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01-Abr-2009

Uri AvneryÉ este o governo de Biberman (Bibi Netanyahu e Avigdor Liberman) ou talvez de Bibarak (Bibi e Ehud Barak)?

Nenhum deles. É o governo do Bibiyahu.

Binyamin Netanyahu provou que é um político consumado.

Ele realizou o sonho de qualquer político (e de qualquer espectador de teatro): um bom lugar no meio.

No seu novo governo, ele pode jogar os fascistas, à direita, contra os socialistas, à esquerda, os seculares de Liberman contra os ortodoxos do Shas. Uma situação ideal.

A coligação é suficientemente grande para ser imune à chantagem por qualquer de suas partes componentes. Se alguns membros do Partido Trabalhista quebrarem a disciplina da coligação, Netanyahu terá ainda uma maioria sob seu comando. Ou se os direitistas causarem sarilhos. Ou se os ortodoxos tentarem apunhalá-lo pelas costas.

Este governo não tem qualquer compromisso. O documento "Linhas Orientadoras Básicas" - um documento assinado por todos os parceiros do novo governo israelita - é completamente nebuloso. (E de qualquer forma, directrizes básicas não servem para nada. Todos os governos israelitas têm quebrado os seus acordos sobre as orientações básicas sem pestanejar. Eles sempre se revelaram cheques sem cobertura).

Tudo isto foi adquirido por Netanyahu por tuta-e-meia - alguns milhares de milhões de promessas económicas que ele nem sonhou cumprir. A tesouraria está vazia. Como um dos seus antecessores no gabinete do Primeiro-Ministro, Levy Eshkol, afirmou, numa frase que ficou celebre: "Eu prometi, mas não prometi manter as minhas promessas."

Também tem concedido ministérios a toda a gente. Este pequeno país terá 27 ministros e 6 vice-ministros. E então? Se necessário, Netanyahu teria dado uma cadeira ministerial a cada um dos 74 membros da coligação.

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O auge da sua realização foi a aquisição do Partido Trabalhista para o seu governo.

Numa só jogada, virou do avesso um governo de leprosos, que teria sido visto por todo o mundo como um bando de loucos ultra-nacionalistas, racistas e fascistas, num governo do centro, são e equilibrado. Tudo isto sem alterar minimamente a sua personagem.

O mais fervoroso apoiante desta façanha foi Liberman, o novo ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel.

Este racista extremista, este irmão espiritual do francês Jean-Marie Le Pen e do austríaco Joerg Haider (espero que tanto os vivos como os mortos não se sintam ofendidos), estava muito ansioso com o que estava à sua espera. Na sua imaginação, viu-se estendendo a mão a Hillary Clinton e a ficar de braço estendido no ar. Inclinado para a frente para beijar Angela Merkel, para vê-la recuar em horror. Desagradável.

A entrada do Partido Trabalhista resolve o problema de todos. Se os sociais-democratas estão a aderir ao governo, toda esta conversa sobre fascismo deve ser um absurdo. Obviamente, Liberman foi mal interpretado. Ele tem sido deturpado. Ele afinal não é um fascista, Deus me livre. Não é um racista. Ele é apenas um tradicional demagogo de direita, que explora as emoções primitivas das massas para angariar votos. Qual o político eleito que poderia objectar a isto?

Na verdade, todo o governo tem um certificado kosher ["digno de confiança", derivação por extensão] dado por Ehud Barak. Ele continua a gloriosa tradição do Partido Trabalhista de se prostituir politicamente.

Em 1977, Moshe Dayan entrou para o novo governo de Menachem Begin e deu-lhe um certificado kosher, quando todo o mundo considerava Beguin um perigoso aventureiro nacionalista.

Em 2001, Shimon Peres entrou para o novo governo de Ariel Sharon e deu-lhe um certificado kosher, quando o mundo inteiro via em Sharon o homem responsável pelo massacre de Sabra e Shatila.

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Por que Barak fez isso? E por que que a maioria do Partido Trabalhista o apoia?

O Partido Trabalhista é um partido de governo. Nunca foi outra coisa. Já em 1933 ele assumiu o movimento sionista, e desde então governou o Yishuv (a comunidade judaica na Palestina, anterior a 1948) e o Estado, sem interrupção, até Beguin ter ascendido ao poder em 1977.

Por 44 anos consecutivos, teve um poder incontestado sobre a economia, o exército, a polícia, os serviços de segurança, o sistema de ensino, o sistema de saúde e a Histadrut, a então todo-poderosa federação sindical.

O poder está codificado no ADN do partido. É muito mais do que uma questão política - é todo o seu carácter, a sua mentalidade, a sua visão do mundo. O partido não está em condições de ser uma oposição. Não sabe o que é isso, e muito menos o que fazer nessa situação.

Eu observei os membros do Partido Trabalhista no Knesset, durante os curtos períodos em que estiveram "presos" na oposição. Andavam abatidos e melancólicos. Dúzias deles vagueavam desamparados pelos corredores, como fantasmas, almas perdidas. Quando subiam à tribuna, pareciam porta-vozes do governo.

O Likud sofre da síndrome oposta. Os seus antecessores estiveram na oposição desde o tempo do Yishuv e durante os primeiros 29 anos do Estado.

A oposição está no sangue dos likudistas. Mesmo agora, depois de muitos anos (com interrupções) no governo, comportam-se como uma oposição. São os eternos discriminados, miseráveis e amargos, pessoas que olham de fora, cheios de ódio e inveja.

Ehud Barak personifica a síndrome do seu partido. Tudo está em dívida para com ele. O Poder está em dívida com ele, o Ministério da Defesa está em dívida para com ele. Não me surpreenderia se ele tivesse insistido numa cláusula, no acordo da coligação, que o nomeasse ministro da Defesa para todo o sempre (e ao seu ajudante, Shalom Simchon, Ministro da Agricultura, para a vida). Os governos vão e vêm, mas Ehud Barak deve ser o ministro da Defesa - seja o governo de direita ou de esquerda, fascista ou comunista, ateísta ou teocrático. Não importa como é que ele funciona no seu trabalho - a sua avaliação não pode ser menos que perfeita.

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Então o que que este governo vai fazer? Que pode ele fazer?

No que diz respeito à questão mais importante há unanimidade completa.

Liberman, Netanyahu, Ehud Barak, Ellie Yishai do Shas e Danny Hershkovitz do partido "A Casa Judia" estão em total acordo sobre os palestinianos.

Todos eles concordam sobre a necessidade de impedir a criação de um verdadeiro Estado palestiniano.

Todos eles concordam em não falar com o Hamas.

Todos apoiam a aventura dos colonatos. Durante o mandato de Barak como Primeiro-Ministro, os colonatos cresceram ainda mais rapidamente do que no decurso do mandato Netanyahu. Liberman é ele próprio um colono, o partido de Hershkovitz [Shas] representa os colonos.

Todos eles acreditam que não há necessidade da paz, que a paz é má para nós. (Afinal, foi Barak, e não Netanyahu ou Liberman, quem cunhou a frase "Não temos parceiro para a Paz".)

Então, qual será a verdadeira plataforma deste governo?

Em cinco palavras: Uma decepção para a pátria.

* * *

Neste caminho escolhido pelo governo há uma enorme rocha: os Estados Unidos da América.

Enquanto Israel deu um grande salto para a direita, os EUA deram um grande salto para a esquerda. Dificilmente se pode imaginar um contraste maior do que entre Binyamin Netanyahu e Barack Obama. Ou entre os dois Bara(c)ks - Barack Obama e Ehud Barak.

Netanyahu está consciente deste problema, talvez mais do que qualquer outro líder israelita.

Ele cresceu nos EUA depois do seu pai, um professor de história em Jerusalém, ter-se sentido privado do seu legítimo lugar na academia devido às suas opiniões de extrema-direita e de ter ido para a América. Aí Binyamin estudou e frequentou a universidade. Fala fluentemente o inglês, como um caixeiro-viajante.

Se há uma coisa que reúne praticamente todos os israelitas, da direita para a esquerda, é a convicção de que a relação entre Israel e os EUA é crítica para a segurança do estado. Assim a principal preocupação de Netanyahu será, portanto, evitar uma grave ruptura entre os dois países.

Barak foi admitido no governo justamente para evitar esse tipo de choque. Netanyahu quer visitar a Casa Branca com Barak, e não com Liberman, ao seu lado.

O confronto parece inevitável. Obama quer criar uma nova ordem no Médio Oriente. Ele sabe que o conflito israelo-palestiniano envenena a atmosfera entre os árabes contra a América, e na verdade por todo o mundo muçulmano. Ele quer uma solução para o conflito - exactamente o que Netanyahu e os seus associados querem impedir a qualquer preço, excepto o preço de uma ruptura com os EUA.

Como fazer isso?

A solução está escrita na Bíblia (Provérbios 24:6): "For by ruses thou shalt make thy war." [Por ardis deveis fazer a guerra]

(Na versão [da Biblia] King James, a palavra hebraica Takhbulot é traduzido como "sábio conselho." Em hebraico moderno, significa ardis, truques, estratagemas - e essa é a forma como é entendido por todos os que falam Hebraico hoje em dia.)

* * *

Desde os princípios do sionismo, os seus líderes sempre souberam que a sua visão exigia, em grande medida, simulação. É impossível conquistar um país habitado por outro povo, sem dissimular o objectivo, desviando a atenção, escondendo os actos no terreno, por trás de uma tela de floridas palavras.

Todos os estados mentem, claro. Quatrocentos anos atrás, um diplomata britânico, Sir Henry Wotton, observou: "Um embaixador é um homem honesto enviado para mentir para o bem do seu país." Devido às circunstâncias especiais do seu empreendimento, os sionistas tiveram de utilizar a fraude talvez um pouco mais que o habitual.

Agora, a tarefa é apresentar ao mundo, e especialmente aos EUA e à Europa, uma falsa imagem, fingindo que o nosso novo governo está ansioso por paz, agindo em prol da paz, na verdade virando cada pedra em busca da paz - embora fazendo exactamente o oposto.

O mundo vai ser submerso por um dilúvio de declarações e de promessas, acompanhada por gestos sem grande significado, conferências e reuniões.

Pessoas com boas orelhas já estão a ouvir Netanyahu, Liberman e Barak a começar a brincar com a "Iniciativa Árabe da Paz". Eles vão falar sobre ela, interpretá-la, aceitá-la ostensivamente enquanto anexam condições que a esvaziam de todo o seu conteúdo.

A grande vantagem desta iniciativa é que ela não provém dos palestinianos e, portanto, não exige negociações com os palestinianos.

Tal como a falecida "Opção Jordana" e outras da sua espécie, servem como um substituto para um diálogo com os palestinianos.

A Liga Árabe inclui 22 governos, alguns dos quais cooperam dissimuladamente com a liderança israelita. Eles podem ser usados para não concordarem entre si sobre qualquer coisa prática.

* * *

Mas para enganar, como para dançar o tango, são precisos dois: um que engana e um que quer ser enganado.

Netanyahu acredita que Obama vai querer ser enganado.

Por que iria querer brigar com Israel, enfrentar o poderoso lóbi pró-Israel e o Congresso dos EUA, quando pode satisfazer-se com as calmantes palavras de Netanyahu?

Para não falar da Europa, dividida e dominada pela culpa do Holocausto, e o patético Tony Blair cirandando por aí como um fantasma inquieto.

Está Obama pronto para jogar, como a maioria de seus antecessores, o papel do amante enganado?

O governo Biberman/Bibarak/Bibiyahu considera que a resposta é um retumbante sim.

Espero que seja um retumbante Não.

28/03/09

Uri Avnery

Tradução do Fórum Palestina

 
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