Muçulmanos continuam sitiados nos EUA criar PDF versão para impressão
17-Abr-2009


Amy GoodmanNo momento em que o presidente Barack Obama apareceu em público ao lado do presidente turco Abdullah Gul, no marco de sua primeira viagem a um país muçulmano, agentes federais dos Estados Unidos preparavam-se para prender Youssef Megahed em Tampa, Flórida. Apenas três dias antes, um júri de um tribunal federal de distrito dos EUA tinha-o absolvido das acusações de transportar ilegalmente explosivos e de posse de um artefacto explosivo. Ao reunir-se com Gul, Obama prometeu "desenhar uma série de estratégias que possam resolver a divisão entre o mundo muçulmano e o Ocidente, tornando-nos mais prósperos e mais seguros".

Ao ser absolvido por um júri integrado pelos seus pares, Youssef Megahed pensou que estava seguro, podendo regressar à sua família. Estava a fazer a última cadeira do curso na Universidade de South Florida, que lhe permitiria obter o seu diploma universitário. Mas o pesadelo do qual parecia ter acabado de sair, voltou. O pai dele disse-me: "Ontem, por volta do meio dia, levei o meu filho para comprar algo na Wal-Mart, localizada em Bruce B. Downs, e quando chegamos ao estacionamento, vimo-nos rodeados por mais de sete pessoas. Vestiam roupa normal, sem identificação de nenhum tipo, cercaram-nos e entregaram-me um papel. E disseram-me: "Assine aqui", "Assine aqui", Para quê? - perguntei. Responderam: "Vamos levar o seu filho porque vamos deportá-lo".

Enquanto avança o procedimento de deportação, Youssef Megahed está sub custódia do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês). As acusações são as mesmas pelas quais foi absolvido. Em Agosto de 2007, Megahed e um amigo, também estudante da Universidade de South Florida, fizeram uma viagem de carro pela Carolina do Sul e do Norte. Quando foram obrigados a parar por excesso de velocidade, os policiais descobriram algo no porta-malas do carro, que descreveram como explosivos. O outro acusado junto a Megahed, Ahmed Mohamed, disse que eram fogos de artifício caseiros.

As autoridades fizeram referência a um vídeo na Internet produzido por Mohamed, no qual ele supostamente ensinava como converter um brinquedo num detonador de explosivos. Diante da possibilidade de passar 30 anos atrás das grades, Mohamed fez um acordo para declarar-se culpado e agora cumpre uma pena de 15 anos. Youssef Megahed declarou-se inocente. O júri federal concordou com os argumentos da defesa, inocentando-o de qualquer ato ilícito.

Aqui é onde entra o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas. Apesar de as acusações contra Megahed terem sido retiradas, ele ainda pode ser preso e deportado pelas mesmas acusações. A Constituição dos Estados Unidos protege as pessoas de serem acusadas duas vezes pelo mesmo delito. Mas, no turvo mundo da detenção de imigrantes, prender alguém duas vezes pelo mesmo delito é totalmente legal.

Ahmed Bedier, presidente do Conselho de Direitos Humanos de Tampa e ex-produtor do "True Talk", um programa sobre temas mundiais transmitido pela rádio comunitária de Tampa WMNF, dirigido a muçulmanos e norte-americanos de origem muçulmana, critica os permanentes ataques do governo federal contra a comunidade muçulmana norte-americana e assinala, em particular, a actuação da Força de Tarefa Conjunta Contra o Terrorismo (JTTF, na sigla em inglês). Segundo Bedir, a JTTF "não só inclui agentes federais do FBI, mas também agentes postais, do Serviço de Impostos Internos (IRS), subinspectores de polícia locais, subcomissários de polícia e todo tipo de agentes do cumprimento da lei". Quando um organismo não consegue deter um indivíduo visado, outro entra em cena. "É como um polvo", diz.

Quando o veredicto de "inocente" foi lido no tribunal, o pai de Youssef Megahed, Samir, aproximou-se dos agentes federais. Bedier descreveu o que ele fez: "Surpreendeu muita gente. Aproximou-se dos agentes, das pessoas que tinham perseguido o seu filho durante vários anos, e estendeu-lhes a mão, deu a mão aos fiscais e aos agentes do FBI, e logo depois estendeu a mão ao juiz. Este apertou a mão de Youssef, e desejou-lhe "boa sorte no futuro". E pensaram que estavam, sabe... que o caso tinha terminado".

O presidente Obama disse na Turquia: "Não nos consideramos uma nação cristã, nem uma nação judia, nem muçulmana. Consideramo-nos uma nação de cidadãos unidos por ideais e por um conjunto de valores".

Até antes de ser preso novamente, Samir Megahed elogiava o sistema judiciário dos Estados Unidos. Ele disse-me no Democracy Now: "Sinto-me feliz e estou orgulhoso porque o sistema funciona. E sinto felicidade porque o júri escolheu um final feliz para uma má história, que manteve o meu filho preso durante dois anos". Numa conferência de imprensa logo depois da prisão do seu filho por parte do Serviço de Imigração e Controle de Armas, disse: "Os Estados Unidos são o país da liberdade. Creio que não há liberdade aqui. Para os muçulmanos não há liberdade".

Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.

Tradução: Katarina Peixoto, da Carta Maior. Adaptação para Portugal de Luis Leiria

Amy Goodman é apresentadora de "Democracy Now!" um noticiário internacional diário, nos EUA, de uma hora de duração que emite para mais de 550 emissoras de rádio e televisão em inglês e em 200 emissoras em Espanhol. Em 2008 foi distinguida com o "Right Livelihood Award" também conhecido como o "Premio Nobel Alternativo", outorgado no Parlamento Sueco em Dezembro.

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