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04-Abr-2009

Bruno MaiaEsta semana António Damásio visitou Portugal. Mais uma oportunidade para ouvirmos, em língua Portuguesa, aquele que é o mais conceituado especialista mundial no estudo das funções cerebrais. Nos últimos 50 anos, as neurociências evoluíram extraordinariamente. A introdução de novos métodos de imagem, permitiu-nos olhar para o cérebro por dentro, conhecer as suas estruturas, conhecer os seus segredos. Conseguimos hoje perceber que diferentes estruturas cerebrais têm diferentes funções e que todas elas funcionam em rede, em cooperação contínua. E sabemos hoje que o nosso raciocínio, a nossa visão tridimensional do mundo, a nossa memória, a nossa linguagem e, curiosamente, as nossas emoções residem no funcionamento cerebral. Nunca em nenhuma época da história, nenhum tipo de conhecimento se atreveu a ir tão longe nas respostas às perguntas fundamentais do ser Humano: porque sentimos e como sentimos?

Este meio século mostrou-nos duas características do cérebro que são centrais para o compreender. A primeira é a sua complexidade. Temos, em média, 100 biliões de neurónios e cada um destes estabelece mais de 4000 ligações com outros neurónios, o que dá um número incrível de possíveis transferências de informação entre estas células. E ainda que hoje possamos atribuir uma função específica a cada uma das regiões cerebrais, sabemos que elas não trabalham sozinhas e que existe uma imensidão de conexões entre os diferentes centros que potencia um funcionamento harmonioso e complexo. A segunda característica do tecido cerebral é a sua plasticidade. Todos sabemos que indivíduos com lesões cerebrais às quais corresponde uma alteração numa função, podem recuperar essa função com o tempo - isto é o princípio da fisioterapia, é possível treinar o cérebro para readquirir funções perdidas. A aprendizagem normal é isso mesmo: a capacidade de moldar o funcionamento cerebral face aos estímulos que este recebe. E a cada instante da nossa vida, o funcionamento celular e molecular cerebral pode modificar-se em função daquilo que vemos, sentimos, experienciamos, pensamos...

É esta plasticidade, hoje dada como central no estudo do cérebro, que nos deixa prever o que somos e como o somos. Somos aquilo que vivemos, aquilo que sentimos ao longo da vida, as nossas experiências, as nossas frustrações e os nossos sucessos. Claro que existe um património genético, uma herança indiscutível. Mas as neurociências actuais colocaram-se do lado dos construtivistas sociais ao demonstrarem que para além da biologia que herdámos há uma capacidade intrínseca do cérebro de estabelecer novas ligações entre os seus neurónios, de redefinir a sua rede neuronal e de se adaptar aos novos estímulos e às novas realidades.

Hoje a ciência, mais uma vez, deita por terra o senso comum e os clichés da "natureza humana". Não somos individualistas por natureza. Não somos egoístas e ambiciosos por natureza. Não somos mais fortes ou mais fracos por natureza. Não somos mais ou menos conformistas ou revoltados por natureza. Somos aquilo que aprendemos a ser. Somos aquilo que o cérebro vê, aprende e experiencia. Somos produtos mais ou menos homogéneos, mais ou menos fiéis daquilo que sentimos e daquilo que construímos, desde o primeiro até ao último dia da nossa vida. E a ciência moderna está aí para o confirmar.

Somos indivíduos e sociedade, autores de si próprios e a mudança social será sempre possível enquanto existir vontade, sem atavismos da dita "natureza humana".

Bruno Maia

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