O que estava em causa na reunião do G20? criar PDF versão para impressão
29-Abr-2009

Immanuel WallersteinQuase toda a gente levou a reunião do G20 de 2 de Abril em Londres demasiado a sério. Especialistas e críticos analisaram-na como se o seu objectivo fosse introduzir algumas mudanças nas políticas dos estados que participaram. O facto é que todos os que compareceram sabiam antecipadamente que nada significativo iria mudar devido à reunião, e que as pequenas mudanças menores que nela foram adoptadas poderiam facilmente ter sido negociadas sem que a reunião tivesse ocorrido.

O que estava em causa naquela reunião - para os Estados Unidos, para a França e a Alemanha, para a China - era mostrar aos seus públicos internos que estavam a "fazer alguma coisa" acerca da calamitosa situação mundial, quando de facto nada de significativo fizeram para evitar que o navio afundasse.

A reunião era talvez mais importante para o presidente Obama. Ele compareceu para demonstrar três coisas: que é pessoalmente popular em todo o mundo; que iria apresentar um estilo diplomático radicalmente diferente do de George W. Bush; que as duas mudanças fazem uma grande diferença.

Sem dúvida, Obama demonstrou as primeiras duas. Foi aclamado por multidões em todo o lado - em Londres, Paris e Estrasburgo, na Alemanha, em Praga e na Turquia, assim como pelos soldados americanos no Iraque. Michelle foi igualmente aclamada. E não há dúvida que empregou um estilo diplomático diferente. Todos os interlocutores disseram que ele os levou a sério, ouviu-os atentamente, admitiu os erros e limitações passadas dos EUA, e pareceu aberto a soluções de compromisso das disputas diplomáticas - nada de que pudessem ter acusado George W. Bush.

Mas será que isto fez alguma diferença na prossecução dos objectivos diplomáticos dos EUA? É difícil ver de que forma. O debate entre, de um lado, a abordagem dos EUA à recuperação da economia-mundo (mais "estímulo"), uma abordagem apoiada pela Grã-Bretanha e pelo Japão e, do outro lado, a abordagem franco-alemã (mais "regulação" internacional das instituições financeiras) não foi, de forma nenhuma, resolvido. Quaisquer que fossem os méritos das duas argumentações, ambos os lados bateram o pé, e o comunicado final simplesmente eludiu as diferenças.

É verdade que o G20 aprovou um pacote de 1,1 milhão de milhões [1,1 trilião, na forma de contar dos EUA] a serem dados ao FMI para lançar Direitos Especiais de Saque (DES) como parte de um "plano global de recuperação numa escala sem precedentes". Mas, como muitos comentadores assinalaram, a escala do esforço é muito menor do que o que se diz. Em primeiro lugar, parte dele não é dinheiro novo. Em segundo lugar, trata-se de financiamento, e não necessariamente gasto. Em terceiro lugar, 60% dos DES irão para os Estados Unidos, Europa e China, que não precisam deles. E, em quarto lugar, 1,1 milhão de milhões não é tanto assim, quando colocado ao lado dos 5 milhões de milhões já disponibilizados em planos de estímulo fiscal em todo o planeta.

Todos se manifestaram contra o proteccionismo, e propuseram-se a tomar medidas contra ele. Mas não foram adoptadas medidas impositivas. Além disso, houve três diferentes tipos de proteccionismo em questão. O primeiro é a protecção das próprias indústrias, algo que virtualmente todos os membros do G20 já estão a fazer e muito provavelmente vão continuar. A segunda é a regulação dos fundos de investimentos (hedge funds) e das agências de rating. Os chineses aplaudiram, enquanto os Estados Unidos e a Europa ocidental ficavam hesitantes. A terceira é a regulação dos paraísos fiscais. Os europeus pressionaram a favor dela, os chineses encararam a ideia muito friamente, e os Estados Unidos ficaram algures no meio. Nada mudou em Londres.

Os franceses e os alemães pareciam querer usar a reunião de Londres para demonstrar que os compromissos geopolíticos que se recusavam a fazer com Bush, continuariam a não querer fazer com Obama. O jornal alemão Der Spiegel foi duro no seu julgamento: disse que a causa do desastre financeiro foi que George W. Bush fora um "cultivador de papoulas" que inundou o mundo inteiro [de dólares baratos], ... criando um crescimento aparente e causando uma bolha especulativa..." Pior ainda, "a mudança de governo em Washington não trouxe um regresso à auto-contenção e à solidez. Pelo contrário, levou a um abandono maior." A sua conclusão: "A chanceler alemã Angela Merkel tem razão. O Ocidente pode muito bem estar a tomar uma overdose fatal."

Na agenda geopolítica, a abordagem franco-alemã ao Afeganistão não se alterou - apoio verbal aos objectivos dos EUA sem enviar mais tropas. Estariam dispostos a receber prisioneiros de Guantánamo? A Alemanha continua a dizer absolutamente que não. A França magnanimamente aceitou receber um - sim, um.

Obama fez o discurso mais importante em Praga, delineando o apelo para o desarmamento nuclear - presumivelmente uma grande mudança em relação à posição de Bush. O jornal conservador francês Le Figaro relata que a célula diplomática do círculo íntimo de Sarkozy encarou o discurso de forma muito "abrasiva". Só relações públicas, disseram, para mascarar o facto de que as negociações dos Estados Unidos com a Rússia sobre esta questão não estão a ir a lado algum. Além disso, a França não estava a fim de receber lições morais dos americanos. É o que basta no que diz respeito ao novo estilo de Obama de apaziguar os europeus ocidentais.

Noutros lados, não pareceu funcionar muito melhor com os europeus da Europa central, onde o primeiro-ministro cessante conservador Mirek Topolanek, da República Checa, denunciou a proposta de estímulo económico de Obama como "um caminho para o inferno". O discurso de Obama ao Parlamento turco não lhe trouxe grande aplauso de todas as facções (excepto a direita proto-fascista) à sua abordagem concreta e ajustada às questões turcas. Mas observadores assinalaram que a linguagem sobre as questões do Médio Oriente era ao mesmo tempo tradicional e vaga.

O que a China queria da reunião do G20 era que acontecesse. A China queria ser incluída no círculo íntimo dos que tomam as decisões mundiais. Realizar uma reunião do G20 mostrava esta nova realidade. Quando o G20 decidiu reunir-se de novo, confirmou assim o lugar da China. Será que o G8 vai alguma vez reunir de novo? Dito isto, a China mostrou a sua reserva sobre as decisões actuais em muitas formas. Ofereceu um valor irrisório para o novo pacote do FMI. Afinal, não tinha garantias de que houvesse uma reforma real da administração do FMI, que concederia um papel apropriado à China.

O que podemos dizer em resumo é que os principais actores pavonearam-se na cena mundial. Alguma vez tiveram a intenção de fazer algo mais que isso? Provavelmente não. A recessão económica mundial continua a seguir o seu caminho, como se a reunião do G20 nunca tivesse ocorrido.

Immanuel Wallerstein

Comentário Nº. 255, 15/4/2009

Tradução de Luis Leiria

{easycomments}

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.