O PS e o poder criar PDF versão para impressão
25-Mar-2009
Tiago Gillot

Esta direcção do Partido Socialista vive obcecada com o poder. E a única coerência deste poder é a manutenção: a sua reprodução (e a dos seus estafados protagonistas) e a estabilidade dos interesses que está a servir. Com o desespero a tomar conta do país, este PS e o seu Governo já não conseguem esconder que, sem coragem para enfrentar os problemas porque temem as soluções, apenas lhes sobra autoritarismo e propaganda.

Autoritarismo, sim. Porque as manifestações são sempre "insultos" e são sempre "controladas", mesmo as que têm centenas de milhares de pessoas. Porque acha, justamente, que é normal que a Rádio pública produza spots publicitários atacando quem se manifesta contra este poder, com a voz-off da autora da biografia do chefe-Sócrates. Porque aumenta a presença policial onde ela não é precisa (na intimidação a trabalhadores e trabalhadoras ou no assassinato do Kuku, por exemplo). Porque Augusto Santos Silva acha que é divertido "malhar" em quem não concorda com ele. Ou porque José Lello vê nas divergências de Manuel Alegre "falta de carácter". Porque, no fundo, esta gente acha que temos que aceitar e calar. Autoritarismo e autismo, a arrogância de um poder que se acha absoluto.

Propaganda, sim. Porque este Governo liderado por este PS tenta desesperadamente justificar, a cada momento, porque faz o contrário do que devia e do que prometeu. Longe que estão os "150 mil empregos", os resultados são óbvios. Um Código de Trabalho que ataca trabalhadores e autoriza o aumento da exploração. Mas também a degradação das condições de trabalho e da qualidade dos serviços públicos em sectores vitais: na educação, com a perseguição a professores e alunos, mas também com a bolonhização das universidades; ou na saúde, com os encerramentos de Centros de Saúde e maternidades, com as nada moderadas taxas moderadoras, com a precarização de enfermeiros e a degradação da carreira médica. E, sobretudo, com as escolhas erradas perante o problema central do desemprego e da generalização da precariedade, enquanto passa a vida a mentir sobre a realidade do país. Propaganda e autismo, porque este poder pensa que pode governar para os poderosos e enganar meio mundo entretanto.  

À beira do ciclo eleitoral, a obsessão agudiza-se. Será ela que leva este Partido Socialista a escolher Vieira Silva para coordenar as campanhas do partido no ciclo eleitoral que se avizinha. Uma escolha que revela uma total falta de sensibilidade: é justamente o ministro que tem a pasta que deveria merecer a prioridade máxima que se vai ocupar com... mais propaganda. No fundo, esta é apenas a extensão do lamentável conteúdo e desgraçados resultados da sua actividade governativa. E o retrato dum Governo, dum partido e dum ministro que fazem das habilidades na comunicação a desesperada saída para a sua fraca vontade de enfrentar os problemas. Vieira da Silva tratará das campanhas do PS durante este ano como tratou do brutal aumento do desemprego e da precariedade durante o seu mandato: procurando o melhor slogan, tentando a melhor desculpa, procurando a justificação para o injustificável.

Explicar à maioria das pessoas que devem votar neste PS é, de facto, uma tarefa difícil. Talvez tenha sido por isso que Sócrates escolheu alguém que se habituou, embora sem grande brilho, a dizer o contrário do que faz e a fingir que está tudo bem.

Mas cada momento destas campanhas será um momento de confronto com o fracasso deste Governo nas questões essenciais e uma explicação das suas escolhas. É com isso que pode contar, senhor director de campanha. Terá a seu favor, senhor ministro, o desaparecimento da direita, isso é certo. E contará até com os falsos consensos sobre a "estabilidade" e com a retribuição dos patrões e dos instalados pelos favores prestados durante este mandato. Tudo isso lhe será útil, com certeza. Mas pode também contar com os desempregados e as desempregadas, com os precários e as precárias e com todas as vítimas dos ataques aos serviços públicos e aos mais fracos - gente para quem a propaganda não chega e que sente que esta maioria absoluta está igual ou pior que as outras, de má memória. E conte ainda, já sabe, com toda a determinação da esquerda para que este poder seja mais frágil e menos absoluto do que agora.

Tiago Gillot

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