Podem os dois passear juntos? criar PDF versão para impressão
04-Mai-2009

Uri AvneryNão estou a afirmar que Mahmoud Ahmadinejad é um agente da Mossad [Serviços de espionagem israelitas].

Não, em absoluto. Eu não quero ser processado por difamação.

Estou apenas a dizer que se ele fosse um agente da Mossad, não se teria comportado de forma diferente.

E também: Se ele não existisse, a Mossad teria de inventar um como ele.

De qualquer maneira, o apoio que está a dar ao governo de Israel é inestimável.

Vejamos o escândalo da semana passada.

Anos atrás, foi convocada, pelas Nações Unidas, uma conferência contra o racismo, em Durban, África do Sul. Era natural que um tal fórum poderia denunciar, entre outros, o governo de Israel pela sua política para com os palestinianos - a ocupação, os colonatos, o muro.

Mas a conferência não se contentou com isso. Transformou-se numa plataforma para o incitamento selvagem contra o Estado de Israel - e apenas contra ele. Nenhum outro estado do mundo foi denunciado por violar os direitos humanos - e entre os denunciantes alguns eram dos mais detestáveis tiranos do mundo.

Quando foram feitos os preparativos para uma segunda "Durban", desta vez em Genebra, o governo de Israel fez tudo ao seu alcance para convencer, pelo menos, os países da América do Norte e da Europa para a boicotar. Isso não foi assim tão fácil.

Bem antes do início da conferência, os E.U. conseguiram eliminar a referência a Israel, no seu projecto de documento final (deixando apenas uma referência à resolução da primeira conferência), e, por fim, decidiram boicotar a conferência de qualquer forma. Mas os países europeus concordaram em participar.

O governo israelita estava antecipando a conferência com grande apreensão. As atrocidades da guerra Gaza voltara a opinião pública em muitos países contra Israel. A conferência poderia tornar-se numa saída para essas emoções. As mentes mais brilhantes em Jerusalém estavam a tentar encontrar maneiras de evitar que isso acontecesse.

E então chegou Ahmadinejad.

Dado que foi o único chefe de estado a participar, os organizadores não podiam impedi-lo de falar primeiro.

Proferiu um discurso provocador - não ficando satisfeito com criticar Israel, das suas palavras escorreram desenfreado ódio. Isto foi um pretexto bem-vindo para os representantes europeus se levantarem e saírem numa impressionante demonstração pro-israelita. A conferência tornou-se ridícula.

Se os "Sábios do Sião"1 tivessem planeado a conferência, não poderia ter terminado melhor até porque o governo israelita estava envolvido.

Tudo isto aconteceu no Dia do Holocausto, quando os judeus em Israel e em todo o mundo comemoram os milhões de vítimas do genocídio.

A memória do Holocausto une todos os judeus do mundo. Todo o judeu sabe que, se os nazis tivessem chegado até ele, ele também, teria ido para os campos da morte. Nós, que vivíamos então na Palestina, sabíamos que se o general alemão Erwin Rommel tivesse rompido através das linhas britânicas em El Alamein, o nosso destino teria sido o do Gueto de Varsóvia.

Todos os judeus consideram que é seu dever moral manter viva a memória das vítimas. A este profundo sentimento junta-se uma reflexão política: a memória do Holocausto origina que a maioria dos judeus, em toda parte, apoie o Estado de Israel, que se define como o "Estado dos Sobreviventes do Shoa [Holocausto] ".

Mas o tempo passa e as memórias desaparecem.

Existe uma necessidade recorrente de um inimigo presente e real, um "Segundo Hitler", que desperte todos os receios latentes ocultos na alma judia.

Em tempos idos foi Gamal Abd-al-Nasser, o "tirano egípcio". De seguida, foi Yasser Arafat que desempenhou este papel. Actualmente é o Hamas, mas que dificilmente é suficiente. Não há maneira de convencer alguém que o Hamas poderia aniquilar Israel.

Ahmadinejad é o candidato ideal. É um consistente negacionista do Holocausto. Afirmou que a "entidade sionista" deve desaparecer do mapa. Está a trabalhar na produção de uma bomba nuclear. Isto é grave - algumas bombas nucleares lançadas em centros populacionais israelitas poderiam realmente acabar com Israel. Portanto, temos um "Segundo Hitler", que está planeando um "segundo Holocausto". Contra ele, todos os judeus do mundo se podem unir. O que faríamos sem ele?

A suposta bomba nuclear iraniano cumpre outro papel muito importante. Serve agora como um instrumento para fazer desaparecer o problema palestiniano.

No próximo mês Netanyahu irá apresentar-se na Casa Branca. Isso poderá revelar-se um fatídico encontro. O Presidente Barack Obama pode exigir um claro compromisso para iniciar um processo de paz que levará à criação do Estado palestino.

Netanyahu fará um esforço desesperado para evitar esta situação, uma vez que a paz significaria a evacuação dos colonatos. Se ele concordar com isso, a sua coligação desmoronar-se-ia.

O que fazer? Graças a Deus pela bomba iraniana! Constitui uma ameaça existencial contra Israel.

É evidente que o Primeiro-Ministro israelita, não deve ser incomodado com ninharias como a paz com os palestinianos quando a espada nuclear iraniana está baloiçando sobre a sua cabeça!

Os antecessores de Netanyahu também já utilizaram este truque. Sempre que alguém levanta a questão do conflito israelo-palestino e exige que o nosso governo inicie negociações sérias, congelando os colonatos, desmantelando os postos avançados, libertando prisioneiros, terminando com o bloqueio da população da Faixa de Gaza, removendo os bloqueios das estradas - a bomba iraniana aparece ex machina.

Não há tempo para pensar noutra coisa. A bomba encabeça a nossa agenda. A bomba é a nossa agenda.

Existe muita ironia nisto.

O Irão nunca esteve, nem um pouco, interessado na situação difícil dos palestinos. Ahmadinejad, também, está-se nas tintas. Como todos os outros governos do Médio Oriente usa a causa palestina para promover os seus próprios interesses.

Agora quer penetrar no mundo árabe sunita, a fim de transformar o Irão em potência regional dominante. Para este efeito, levanta a bandeira da resistência palestina. Mas, por enquanto, só conseguiu empurrar os regimes árabes sunitas para os braços de Israel.

Os mais entusiasmados fãs de Ahmadinejad sentam-se no Ministério da Defesa em Telavive. O que fariam sem ele?

Todos os anos, a luta pelo orçamento da defesa irrompe renovadamente. Este ano, com a crise económica, o debate será ainda mais acrimonioso. O pequeno Israel mantém uma das maiores e mais caras instituições militares no mundo. Em relação ao PNB (produto nacional bruto), facilmente supera os Estados Unidos, para não falar da Europa.

É necessário perguntar porquê?

Israel está cercado por inimigos que conspiram para destruir-nos!

Verdade, o Egipto é agora o mais fiel colaborador de Israel, o Iraque há muito que deixou de ser uma ameaça. A Jordânia é humilde, a Autoridade Palestiniana dança a nossa música. É difícil justificar um gigantesco orçamento para a defesa para lutar contra o pequeno Hezbollah e o minúsculo Hamas.

Mas existe o Irão, graças a Deus. E há ainda a temível bomba iraniana. Aqui temos realmente um perigo existencial. A nossa Força Aérea declara que está pronta para descolar em qualquer dia - não, em qualquer minuto - e erradicar todas as muitas instalações nucleares iranianas.

Para isso precisam de dinheiro, muito dinheiro. Precisam dos aviões mais avançados do mundo, cada um dos quais custa muitos, muitos milhões. Precisam de equipamento adequado para atingir os objectivos e cumprir a tarefa. Isso é mais importante do que a educação, a saúde ou bem-estar. Afinal de contas, a bomba iraniana irá matar todos - incluindo as crianças, os enfermos e os desfavorecidos. (Os grandes magnatas talvez consigam ter êxito em sair a tempo.).

O orçamento será aprovado, mas os aviadores não irão voar.

Não é claro quando um tal ataque é de todo viável. Também não é claro se adiaria significativamente a produção da bomba. Mas é claro que um tal ataque não é politicamente possível: não pode ser executado sem a confirmação expressa dos E.U., e não há a mínima hipótese de que isso seja para breve.

O ataque iria causar quase automaticamente o encerramento do Estreito de Ormuz, através do qual todo o petróleo do Golfo é enviado. Isso seria catastrófico, especialmente durante uma crise económica mundial, quando um enorme aumento do preço do petróleo pode prejudicar gravemente as já enfraquecidas economias. Não, os nossos valentes pilotos terão de se contentar em bombardear os bairros residenciais da Faixa de Gaza.

Poderia argumentar-se: Ahmadinejad comporta-se como um agente da Mossad, Avigdor Lieberman comporta-se como um agente dos serviços secretos iranianos.

Não digo isso, Deus me livre. Eu realmente não quero ser processado por difamação.

Mas o comportamento de Lieberman é, na verdade - como dizê-lo - um pouco bizarro. Na verdade, por um momento pareceu ser um vencedor.

Depois de ter enviado para o inferno Hosny Mubarak, a media israelita informou que o mais importante ministro egípcio se reunira com ele, apertado a sua mão e convidando-o para visitar o Egipto. Talvez quisesse mostrar-lhe a represa de Aswan, que em tempos Lieberman queria bombardear. Mas no dia seguinte um furioso Mubarak reagiu, negando a história de Lieberman e declarando que não será autorizado a pôr o pé em solo egípcio.

Entretanto, um importante jornal na Rússia publicou uma entrevista com Lieberman, na qual ele afirmava que "os E.U. irão aceitar todas as nossas decisões." Significando: nós mandamos na América, Obama irá fazer o que lhe dissermos.

Esta conversa não vai aumentar a popularidade de Israel na Casa Branca, para dizer o mínimo. Especialmente agora, após ter sido revelado que o lobby israelita, AIPAC [The American Israel Public Affairs Commettee], tinha pedido a uma congressista para intervir em favor de dois judeus americanos acusados de espionagem a favor de Israel. Em contrapartida, a AIPAC prometia obter a nomeação da congressista para presidente de uma comissão muito importante. Como? Simples: a AIPAC iria informar a líder da maioria do Congresso que se ela não obedecesse, um bilionário judeu iria deixar de contribuir para o seu fundo eleitoral. Não é uma revelação muito apetitosa.

Em breve, o iraniano Ahmadinejad e o israelita Lieberman serão irmãos siameses. Um necessita do outro. Lieberman cavalga na bomba iraniana, Ahmadinejad cavalga nas ameaças Israelitas.

"Dois homens andam juntos sem se pôr de acordo?" Perguntou o profeta Amos (3:3). A resposta é: Sim, na verdade. Estes dois podem muito bem andar de mãos dadas, sem chegar a acordo sobre nada.

25/04/2009

Uri Avnery

Tradução do Fórum Palestina

1 Referência ao panfleto anti-semita (este sim!) "Os Protocolos dos Sábios do Sião", uma espécie de manual de instruções, alegadamente escrito por judeus, contendo as 24 regras para a dominação judaica do mundo e que recorrentemente é trazido a lume em campanhas de ódio anti-semita.

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