Entre o Morro e o Calçadão criar PDF versão para impressão
14-Abr-2009

Alice BritoA belíssima cidade do Rio de Janeiro prepara-se para erigir um magnífico monumento. O Prefeito da cidade, Eduardo Paes, e o governador do estado, Sérgio Cabral são os autores, os mandantes, desta monumental obra de arte que alindará o corpo da cidade maravilhosa.

Todo feito em materiais nobres como o betão, o concreto, o tijolo e a grade de aço, aí está ele, o muro, que deverá excluir os excluídos, e tornará o Rio uma cidade mais amarga, mais cínica, mais brutal e desesperançada, o Rio, cidade improvável para os milhões que habitam as favelas.

Sob o pretexto beato de conter a expansão da favela para áreas ambientalmente protegidas, como a Mata Atlântica, constrói-se à frente de toda a gente um muro, fronteira de uma cidade para a outra cidade, a cidade do esquecimento, que se quer oculta e longínqua, a cidade no dentro da cidade.

O argumento da ecologia é um argumento pífio. Sessenta e cinco por cento das encostas da Mata Atlântica estão hoje ocupadas com mansões e bairros da classe média e alta carioca. Essas "favelas" do bom gosto e de algum lumpen capital, em que se pressente o lápis do arquitecto e o dinheiro da pirâmide económica brasileira, não terão nunca muros com grades de aço a demarcar espaços. Quanto muito terão muros de protecção com homens armados às portas a guardar riquezas e prevenir assaltos, auto muros construídos pela percepção e constatação de que os abismos classistas se pagam caro numa sociedade eivada de violências atávicas, ainda com a assinatura do esclavagismo a firmar contratos sociais.

Estamos no século XXI. A resposta urbanística que os poderes governamentais e autárquicos cariocas concebem, num prodígio de arquitectura, é a construção explícita de um muro de betão. Um muro que ficará inscrito na arqueologia da desvergonha.    

Alice Brito

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