Uma pequena luz vermelha criar PDF versão para impressão
25-Abr-2009


Uri AvneryTalvez Avigdor Lieberman seja apenas um episódio passageiro nos anais do Estado de Israel. Talvez o fogo que está a tentar inflamar comece a vacilar brevemente e se extinga por si só. Ou talvez as investigações policiais sobre as graves questões de corrupção de que é suspeito conduzam à sua retirada da esfera pública.

Mas o contrário também é possível. Na semana passada, ele prometeu aos seus acólitos que as próximas eleições iriam levá-lo ao poder.

Talvez Lieberman prove ser um "Israbluff" (um termo que ele próprio gosta de usar), e que se revele, por detrás da fachada assustadora, nada mais do que um impostor.

Talvez este Lieberman vá desaparecer, para ser substituído por um outro Lieberman, ainda pior.

De qualquer forma, devemos confrontar abertamente o fenómeno que ele representa.

Se alguém acredita que o seu discurso soa a fascista, tem de perguntar a si mesmo: existirá uma possibilidade de que um regime fascista possa chegar ao poder em Israel?

* * *

O profundo sentimento inicial é um retumbante não. Em Israel? No Estado judeu? Após o Holocausto que o nazi-fascismo trouxe sobre nós? Pode alguém sequer imaginar que os israelitas se tornarão em algo semelhante aos nazistas?

Quando Yeshayahu Leibowitz cunhou, há muitos anos, a expressão "judeu-nazi", o país inteiro explodiu. Mesmo muitos dos seus admiradores pensaram que desta vez o turbulento professor tinha ido longe demais.

Mas os slogans de Lieberman justificaram-no em retrospectiva.

Alguns gostariam de rejeitar o sucesso de Lieberman nas recentes eleições. Afinal, o seu partido, "Israel é a nossa casa", não é o primeiro a aparecer do nada e a ganhar uns impressionantes 15 lugares. Exactamente o mesmo número que foram ganhos pelo partido Dash do General Yigael Yadin em 1977 e do partido Shinui de Tommy Lapid, em 2003 - e ambos desapareceram rapidamente sem deixar um rasto.

Mas os eleitores de Lieberman não são como os de Yadin e Lapid, que eram cidadãos que estavam fartos de alguns aspectos particulares da vida israelita. Muitos dos seus eleitores são imigrantes da antiga União Soviética, que olham o seu "Ivett", um imigrante da ex-soviética terra da Moldávia, como um representante do seu "sector".

Embora muitos deles tivessem trazido com eles, da sua antiga terra natal, uma visão do mundo de direita, anti-democrática e mesmo racista, eles não representam por si só um perigo para a democracia israelita.

Mas a energia adicional que transformou o partido de Lieberman no terceiro maior partido no novo Knesset veio de outro tipo de eleitor: jovens nascidos em Israel, muitos dos quais tinham recentemente tomado parte na Guerra Gaza. Eles votaram nele porque acreditavam que ia expulsar os cidadãos árabes de Israel, e os palestinianos para fora de todo o histórico país.

Estas pessoas não são marginais, fanáticos ou desprivilegiados, mas jovens normais que terminaram o ensino secundário e serviram no exército, que dançam nas discotecas e pretendem formar famílias. Se estas pessoas estão a votar maciçamente num racista declarado com um odor pungente a fascista, o fenómeno não pode ser ignorado.

Cinquenta anos atrás escrevi um livro chamado "O Swastika", no qual descrevi como os nazis tomaram conta da Alemanha. Fui ajudado pelas minhas memórias de infância.

Tinha 9 anos quando os nazis chegaram ao poder. Testemunhei a agonia da democracia alemã e os primeiros passos do novo regime antes dos meus pais, na sua infinita sabedoria, decidirem fugir e fixar-se na Palestina.

Escrevi o livro na véspera do julgamento de Adolf Eichmann, depois de perceber que a jovem geração de Israel sabia muito sobre o Holocausto, mas quase nada sobre as pessoas que o realizaram. O que me ocupou mais do que qualquer outra coisa foi a pergunta: como pôde um tão monstruoso partido conseguir chegar ao poder democraticamente num dos países mais civilizados do mundo?

O último capítulo do meu livro intitulou-se "Pode acontecer aqui". Foi uma paráfrase do título de um livro do escritor americano Sinclair Lewis, "Não pode acontecer aqui", no qual ele descreveu com precisão como é que poderia acontecer nos Estados Unidos.

Defendi no livro que o nazismo não era uma doença especificamente alemã, que, em determinadas circunstâncias, qualquer país do mundo pode ser infectado por este vírus - incluindo o nosso próprio estado. Para evitar este perigo, cada um de nós tinha de compreender as causas subjacentes ao desenvolvimento da doença.

À asserção de que estou "obcecado" por esta matéria, que vejo este perigo oculto a cada esquina, eu respondo: não é verdade. Durante anos tenho evitado lidar com este assunto. Mas a verdade é que eu trago na minha cabeça uma pequena luz vermelha que acende quando sinto o perigo.

Agora esta luz está a piscar.

* * *

Qual a causa para a doença nazi irromper do passado? Porque irrompe num determinado momento e não num outro? Porquê na Alemanha e não num outro país que sofre de problemas semelhantes?

A resposta é que o fascismo é um fenómeno especial, ao contrário de qualquer outro. Não é uma "extrema-direita", um alargamento das atitudes dos "nacionalistas" ou "conservadores". O fascismo é o oposto do conservadorismo, em muitos aspectos, embora possa aparecer como um conservador disfarçado. Além disso, não é uma radicalização do usual e típico nacionalismo, que existe em cada nação.

O fascismo é um fenómeno único e tem características únicas: a noção de ser um "povo superior", a negação da humanidade de outras nações e minorias nacionais, o culto de um líder, o culto da violência, o desprezo pela democracia, uma adoração pela guerra, o desprezo pela moralidade aceite. Todos estes atributos, em conjunto, criam o fenómeno, que não tem nenhuma definição científica acordada.

Como é que isto aconteceu?

Centenas de livros foram escritos sobre ele, dezenas de teorias foram apresentadas, e nenhuma delas é satisfatória. Com toda a humildade proponho uma teoria minha, sem reivindicar ter mais validade do que qualquer uma das outras.

Segundo a minha percepção, uma revolução fascista irrompe quando uma personalidade muito especial intersecta uma situação nacional muito especial.

* * *

Sobre a personalidade de Adolf Hitler inúmeros livros também foram escritos. Cada fase da sua vida tem sido examinada ao microscópio, cada uma das suas acções foi debatida incansavelmente. Não existem segredos sobre Hitler, embora Hitler tenha permanecido um enigma.

Um de seus traços mais evidentes foi o seu anti-semitismo patológico, que foi muito para além de qualquer lógica. Permaneceu nele até à última hora da sua vida, quando ele ditou o seu testamento e cometeu suicídio.

Nos momentos mais desesperados da sua guerra, quando os seus soldados, na frente, reclamavam reforços e abastecimentos, comboios preciosos foram desviados para o transporte de judeus para os campos de morte. Quando a Wehrmacht sofria de uma severa falta de praticamente tudo, trabalhadores judeus foram retirados de fábricas essenciais para serem enviados para a morte.

Várias explicações para este anti-semitismo patológico têm sido sugeridas, e todas elas foram desmentidas. Será que Hitler quis vingar-se de um judeu que era suspeito de ser o seu verdadeiro avô? Odiava ele o médico judeu que tratou da sua amada mãe antes de ela morrer? Foi um castigo para o judeu, director da escola de arte, que não conseguiu reconhecer o seu génio? Odiava os pobres judeus que por acaso encontrou quando era um sem-abrigo, em Viena? Tudo isto foi analisado e considerado insuficiente. O enigma continua.

O mesmo é verdadeiro para as suas outras opiniões pessoais e atributos. Como é que ele conseguiu o poder de hipnotizar as massas? Que tinha ele que fez tantas pessoas, de todas as posições sociais, identificar-se com ele? Donde brotou a sua luxúria desenfreada pelo poder?

Não sabemos. Não existe nenhuma explicação completa e satisfatória. Nós só sabemos que, de entre os milhões de alemães e austríacos que viviam naquele momento, e os milhares que cresceram em circunstâncias semelhantes, existiu (tanto quanto sabemos), apenas um Hitler, uma pessoa única. Pedindo emprestado um termo da biologia: ele foi uma mutação singular (one-time mutation).

Mas o singular Hitler não se teria tornado numa personalidade histórica se não se tivesse encontrado com a Alemanha, em circunstâncias únicas.

* * *

A Alemanha no final da república Weimar também tem sido objecto de numerosos livros. O que fez o povo alemão adoptar o nazismo? Causas históricas, enraizadas na terrível catástrofe da guerra dos Trinta Anos, ou mesmo em eventos anteriores? O sentimento de humilhação após a derrota na Primeira Guerra Mundial? A indignação perante os vencedores, que derrubaram a Alemanha na poeira e impuseram enormes indemnizações? A terrível inflação de 1923, que eliminou as economias de todas as classes? A Grande Depressão de 1929, que atirou milhões de dignos e diligentes alemães para a rua?

Esta questão também não encontrou resposta que satisfaça. Outros povos também foram humilhados. Outros povos perderam guerras. A Grande Depressão atingiu dezenas de países. Nos EUA e no Reino Unido, também, milhões foram despedidos. Por que o fascismo não se apoderou do poder nesses países (excepto em Itália, claro)?

Na minha opinião, a faísca fatal foi inflamada num fatídico momento em que um povo pronto para o fascismo encontrou-se com o homem com os atributos de um líder fascista.

O que teria acontecido se Adolf Hitler tivesse sido morto num acidente rodoviário, no Outono de 1932? Talvez outro líder nazi tivesse chegado ao poder, mas o Holocausto não teria acontecido, e nem, provavelmente, a Segunda Guerra Mundial.

O seu provável substituto - Gregor Strasser, que foi o No. 2, ou Hermann Goering, o ás voador, viciado em morfina - foram efectivamente nazis, mas nenhum deles foi um segundo Hitler. Faltava-lhes a sua personalidade demoníaca.

E o que teria acontecido se a Alemanha não tivesse caído no mais profundo desespero? As potências ocidentais poderiam ter sentido o perigo a tempo e ajudado na reconstrução da economia alemã e na redução do desemprego. Eles poderiam ter revogado o infame Tratado Versalhes, imposto pelos vencedores, após a I Guerra Mundial, e permitido aos alemães recuperar a sua auto-estima. A república alemã poderia ter sido salva, os líderes morais, que a Alemanha tinha em quantidade, poderiam ter recuperado a sua liderança.

O que teria acontecido, então?

Adolf Hitler, a quem o muito adorado presidente do Reich, um Marechal de Campo, tinha desdenhosamente chamado o "Cabo-arvorado da Boémia", teria permanecido um pequeno demagogo sobre uma excêntrica franja. O século 20 teria parecido bastante diferente. Dezenas de milhões de baixas de guerra e seis milhões de judeus teriam permanecido vivos, sem nunca saberem o que poderia ter acontecido.

Mas Hitler não morreu cedo e o povo alemão não foi salvo da sua sorte. No momento crucial encontraram-se, e uma faísca saltou, incendiando o rastilho que levou à histórica explosão.

* * *

Um tal fatídico encontro não é, obviamente, limitado ao fascismo. Tem ocorrido na história, noutras circunstâncias e com outras pessoas.

Winston Churchill, por exemplo.

As suas estátuas espalham-se pela paisagem britânica, e ele é considerado um dos maiores líderes britânicos de todos os tempos.

Mas até o final dos anos 30, Churchill foi um fracasso político. Poucos o admiravam, e menos, ainda, gostavam dele. Muitos dos seus colegas detestavam-no do fundo do coração. Foi considerado um egomaníaco, um demagogo arrogante, um bêbado errático. Mas num momento de perigo existencial, os britânicos encontraram nele o seu porta-voz e o líder, que assumiu o destino nas suas mãos. Parecia como se durante todos os primeiros 65 anos de sua vida, Churchill tivesse sido preparado para este momento único, e como se a Grã-Bretanha tivesse estado à espera precisamente deste homem único.

A história teria parecido diferente se Churchill tivesse morrido no ano anterior de trombose coronária, câncer de pulmão ou cirrose do fígado, e Neville Chamberlain se mantivesse no poder?

Sabemos agora que ele e os seus colegas, incluindo o influente ministro dos Negócios Estrangeiros, Lord Halifax, consideravam seriamente aceitar a oferta de paz de Hitler, em 1940, baseada na divisão do mundo entre os impérios alemão e britânico.

Ou Lenine.

Se o Estado-Maior do Império Germânico não tivesse fornecido o famoso comboio selado para levá-lo de Zurique à Suécia, donde prosseguiu para São Petersburgo, a revolução bolchevique, que mudou a face do século 20, teria tido lugar de todo?

Na verdade, Trotsky estava na cidade antes dele, e também Estaline. Mas nenhum dos dois foi um Lenine, e sem Lenine seria muito possível não ter acontecido, e certamente não aconteceria da forma como aconteceu.

Talvez possamos acrescentar a esta lista Barack Obama. Uma pessoa muito especial, de origem e carácter único, que tinha um encontro marcado com o povo americano num momento importante do seu destino, quando este estava a sofrer duas crises de uma só vez - a política e a económica - que lança a sua sombra sobre todo o mundo.

* * *

De volta aos EUA. Será que o Estado de Israel se aproxima de uma crise existencial - moral, política, económica - que poderia deixá-la uma nação em perigo? Pode Lieberman, ou alguém que possa tomar o seu lugar, revelar-se uma personalidade demoníaca como Hitler, ou, pelo menos Mussolini?

Na nossa situação actual, há algumas indicações perigosas.

A última guerra mostrou uma nova descida nos nossos padrões morais.

O ódio contra a minoria árabe de Israel está em ascensão, e assim é o ódio contra as pessoas da Palestina ocupada que estão a sofrer um lento estrangulamento.

Nalguns círculos, o culto da força bruta está a ganhar força.

O regime democrático está numa interminável crise.

A situação económica pode cair no caos, de forma a que as massas anseiem por um "homem forte".

E a convicção de que nós somos um "povo escolhido" já está profundamente enraizada.

Estas indicações podem não levar necessariamente à catástrofe. Absolutamente, não!

A história está cheia de nações em crise, que recuperaram e regressaram à normalidade.

Para além do Hitler genuíno, que subiu a alturas históricas, existem provavelmente centenas de outros Hitlers, não menos loucos e não menos talentosos, que terminaram a sua vida como caixas nos bancos ou escritores frustrados, porque não encontraram uma oportunidade histórica.

Tenho uma grande confiança na capacidade de resistência da sociedade israelita e da democracia israelita. Creio que temos forças escondidas que virão para o primeiro plano numa hora de necessidade.

Nada "deve" acontecer. Mas tudo "pode" acontecer. E a pequena luz vermelha não para de piscar.

18/04/2009

Uri Avnery

Tradução do Fórum Palestina

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