-se de, publicamente, expressar críticas", passaria a "abster-se de proferir afirmações" que pusessem em causa o bom-nome e a imagem do Município...

Assim vamos, agora sem Provedor de Justiça. Felizmente com a coragem de alguns face ao deslumbramento dos poderosos. Desgraçadamente com o medo de outros. E com a exigência que permanentemente se nos coloca, a nós, homens e mulheres do Bloco de Esquerda: a de mantermos irredutível essa margem de insurgência que nos faz espreitar a liberdade.

João Teixeira Lopes

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