Universidade precária criar PDF versão para impressão
21-Abr-2009

Tiago GillotNão é novidade para ninguém que o ensino superior vive dias difíceis. As comunidades escolares agonizam perante a indiferença deste Governo, obediente às ordens do mercado e nas tintas para o definhamento do ensino e das condições para lhe aceder. Sob a batuta de Bolonha, nada melhorou: a Universidade é hoje mais excludente e cada vez menos um espaço de autonomização das pessoas que por lá passam - nas faculdades, pouco sobra da função de formação de mão-de-obra para as miseráveis condições em que se trabalhará depois (quando o curso acabar).

Os Reitores dizem que vai deixar de haver dinheiro para pagar salários e há cada vez mais estudantes a abandonar o ensino superior por falta de condições económicas para continuar. Longe vão os tempos em que se tentava iludir meio mundo com a ideia de que as propinas serviam apenas para "investir na qualidade do ensino": as propinas servem, está bom de ver, para substituir o financiamento público e para excluir uma cada vez maior fatia de pessoas da hipótese de frequentar o ensino superior. É a Universidade precária: ameaçada pelo desinvestimento, a ser preparada para os bons-argumentos-a-favor-da-privatização, cada vez mais uma fábrica de futuros precários e desempregados.

Os últimos dias trouxeram uma notícia que revela o maior descaramento. A Universidade do Porto (UP) criou bolsas extraordinárias e subsídios de emergência para estudantes com dificuldades económicas, mas com a contrapartida de que as pessoas beneficiadas aceitem trabalhar nas funções para que forem solicitadas pela UP. Esta medida infame esclarece, no entanto, o desespero do ponto a que chegámos: as Universidades não têm dinheiro e recorrem a mão-de-obra barata entre os próprios alunos, que estão a deixar de ter, também eles, dinheiro para lá andar.

Os estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto aprovaram, em Assembleia Geral de Alunos, na semana passada, uma moção em que acusam a Reitoria de querer "transformar os estudantes em trabalhadores precários explorados pela UP". Nem mais.

É assim que estamos, infelizmente. Há muito que Mariano Gago perdeu a hipótese de ser uma excepção neste Governo de tecnocratas obedientes. Este poder tem destas coisas: Gago é agora um rendido ao "mérito", a Bolonha, às propinas a aumentar, às ambições do mercado, aos "rigores financeiros", aos MIT's e à "excelência" de fachada, à pauperização da Universidade e à lei do mais forte. E já aprendeu a negar o evidente, à moda de Sócrates: está tudo bem e, se não está, a culpa é da malta, que anda a gastar de mais. Claro: o dinheirinho não chega para tudo e tem que dar para quem anda a engordar enquanto produz crises que são sempre outros a pagar.

As faculdades sentem a urgência de respostas que tenham força para dar a volta a esta desgraçada regra da selva. É preciso juntar pessoas e argumentos que rompam com as ideias feitas e com o falso consenso da Escola-empresa - que exijam a Escola pública e recusem a precarização (da Universidade, de estudantes e professores). Surgem agora alguns exemplos de luta, que é preciso cruzar e amplificar, com a abertura que permite juntar as muitas vontades que por aí andam e que têm que se encontrar. É disso que precisamos: de nos encontrar numa luta que transforme os espaços que habitamos - na Escola e em todo o lado - antes que seja tarde de mais e já esteja tudo à venda, ao preço da nossa falta de comparência.

Tiago Gillot

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