“Não pense só no seu umbigo” criar PDF versão para impressão
04-Abr-2009

Bernardino ArandaComo diz o blogue Bicicleta na cidade (linkar: http://bicicletanacidade.blogspot.com/ ) "Finalmente chegou o substituto do pára-brisas levantado, do pneu esvaziado, do risco na pintura e da pastilha elástica na fechadura"

Nasceu em Lisboa um interessante movimento contra os carros estacionados em cima do passeio.

Um grupo de amigos quotizaram-se entre si e editou um autocolante que diz "Não pense só no seu umbigo" e "Respeite os peões ao estacionar", para colar nos vidros dos carros estacionados em cima do passeio e passadeiras.

Esses autocolantes fazem referência a um blogue (passeiolivre.blogspot.com), que começou por ser um local de colocação de fotos de veículos mal estacionados, mas que depressa se transformou num centro de debate sobre o problema dos carros nos passeios, com argumentos contra, a favor, protestos e felicitações.

Por outro lado, no blogue, pode-se descarregar o autocolante para imprimir e colar. Assim, qualquer um se pode transformar num activista deste movimento.

Se não tivermos impressora e papel autocolante, pode-se sempre enviar um mail com a morada a pedir alguns autocolantes, que há alguém que se encarregará disso.

Amigos passam autocolantes a amigos e a esperança é que, com o crescimento da rede de activistas, se consiga também criar uma onda de consciencialização dos automobilistas.

Este movimento evita qualquer discurso ambientalista, ou pela construção de mais parques de estacionamento, ou pela actuação mais diligente das autoridades. Não tem de o fazer. Focaliza-se apenas no óbvio: existe o alcatrão paras os carros e o passeio para andar a pé.

No entanto, não há como fugir do argumento que aparece várias vezes por parte dos automobilistas: "Não existe a esta hora, por estas bandas, sítio onde estacionar sem ser em cima do passeio".

Alguém respondeu com piada: "Se eu vivesse num T0 não compraria um piano de cauda". A verdade é que a cidade não aguenta com tanto automóvel. Não é só o problema da poluição e do ruído. É um problema de espaço.

Ainda que exista carência de lugares de estacionamento para residentes em alguns bairros de Lisboa, não vale a pena construir silos atrás de silos. Na generalidade das cidades onde se está a tratar bem o problema da acessibilidade e da mobilidade e onde não existem carros em cima dos (largos) passeios, apostou-se fortemente nos transportes públicos e no desincentivo constante ao uso do automóvel privado utilizando as mais diversas ferramentas (condicionamento de trânsito, taxas para entrada no centro da cidade, cobrança progressiva de lugares de estacionamento, etc). Dispararam aí o número de utilizadores de bicicleta e ciclomotores e aumentou o número de agregados familiares que prefere não ter automóvel e alugar um, apenas quando é incontornavelmente necessário.

A relação entre automobilista e peão é uma relação baseada num falso paradigma. O de que qualquer peão é um automobilista que, por acaso, se passeia sem o seu carro, estando numa situação de inferioridade da equação da mobilidade. A alteração do paradigma é essencial: cada automobilista é um peão motorizado, um peão que muitas vezes, participa em dinâmicas de sobreconsumo, de poluição e de prejuízo de mobilidade.

Bernardino Aranda

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