Não há resgate para os mais atingidos criar PDF versão para impressão
27-Mar-2009

Amy  GoodmanA utilização do dinheiro do resgate financeiro - dinheiro dos contribuintes - para o pagamento de bónus da AIG provocou, com razão, uma virulenta reação massiva contra a seguradora e contra Wall Street. Mas também contra o presidente Barack Obama e seus assessores económicos - o Secretário do Tesouro, Timothy Geithner e Larry Summers. Com o resgate financeiro, os cidadãos dos Estados Unidos passaram a ser proprietários de 80% da AIG.

A indignação deu-se tanto no Partido Democrata como no Republicano. O senador republicano por Iowa Charles Grassley disse o seguinte sobre os executivos da AIG: "A primeira coisa que me faria sentir um pouco melhor em relação a eles é que seguissem o modelo japonês, fizessem uma profunda reverência diante do povo dos Estados Unidos, pedissem desculpas e optassem por uma destas alternativas: renunciar ou suicidar-se". O Procurador-Geral de Nova York, Andrew Cuomo, acaba de divulgar detalhes do pagamento de bónus que deixam em evidência a absurda afirmação da AIG de que se trata de "bónus de retenção" destinados a conservar executivos-chave: onze dos executivos que receberam bónus de um milhão de dólares já não trabalham mais para a AIG.

Estes milionários da AIG teriam de devolver estas fortunas que não ganharam com o seu trabalho, e é possível que o Congresso aprove uma lei impositiva exclusivamente para eles, taxando os seus bónus em 100%.

Mas, para aqueles que foram mais atingidos pela crise económica, essa indignação toda servirá para algo? Virá alguma coisa das centenas de milhares de milhões de dólares dos diversos pacotes de estímulo económico e resgate financeiro para o cidadão comum que tenta simplesmente seguir adiante? Ou serão monopolizados pelas corporações consideradas "demasiado grandes para falir", deixando para trás milhões de pessoas que, pelos vistos, são suficientemente pequenas para falir?

O Centro para a Inclusão Social (CSI, na sigla em inglês) acaba de publicar um relatório sobre a crise económica, que inclui recomendações sobre a melhor maneira de resolvê-la. Vincula o factor racial com a falta de oportunidades e a proliferação das tristemente famosas hipotecas de alto risco que desencadearam a crise económica.

Maya Wiley, directora-executiva do CSI, disse-me: "Para estimular a economia, temos de estimular a igualdade". As pessoas precisam de educação, de transporte, de moradia e de um meio-ambiente limpo, porque esses são os factores que lhes permite ter uma base sólida para responder à crise e seguir adiante. Wiley adverte que a proposta de criar postos de trabalho a partir de projectos de infra-estrutura de rápida implementação (projectos conhecidos como "shovel-ready", prontos para escavar) dirigidos a estimular a economia, favorecerá de forma desproporcional quem trabalha no sector da construção, que são predominantemente homens brancos.

Por isso propõe que se estabeleçam acordos de benefícios comunitários para a criação de empregos. Sobre este tema, Wiley disse-me: "É necessário contar com acordos de benefícios comunitários; devemos garantir que, quando o governo realize obras de construção, garanta que as pessoas com baixos rendimentos, afro-americanos, imigrantes e as mulheres tenham acesso em igualdade de condições a esses postos de trabalho. E devemos garantir também que o orçamento de trânsito, ou melhor, o orçamento de transporte seja destinado realmente a projectos inteligentes de trânsito que conectem as pessoas que necessitam de trabalho com os lugares onde estão os postos de trabalho".

O grupo Unidos por uma Economia Justa também põe ênfase no fosso racial que existe na distribuição da riqueza, assinalando que "24% da população negra e 21% da latina vivem abaixo da linha de pobreza, enquanto que somente 8% da população branca se encontra nesta situação".

No mundo corporativo estamos presenciando os maiores resgates financeiros da história, ao mesmo tempo em que as remunerações recebidas pelos executivos alcançam montantes inusitados. O salário de um alto executivo é 344 vezes maior que o de um trabalhador médio.

Existe uma crença generalizada de que a atribuição de créditos salvará a economia e que, portanto, estes gigantes financeiros necessitam de milhares de milhões de dólares dos resgates financeiros custeados pelos contribuintes. Mas a crise começou justamente pelos descumprimentos de pagamento dos créditos hipotecários de alto risco. Uma solução que poderia ter sido tentada quando começou a crise seria ajudar os proprietários que não podiam pagar, de maneira que pudessem evitar a execução da hipoteca das suas moradias. Maya Wiley, do Centro para a Inclusão Social, assinala:

"Cerca de 35% dos titulares de hipotecas de alto risco estavam, na verdade, em condições de receber empréstimos a taxas preferenciais. Trinta e cinco por cento. Imagine se tivéssemos tido um sistema de financiamento no qual as pessoas pudessem ter acesso realmente aos créditos que lhes correspondiam. A maioria dessas pessoas não era branca. E inclusivamente se olharmos como se ampliou a indústria de empréstimos de alto risco, vemos que, em grande medida, se desenvolveu porque estas comunidades de afro-americanos e imigrantes não tinham um acesso justo ao crédito".

Os bancos e as instituições de empréstimos hipotecários impulsionaram uma estratégia agressiva para impor empréstimos rigorosos a pessoas pobres e minorias. A Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês) entrou com processos contra a Wells Fargo e o HSBC, acusando estas instituições de "racismo sistemático e institucionalizado na concessão de empréstimos hipotecários".

Os bancos empacotaram estes empréstimos de risco em valores financeiros e venderam-nos; com base nestes valores, criaram instrumentos derivados impossíveis de entender ou de avaliar. A AIG segurou os bancos de investimentos contra as potenciais perdas com estes instrumentos derivados complexos. O Tesouro dos EUA resgatou então os seus bancos e a AIG.

A AIG utilizou dezenas de milhares de milhões de dólares do seu dinheiro do resgate financeiro para pagar a esses mesmos gigantes bancários que já tinham recebido milhares de milhões de dólares em fundos de resgate: Bank of America e Goldman Sachs. Mas, apesar desta sangria de centenas de milhares de milhões de dólares destinados a estes megabancos, agora dizem-nos que o mercado de créditos continua paralisado. Muitos bancos europeus também receberam fundos através de resgates similares, incluindo o banco suíço UBS, que oferece contas bancárias secretas que permitem aos cidadãos dos EUA mais ricos sonegar impostos. De facto, o que os tão atacados contribuintes norte-americanos estão a fazer é isso: resgatar os seus abastados compatriotas sonegadores de impostos.

Obama cercou-se de assessores financeiros, como Summers e Geithner, que têm vínculos muito estreitos com Wall Street. É hora de canalizar o estímulo económico para aqueles que realmente necessitam: os cidadãos que o estão a financiar com os seus impostos.

Denis Moynihan colaborou na produção desta coluna.

Tradução: Katarina Peixoto, da Carta Maior. Adaptado para Portugal por Luis Leiria

Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!" um noticiário internacional diário, nos EUA, de uma hora de duração que emite para mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em Espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award" também conhecido como o "Premio Nobel Alternativo", outorgado no Parlamento Sueco em Dezembro.

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