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17-Abr-2009
Uri AvneryA minha cabeça sabe que o projecto sionista impôs uma injustiça histórica às pessoas que viviam nesta terra. Mas o meu coração lembra-se do que senti naqueles dias. Artigo de Uri Avnery

Uri AvneryA semana da Páscoa é um tempo para passeios. As notícias, nos programas de rádio e de televisão, começam:"O povo da Casa de Israel passa o dia nos parques nacionais..."

É também uma festa de canções das suas terras-natal. Numa televisão vemos grupos de velhotes de cabelos brancos, rodeados pelos seus filhos e netos, cantando fervorosamente as canções da sua juventude, de que sabem as palavras de cor.

"O descanso chegou ao fatigado / E o repouso ao trabalhador / A pálida noite espalha / Ao longo dos campos do vale de Jezreel / O orvalho por baixo e a lua por cima / De Beit-Alfa até Nahalal..."

A câmara foca o rosto sulcado de uma avó com os olhos marejados e não é difícil imaginá-la como a linda menina que foi. É fácil vê-la num kibutz de Jezreel, com calças curtas e uma longa trança balançando atrás dela, sorrindo, curvada sobre os tomateiros na horta comunitária.

Nostalgia é passar um dia no campo.

* * *

Admito que não estou livre desta nostalgia. Algo acontece comigo, também, quando ouço as músicas e as acompanho involuntariamente.

Como muitos outros, estou a sofrer de "dissonância cognitiva". O coração e a cabeça não estão coordenados. Operam em diferentes comprimentos de onda. Noutras palavras: a minha cabeça sabe que o projecto sionista impôs uma injustiça histórica às pessoas que viviam nesta terra. Mas o meu coração lembra-se do que senti naqueles dias.

Aos 10 anos, poucas semanas após o nosso voo da Alemanha nazi e da chegada a este país, os meus pais enviaram-me para Nahalal, o primeiro Moshav (aldeia comunal). Eu vivia com uma família de "camponeses" - eles ainda não eram conhecidos como "agricultores" - a fim de me "aclimatizar" e aprender hebraico.

Como era Nahalal naqueles dias?

75 famílias, as suas pequenas casas brancas dispostas num círculo perfeito, que trabalhavam do amanhecer ao anoitecer.

No Inverno, a aldeia tornava-se num mar de lama, que se prendia às nossas botas de borracha que ficavam pesadas como chumbo.

No Verão, a temperatura era frequentemente elevada. Nós, as crianças, saíamos para trabalhar com os adultos, e por vezes era quase insuportável.

Todos viviam numa pobreza indescritível. Um pequeno copo de vinho feito em casa, na sexta-feira à noite, era o sumo dos luxos. O dinheiro era contado em piastras (moedas). Quando a mãe da família, enfim, conseguia uma máquina de costura Singer e podia fazer para a família roupas novas, era um motivo de comemoração.

Quando o poeta Nathan Alterman escreveu sobre o "descanso para o fatigado", não foi uma frase poética. Estava a falar de pessoas reais.

Essas pessoas eram os filhos e filhas da burguesia de São Petersburgo e de Kiev, filhos mimados de pais bem comportados, que vieram para aqui para "construir o país", caminhando de olhos abertos para uma vida de pobreza extrema e de trabalho extenuante, aprendendo uma língua estrangeira e desistindo da sua língua materna para sempre.

Durante os primeiros anos, eles trabalharam duramente para drenar o pântano das suas terras. Eu nem posso imaginar que, após um dia de trabalho, algum deles tivesse ainda energia suficiente para ler Tolstoi ou Dostoievski.

Eles sabiam, naturalmente, que existiam árabes por perto. Na estrada de Nahalal para Haifa passavam por aldeias árabes. Viram fellaheen a trabalhar nos campos. Mas eles eram de outro mundo. Aquele ano - 1934 - ainda era tranquilo, a calma antes da tempestade dos "distúrbios" de 1936. Eles não tinham contacto com os árabes, não compreendiam a sua língua, não tinham ideia nenhuma sobre o que se passou nas suas cabeças, quando viram os judeus tomarem conta dos seus campos.

O que eles sabiam era que os campos do vale de Jezreel, muitos dos quais tinham sido pântanos, haviam sido comprados por bom dinheiro a um fazendeiro árabe. Ninguém pensou nos camponeses que tinham vivido nesta terra e que a partir dela obtinham o seu sustento diário, desde há muitas gerações, e que foram expulsos quando o rico fazendeiro absentista a vendeu ao Fundo Nacional Judaico.

* * *

A nostalgia é uma emoção humana. Em todas as gerações, pessoas idosas recordam os dias da sua juventude e, sobretudo, parece-lhes um tempo de pureza e de felicidade.

Esta natural nostalgia pessoal une-se, no nosso caso, a um outro sentimento, o que faz com que as antigas canções nos inundem com o anseio da inocência daqueles dias, da virtude, da crença na "justeza do caminho", quando tudo parecia tão simples.

Sentimos então que íamos tomar parte num compromisso heróico sem precedentes, criando um novo mundo, uma nova sociedade, um novo ser humano, uma nova cultura, uma nova linguagem.

Recordava-nos de onde viéramos - de uma Europa que se estava a transformar num inferno para os judeus.

Sabíamos que era nosso dever construir um refúgio seguro para milhões de judeus que viviam num perigo crescente (embora ninguém poderia ainda imaginar o Holocausto), e que não tinham para onde fugir.

Houve um espírito de união, de pertença, de idealismo. As novas canções expressavam-no. Todos nós as cantamos nos movimentos de juventude, nas noites do kibutz, durante viagens pelo país, mesmo nas diversas organizações na clandestinidade, e naturalmente na escola.

Quando os "distúrbios" começaram em Abril de 1936, não os vimos como uma "Revolta Árabe". Tal como o "pogrom" de 1921 e o "massacre" de 1929, eles pareceram-nos mais uma conspiração britânica para incitar árabes ignorantes contra nós, para assim continuarem a governar o país.

As multidões árabes, "incitadas", atacaram-nos porque não compreendiam como éramos bons para eles.

Não compreendiam que estávamos a trazer para o progresso do país, agricultura moderna, cuidados de saúde, socialismo, a solidariedade dos trabalhadores.

Os seus líderes, os ricos "Effendis" (do turco, nobres) foram-nos instigando porque tinham medo que eles viessem a aprender connosco como exigir salários mais elevados. E existiam, claro, aqueles que acreditavam que os árabes assassinavam, pelo assassinato, que o assassinato era a sua natureza e a essência do Islão.

Não são desculpas, cínicos pretextos. O sionismo não foi cínico. Todo o Yishuv (a nova sociedade hebraica) acreditava nesta doutrina. Em retrospectiva, qualquer um pode dizer: esta crença foi necessária para manter o espírito idealista, ignorando o outro lado da moeda.

Vladimir Ze'ev Jabotinsky, que viveu no estrangeiro e não tinha participado no esforço pioneiro do (socialista) "Construindo Eretz Israel", olhou para as coisas de longe e viu-as como eram: já na década de 1920 afirmou que os árabes palestinianos se comportavam como qualquer pessoa o faria se vissem estranhos virem para o seu país com a intenção de o transformar na sua própria pátria. Mas apenas uns poucos o escutaram.

Quanto à esquerda sionista, existiram sempre alguns grupos e indivíduos a tentar encontrar um compromisso entre o sionismo e os povos da terra, o que não iria dificultar os sionistas de criar colonatos por todo o país. Foi antes de 1946, o que veio a ser o primeiro grupo (do qual fui um dos fundadores), que reconheceu os palestinianos - e árabes em geral - o Movimento Nacional, e propôs uma surpreendente aliança com eles.

Em 1948, as canções da Guerra da Independência juntaram-se às canções dos pioneiros. A este respeito também, não poucos dentre nós sofre de dissonância cognitiva. Por um lado - o que sentimos então. Por outro lado - a verdade como a conhecemos hoje.

Para os combatentes - como para toda a Yishuv - era, simplesmente, uma guerra pela sobrevivência.

O slogan era "não há alternativa", e todos nós acreditávamos nele completamente. Estávamos a lutar, de costas para a parede, a vida das nossas famílias pendurada na balança. O inimigo rodeava-nos.

Acreditámos que nós, os poucos, os muito poucos, quase sem armas, podíamos afrontar um mar de árabes. Na primeira metade da guerra, os combatentes árabes (conhecidos entre nós por "gangues") efectivamente dominavam todas as estradas e, na segunda metade, os exércitos regulares árabes aproximaram-se dos centros populacionais hebraicos, cercando a Jerusalém hebraica e aproximando-se de Tel-Aviv. O Yishuv perdeu 6.000 jovens, de uma população de cerca de 635 mil. Todos os grupos etários foram dizimados. Inumeráveis actos heróicos foram realizados.

O idealismo dos combatentes encontrou a sua expressão nas canções. A maioria delas são imbuídas da fé na vitória, e, naturalmente, a total convicção da justeza da nossa causa. Nós não deixamos árabes por trás das nossas linhas, nem os árabes deixaram qualquer judeu por trás das deles. Parecia, naquelas circunstâncias, uma simples necessidade militar. Os combatentes não pensaram então sobre a "limpeza étnica" - uma expressão ainda não inventada.

Não tínhamos percepção sobre o real equilíbrio de poder entre nós e o outro lado.

Os árabes pareciam-nos uma enorme força. Nós não sabíamos que os palestinianos estavam brigando uns com os outros, incapazes de se unirem e criarem uma força de defesa a nível nacional e que tinham uma grave escassez de armas modernas.

Mais tarde, quando os exércitos árabes aderiram à desordem, nós não sabíamos que eles eram incapazes de cooperar uns com os outros, que era mais importante para eles competir uns com os outros do que nos derrotar.

Hoje, um crescente número de israelitas começou a compreender o verdadeiro significado da "Nakba", a grande tragédia do povo palestino e de todas as pessoas que perderam as suas casas e maior parte da sua pátria.

Mas as canções vêm e lembram-nos do que sentimos naquele tempo, quando as coisas aconteceram. Um abismo abissal entre a realidade emotiva daqueles dias e a verdade histórica tal como a conhecemos hoje.

Alguns vêem toda a guerra de 1948 como uma conspiração da liderança sionista que pretendia logo desde o princípio expulsar os palestinianos do país, a fim de transformá-lo num Estado judeu. De acordo com este ponto de vista, os soldados da guerra 1948 eram criminosos de guerra que implementaram uma política perversa, tal como os pioneiros da geração anterior eram ladrões de terras, cavaleiros da limpeza étnica por expulsão e expropriação.

Eles vêem a sua visão reforçada pelos colonos de hoje, que estão a expulsar os palestinianos do que resta das suas terras. Pelas suas acções mancha-se o passado pioneiro. Fanáticos religiosos e "hooligans" fascistas que alegam ser os herdeiros dos pioneiros, obliteram as verdadeiras intenções daquela geração.

* * *

Como se pode superar a contradição entre as intenções e as emoções dos actores e as suas muitas e magníficas conquistas na construção de uma nova nação, e o lado escuro das suas acções e consequências?

Como cantar sobre as esperanças e os sonhos da nossa juventude e, ao mesmo tempo, admitir a terrível injustiça de muitas das nossas acções?

Cantar com o coração cheio as músicas dos pioneiros e as canções da guerra de 1948 (uma das quais escrevi, e de que estou longe de me orgulhar), sem negar a terrível tragédia que impusemos ao povo palestiniano?

Barack Obama disse aos turcos, esta semana, que deviam enfrentar o massacre dos arménios cometido pelos seus antepassados, enquanto, ao mesmo tempo, recordava aos americanos que tinham de encarar o genocídio dos americanos nativos e da escravidão negra explorada pelos seus próprios pais.

Acredito que podemos fazer o mesmo em relação à catástrofe que causámos aos palestinianos. Estou convencido de que isto é importante, mesmo essencial, para a nossa própria saúde mental, bem como um primeiro passo em direcção à eventual reconciliação.

Temos de admitir e reconhecer as consequências das nossas acções e reparar o que possa ser reparado - sem negar o nosso passado e as canções que expressam a inocência de nossa juventude.

Temos de viver com esta contradição, porque é a verdade das nossas vidas.

11/04/2009

Uri Avnery

Tradução do Fórum Palestina

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