Lições de Seattle para Londres criar PDF versão para impressão
08-Abr-2009
amy_goodman.jpgOs protestos dominaram o noticiário enquanto os líderes mundiais se reuniam em Londres na cúpula do G20. A guerra, a economia, a globalização corporativa e a oposição popular ao resgate financeiro aos bancos estão em primeiro plano. Os executivos recebem grandes compensações enquanto os trabalhadores e os sindicatos são obrigados a fazer concessões. O presidente Barack Obama herdou uma série de crises profundas e inter-relacionadas. No entanto, gerou-se uma grande expectativa mundial de que ele pode ser o agente da mudança.

Na semana passada, Obama promoveu uma conferência "aberta a perguntas" na Casa Branca, que foi transmitida pela Internet. As perguntas foram apresentadas previamente pelo público e houve uma votação para determinar a sua popularidade. A resposta de Obama a uma pergunta sobre a marijuana foi a seguinte:

"Devo dizer que houve uma pergunta que teve muitos votos. Ela indaga se legalizar a marijuana vai melhorar a economia e a geração de emprego. Não sei o que isso diz sobre a audiência da Internet, mas esta foi uma pergunta bastante votada e queremos garantir que seja respondida. A resposta é não, não creio que seja uma boa estratégia para o crescimento de nossa economia".

A popularidade desta pergunta poderia assinalar a preocupação do público ante a política de drogas dos Estados Unidos, e o impacto negativo gerado pela chamada guerra contra as drogas na nossa sociedade.

Nesta Primavera estou realizando uma volta por todo o país, na qual vou visitar mais de 70 cidades, Em Seattle, entrevistei um forte crítico das leis sobre drogas nos Estados Unidos. Ele disse-me: "De fato, apoio a legalização de todas as drogas". Estas palavras vinham de um defensor bastante insólito: o ex-chefe de Polícia de Seattle, Norm Stamper, membro da junta assessora da Organização Nacional pela Reforma das Leis da Marijuana (NORML, na sigla em inglês) e porta-voz da organização Law Enforcement Against Prohibition (Aplicação da Lei Contra a proibição, LEAP, na sigla em inglês).

Stamper explicou: "Gastamos mil milhões de dólares na execução dessa guerra desde que Richard Nixon proclamou as drogas como o inimigo público número um e declarou uma guerra aberta contra elas. Quais foram os resultados? Apesar da flutuação dos índices, as drogas estão disponíveis mais facilmente hoje em dia, a preços mais baixos e em níveis de potência mais altos do que nunca. Por isso, o que temos é um fracasso colossal. E a única forma de provocar a quebra destes cartéis e de restabelecer a saúde e a segurança nos nossos bairros é regular esse comércio ao invés de proibi-lo". Enquanto Stamper promove uma reforma, o seu sucessor como chefe de polícia de Seattle, Gil Kerlikowske, como escreveu Stamper no seu blog, "está indo a Washington para assumir o cargo de czar das drogas... para defender a manutenção das leis sobre drogas do país".

A secretária de Estado Hillary Clinton reconheceu recentemente, a caminho no México: "A nossa procura insaciável por drogas ilegais estimula o tráfico". Também estimula uma crescente população carcerária (alguns estados que têm problemas financeiros estão a libertar delinquentes não violentos vinculados às drogas para economizar dinheiro), a militarização da fronteira entre Estados Unidos e México, e a epidemia de violência vinculada às drogas no México. Os cartéis compram metralhadoras de assalto AK-47 e outras armas nos Estados Unidos e introduzem-nas ilegalmente no México. Paul Helmke, presidente do Centro Brady para Prevenir a Violência com Armas, disse-me há pouco: "A população do México deu-se conta daquilo que os delinquentes nos Estados Unidos compreenderam há muito tempo: as nossas leis débeis e quase inexistentes nos Estados Unidos estão a facilitar a entrada dessas armas no México".

Com a crescente aceitação, estado após estado, dos usos médicos da marijuana, com a descriminalização da posse de pequenas quantidades em várias jurisdições e com o alto custo do encarceramento em comparação ao do tratamento, o sentimento público parece inclinar-se a favor de uma mudança.

Norm Stamper demorou anos para aprender as difíceis lições da fracassada guerra contra as drogas. As lições difíceis parecem ser o seu forte. Ele era o chefe de Polícia de Seattle durante os protestos contra a Organização Mundial do Comércio em 1999: "Cometi erros graves antes daquela semana e durante a mesma e a única coisa que posso dizer é que lamento muitíssimo não ter feito determinadas coisas e de ter feito outras. Por exemplo, não ter vetado uma decisão de utilizar agentes químicos, também conhecidos como gases lacrimogéneos, contra centenas de manifestantes pacíficos. Como chefe de Polícia deveria ter dito: "Por um bem maior, não deveríamos ter usado esses agentes químicos. Creio que não deveríamos ter aumentado os riscos. Não culpo aqueles que estiveram lá, culpo a mim mesmo".

Agora, ele soa mais como um dos manifestantes contra a OMC, sobre os quais foram lançadas as bombas de gás: "Agora estamos a colher o que semeamos na forma da globalização desenfreada e livre-comércio sem barreiras e creio que é hora de todos nós, neste país, enquanto tentamos sair desta crise económica mundial, analisarmos realmente o que significam os problemas de justiça social e económica dentro do contexto da globalização".

Os lideres do G-20 em Londres, e os que participaram na cúpula da NATO depois, têm a oportunidade de aprender com Norm Stamper e ordenar às suas forças de segurança que guardem as pistolas de choques eléctricos e os gases lacrimogéneos, e surpreender o mundo ouvindo seriamente as vozes dos que se estão a manifestar nas ruas.

31/3/2009

Denis Moynihan colaborou com a produção desta coluna.

Tradução: Katarina Peixoto, da Carta Maior. Adaptação para Portugal de Luis Leiria

Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!" um noticiário internacional diário, nos EUA, de uma hora de duração que emite para mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em Espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award" também conhecido como o "Prémio Nobel Alternativo", outorgado no Parlamento Sueco em Dezembro.

 
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