Disputa eleitoral na Venezuela criar PDF versão para impressão
01-Dez-2006

CHÁVEZ DEVE VENCER COM FOLGA, MAS OPOSIÇÃO GANHA ESPAÇO

venezuela02Neste artigo, Gilberto Maringoni, da Agência Carta Maior (Brasil), descreve o clima político na recta final da campanha, mostrando como a grande mobilização da oposição em Caracas provocou uma ainda maior manifestação dos apoiantes de Chávez (ver os vídeos da campanha). E prevê uma vitória folgada de Chávez, apesar do reforço da coligação que apoia Manuel Rosales.

 

 

ELEiÇÕES NA VENEZUELA

Chávez deve vencer com folga, mas oposição ganha espaço

Com mais de vinte pontos à frente, Chávez deve ser reeleito presidente da Venezuela no próximo domingo. Oposição consegue se unificar e mostrar que tem base social. Principais desafios do próximo mandato são melhorar serviços públicos, atender demandas sociais e debater o que seria o "socialismo do século XXI".

Gilberto Maringoni - Carta Maior

SÃO PAULO - Todas as pesquisas de opinião apontam uma vantagem de vinte pontos ou mais para o presidente venezuelano Hugo Chávez nas eleições deste domingo (3). Seu maior opositor, Manuel Rosales, atual governador do estado Zulia, conseguiu tornar-se candidato único de oito partidos de oposição. É uma convergência inédita nos últimos anos. Com ele estão, dentre outros, Primeiro Justiça, COPEI, Movimento ao Socialismo (MAS) e parte da Ação Democrática, todos situados claramente à direita no espectro político.

Rosales apoiou o golpe de 2002 contra Chávez e hoje alega ter se arrependido do gesto. Há dois anos tornou-se um dos poucos governadores eleitos pela oposição e quer agora externar uma personalidade política diversa. Comandando a região onde se situam as maiores reservas petroleiras do país, buscou dar uma face social-democrata com preocupações sociais à sua administração.

"Esta característica permitiu que Rosales conseguisse juntar várias forças políticas e apresentar-se como postulante de uma frente eleitoral", diz Edgardo Lander, sociólogo e professor da Universidade Central da Venezuela (UCV). Para ele, trata-se de uma mudança importante na cena política. "Mesmo com a previsível vitória do presidente, há um setor da oposição que recupera sentido ao participar do jogo político". Há alguns meses existiam propostas, entre a oposição, de não participar das eleições, alegando possíveis fraudes.

"Duas idéias de país"
Teodoro Petkoff, ex-comunista e um dos coordenadores da campanha de Rosales, escreveu no editorial de seu jornal Tal Cual desta quinta-feira (30) que "Culmina hoje a campanha eleitoral mais carregada de significados que vivenciamos desde 1958. Duas idéias de país duelarão neste domingo". Há um certo exagero na comparação. Há 48 anos caía a última ditadura militar da Venezuela, em meio a um verdadeiro levante popular. De lá para cá, pelo menos dois embates nas urnas foram decisivos: a eleição de Chávez, em 1998, e o referendo revogatório de 2004. Foram seis anos de aguda confrontação, tentativas de golpe e isolamento internacional.

Quando começou a ficar claro que a vitória de Chávez representava mais que um fenômeno venezuelano e inseria-se num amplo quadro de descontentamento com as reformas liberais no continente, o isolamento começou a se dissolver. O reflexo interno foi a fragmentação oposicionista, apesar do amplo apoio com que as forças conservadoras contam nos meios de comunicação.

Um grande ato
O grande tento que a candidatura de Rosales logrou obter foi a realização de um gigantesco ato de encerramento de campanha, no sábado (25), na autopista Francisco Fajardo, zona leste de Caracas. A larga via, de oito pistas, foi tomada por cerca de 400 mil oposicionistas, número inédito desde o golpe de 11 de abril de 2002. Naquele dia, um público semelhante iniciou, no mesmo local, uma expressiva marcha rumo ao palácio de Miraflores, exigindo a saída de Chávez . No sábado, a oposição se vitaminou ao perceber que conta com uma expressiva, embora minoritária, base social.

A multidão que tomou o asfalto repetia a palavra de ordem "Atreva-se!" e gritava, referindo-se a Chávez: "Se vá, se vá, se vá, se vá". Tentando imprimir um viés social à campanha, Rosales garantiu que irá "retirar todas as crianças das ruas, caso contrário sairei da presidência". Prometeu que "A Venezuela terá um novo presidente para uma nova democracia social, para que todos possam participar das riquezas e viverem bem". Denunciou ainda o clima de insegurança que "tornou Caracas a segunda cidade mais perigosa da América Latina". E não se esqueceu de mandar um recado ao mercado: "Teremos segurança jurídica para chamar o capital privado nacional e estrangeiro a gerar trabalho e mais riquezas para a Venezuela".

A reação chavista
"Após o comício, aconteceu então algo surpreendente", relata o economista brasileiro Luciano Wexell Severo, funcionário do Ministério do Comércio Exterior venezuelano. A campanha de Chávez convocara uma manifestação para o dia seguinte, na avenida Bolívar, no centro, com diversos pontos de concentração pela cidade. Severo lembra que apesar da existência de diversos focos de descontentamento popular com corrupção, burocratismo e ineficiência dos serviços públicos, a resposta popular foi incisiva. "Na hora em que se percebeu a força do outro lado, mesmo os recalcitrantes saíram às ruas em apoio ao governo". O resultado foi uma maré humana, vinda de diversas partes do país, como poucas vezes se viu em Caracas. "Eu estive nas duas concentrações. Havia pelo menos o dobro de gente apoiando Chávez", relata.

O discurso presidencial no ato teve como centro a idéia que a partir de segunda-feira "começará outra era revolucionária". O "comandante", como é chamado, deseja radicalizar o combate às mazelas que descontentam a população e se candidatar novamente em 2010. "Vamos discutir o socialismo do século XXI, os conselhos comunais e estreitar nossa aliança com países irmãos, como Cuba". No âmbito político, deseja unificar todas as agremiações que o apóiam num "único partido da Revolução", para enfrentar o que define como "oposição contra-revolucionária", que seria representante "do governo imperialista dos Estados Unidos".

A longa intervenção foi feita no mais puro estilo Chávez. Falou de quase tudo, de Bolívar, da história, dos planos do futuro, da integração regional, da melhoria dos programas sociais etc. Dedicou a vitória "ao povo venezuelano, ao povo da Nicarágua, a Evo Morales e ao povo da Bolívia, ao Brasil e a Lula, o companheiro presidente, amigo e irmão, à Argentina e seu povo, a Nestor Kirchner, a Tabaré e ao povo uruguaio e a todos os povos companheiros". Mais do que retórica explicita, o presidente busca indicar quais são suas alianças regionais.

Demandas populares
"Chávez toca em demandas reais, como fim à corrupção, participação popular e mesmo sobre o que seria o socialismo do século XXI", diz Edgardo Lander. Estes temas, segundo o sociólogo, foram deixados de lado no debate eleitoral. "Diz-se que um ciclo se fecha e outro se abre. Mas não há muito conteúdo nessas consignas". Para ele, a discussão sobre o "socialismo do século XXI" precisa levar em conta o que foi o socialismo do século XX, com seus erros e acertos, suas tendências autoritárias e centralizadoras, para que os problemas não se repitam. É um debate que tende a aflorar em 2007, opina.

Com todos os problemas, o desemprego baixou para menos de 8%, embora alguns serviços públicos sigam deficientes. "A cidade, como espaço urbano, segue sendo um caos, com iluminação, recolhimento de lixo e transportes seguem precários". Mas o embate desses dias tende a inverter um quadro preocupante na participação democrática da população. "Hove uma polarização nos últimos dias. É possível que a abstenção eleitoral, tradicionalmente alta, caia na disputa de domingo", opina Lander.

Apesar de se colocar abertamente ao lado de Manuel Rosales, a imprensa, diante da vitória quase certa de Chávez, perdeu um pouco de seu exagero habitual. Um pouco mais sóbrios, os jornais aparentemente já se conformaram com o resultado e, nos últimos dias, buscaram produzir um noticiário menos disparatado do que em outras disputas políticas.
 
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