O ilustre benfeitor criar PDF versão para impressão
28-Abr-2009

Carlos SantosNo dia 23 de Fevereiro de 2009 as pessoas que jantavam num certo restaurante de Braga ficaram espantadas: um ilustre benfeitor tinha-lhes pago a conta e não sabiam porquê.

Mas é facilmente explicável. O homem não cabia em si de contente. Tentara corromper o vereador Sá Fernandes com 200 mil euros para que este não contestasse o fabuloso negócio da permuta entre os terrenos da Feira Popular e do Parque Mayer, em Lisboa. Denunciado, tinha ouvido a sentença naquele dia: multa de cinco mil euros por tentativa de corrupção para acto lícito. A tentativa de corrupção tinha ficado provada, mas a lei, que o PS não quis mudar, diferencia de forma absurda entre acto lícito e acto ilícito.

E o tribunal, apesar de dar como provada a tentativa de corrupção, condenou o réu com a referida multa. Por isso, é bem compreensível a sua enorme felicidade. Ficou provado que tinha tentado corromper e, com isso, ficaram desmascaradas as patranhas que inventou, negando o que fizera e vitimizando-se. Mas isso pouco lhe importa, porque sabe que haverá sempre um qualquer autarca que faz jus à velha máxima de um antigo político brasileiro: "Eu roubo, mas faço!" Agora a multa de cinco mil euros era verdadeiramente importante, afinal era apenas 2,5% do que tinha oferecido ao vereador. E, pensando bem, ser conhecido como corruptor não era mau, porque alargava o mercado. No final de contas, bem aventurado o momento em que tinha tentado corromper o vereador, tornara-se uma personalidade conhecida nacionalmente, um homem do qual todos diriam: "tem um poder imenso".

Alguns dos seus amigos autarcas, nomeadamente o edil "socialista" de Braga, acharam que o homem não podia ficar sozinho na sua euforia e que era preciso rapidamente dar-lhe melhores condições para alargar os seus negócios. Daí, presentearam-no com a presidência da Braval, a empresa de tratamento de resíduos sólidos do Baixo Cávado, que engloba os municípios de Braga, Póvoa de Lanhoso, Amares, Vila Verde, Terras do Bouro e Vieira do Minho. Uma iniciativa que, portanto, envolvia politicamente um largo bloco central, com autarcas do PS, do PSD e do CDS.

Só que o Bloco de Esquerda não se calou. Denunciou o escândalo, tornou-o um caso nacional, acabando por obrigar a, depois de vários dias, todos os restantes partidos virem condenar a decisão das Câmaras do Baixo Cávado. Domingos Névoa achou que mais uma vez tinha perdido a partida e que, para evitar males maiores, o melhor era demitir-se de presidente da Braval.

Na política em Portugal há uma realidade indesmentível nos últimos 10 anos: o Bloco de Esquerda não se acomoda, denuncia e combate a corrupção, por mais ilustres que sejam os corruptores, apesar dos silêncios de uns e da cumplicidade de outros. Foi por isso que foi possível aprovar no parlamento o fim do sigilo bancário. Independentemente das vicissitudes que o projecto aprovado ainda possa sofrer, toda a gente sabe que pode confiar no Bloco para combater a corrupção, um dos principais meios com que o poder económico viola a democracia e se impõe sobre o poder político.

Carlos Santos

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