Os ‘camaradas’ do G20 criar PDF versão para impressão
08-Abr-2009

Marisa MatiasBaralhar e voltar a dar, pois claro.

1. Reforma do sistema bancário e OCDE fará a lista dos paraísos fiscais que não cumprem as regras da transparência

Levantamento do segredo fiscal significa que deixam de ser paraísos judiciais, mas não significa que deixem de ser paraísos fiscais. É o reinado dos "offshores à Madeira". Afinal, para quando a eliminação do sistema financeiro sombra? Será difícil pedir que passem a integrar um sistema financeiro onde se cobram impostos e se registam os movimentos da banca? Passinhos de bebé...

2. Recapitalização do FMI

O FMI, cuja sobrevivência depende da sangria económica de uns, volta a encher o balão. Não há mudanças na estrutura de voto nem nas relações de poder no interior da organização; não se muda a receita; mantém-se a ortodoxia neoliberal. Em nome da ‘ajuda' do FMI, cumprem-se as regras do FMI: contracção salarial e reforço das desigualdades. Sabemos por experiência própria os custos da intervenção do FMI: mais para a política neoliberal, menos para a intervenção Estatal. Ou não foi isso que se andou a fazer? Ou não foi isso que produziu estes resultados? Resolve-se o problema recapitalizando-se uma das instituições que tem feito parte dele.

3. Comércio internacional, liberalização das trocas e criação de fundo de garantia às exportações e importações

Liberalização do comércio? Para quem? Para as economias emergentes, para os grandes exportadores. Mau para quem? Para quem não está no G20 e para os países que nesta divisão são sobretudo importadores.

4. Não "premiar o fracasso", regular os prémios dos gestores

Nada a apontar do ponto de vista dos princípios. Os Estados assumem-se como os árbitros do "bom capitalismo"! O problema não é o "fracasso" de determinadas gestões, é a imoralidade do sistema de acumulação capitalista.

5. Ajuda aos mais pobres

FMI poderá vender parte das suas reservas de ouro para financiar a ajuda ao desenvolvimento dos países mais pobres, "os países ricos não passarão ao lado" dos que mais necessitam. É quase comovente, mas não engana. De repente, os países ricos descobriram que precisam de mais mercados. Um sinal mais importante do G20 seria um compromisso dos próprios Estados em cumprirem as metas definidas pelas Nações Unidas - e que esses Estados ratificaram - de dedicarem 0,7% do PIB em Ajuda Pública ao Desenvolvimento. A um ano do prazo para o cumprimento das metas não seria pedir muito. Andamos pelos 0,45% e a tendência é decrescente. Em Portugal andamos pelos 0,21 ou 0,22%. O cumprimento da meta dos 0,7% implicaria que o Estado português tivesse de despender metade do valor que a Caixa Geral de Depósitos avançou no caso BPN.

O problema da crise é o da vida das pessoas. A vida das pessoas deveria ter sido o centro desta Cimeira. O sinal político forte desta Cimeira deveria ter sido a justiça mundial.

O G20 é menos mau do que o G8 ou o G7, mas chapéu-de-chuva é o mesmo, só um bocadinho mais largo. A esmagadora maioria do mundo continua de fora.

Angela Merkel ficou contente porque as "duras" divergências entre aqueles que defendiam um plano de estímulo da economia e os que defendiam a regulação dos mercados financeiros se resolveram devido a "um verdadeiro espírito de camaradagem". Foi esta camaradagem que nos conduziu ao ponto que chegámos. É esta camaradagem que é preciso perturbar. O mundo não se resume a este círculo de "camaradas" e nem pode ficar dependente deles.

Marisa Matias, socióloga, texto publicado no blogue Ladrões de Bicicletas

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