A Manifestação deles e a de todos criar PDF versão para impressão
05-Mai-2009

António Chora"Eles" ao longo dos anos pensaram sempre que a manifestação era sua - mas é e deve ser de todos os trabalhadores. Foi assim como grande jornada de resistência antes do 25 de Abril e nas suas raízes históricas. Era de todos e para todos. Continuou assim depois: é de todos e para todos. O sectarismo no 1º de Maio e na luta dos trabalhadores só os enfraquece. E os trabalhadores não se podem dar ao luxo da fragilidade ou da divisão, têm que estar concentrados na resposta unida e forte contra as políticas que os atingem.

Por isso, quem não aprendeu coisa nenhuma com o passado pode considerar que a manifestação tem proprietários, mas não tem. Tem organizadores, responsáveis, sindicatos e movimentos que convergem e que mostram a força que tem que estar unida. Não há proprietários do mundo sindical.

A manifestação, que devia ser também festa, a festa dos trabalhadores, a festa que também é luta, mas luta de protesto contra as políticas selvaticamente capitalistas que a nível mundial que desprezam as pessoas e também contra as políticas liberais levadas a cabo pelos Governos da Direita e do Partido Socialista, que em conjunto ou separados governam Portugal há mais de 30 anos.

Infelizmente, em vez de festa, assistimos a um grupo de pessoas que da Democracia tem uma noção proprietária e por isso não entendem que em Democracia o protesto e a festa do 1º de Maio se faz com todos os trabalhadores e não só com "eles". O sectarismo não tem lugar nesta festa que é da gente que protesta e que sente a gravidade da crise económica, da recessão, do desemprego, da pobreza, que protesta contra o Código do Trabalho, a violência do governo contra os professores, a pobreza. A democracia fez-se graças a muitos que lutaram antes e depois do 25 de Abril para a consagrar como regime. O direito à indignação, é um direito de todos, eu pessoalmente discordo de muitas das políticas do Partido Socialista, contesto-as, em comícios, em Plenários de Trabalhadores, na luta social e por escrito onde me deixam. E assim continuarei. Mas porque os combato é que recuso o sectarismo e a violência ou a ameaça.

Sempre tenho assistido a delegações do PS, encabeçadas nomeadamente por Vítor Ramalho, a aparecerem nas manifestações do 1º de Maio e a cumprimentarem a direcção da CGTP e sempre assisti aos que de política só vêem o seu umbigo e lançam uns assobios, mas nunca esperei que 35 anos depois de Abril, haja ainda quem não saiba quais são os limites da crítica. É certo que há revolta das pessoas, a situação é grave, o desemprego é enorme e que em tudo isto o capitalismo e os que o apoiam são culpados. Isso não desculpa nenhum sectarismo.

Eu próprio já fui alvo deste sectarismo em manifestações, supostamente "deles", como aconteceu em Guimarães, na manifestação contra a cimeira europeia, só porque estava identificado com roupa do partido de que sou militante, quando alguns "deles", grande manifestação de Lisboa aquando do Tratado de Lisboa, até as suas bandeiras partidárias levavam. Felizmente, esta não é a atitude da maioria dos trabalhadores e cidadãos que participam nas manifestações da CGTP.

Pode-se certamente discutir porque é que Vital Moreira, candidato "independente", chefia uma delegação do PS, mas essa decisão é da sua inteira responsabilidade. Por isso, pessoalmente, logo na manifestação do 1º de Maio, comuniquei aos dirigentes da CGTP e a Vítor Ramalho o meu protesto contra o sectarismo e contra as agressões. A direcção do Bloco de Esquerda, pela voz de Miguel Portas presente na manifestação, também não esteve com meias palavras e condenou os incidentes com toda a clareza.

Não concordo com os que atribuem a responsabilidade e exigem pedidos de desculpas do que aconteceu ao PCP e à CGTP enquanto organizações político-sindicais, e pessoalmente, do PCP não espero nada, pois a manifestação não era deles, mas à CGTP, que foi prejudicada pela confusão criada pelos incidentes. Na luta sindical futura, a par de ideias e respostas para sair da crise e da contínua condenação das politicas que agravam a vida das populações, é preciso condenar o sectarismo para que não se repita nunca.

Em 2009, 35 anos depois do primeiro 1º. de Maio festejado em Liberdade, o que ficou para memória futura, para os historiadores que um dia sobre estas comemorações se debrucem, não são os milhares de trabalhadores que se manifestaram contra as medidas capitalistas nacionais e internacionais, contra o grande colapso do capitalismo, tampouco ficará na memória os discursos dos sindicalistas colaborando, ou melhor, exigindo outras políticas e mais justiça social.

Porque eles não esquecem nada, mas não aprendem coisa nenhuma, o que ficará em todos os documentos escritos, será a ameaça sectária e caceteira daqueles que apareceram em todos os jornais e telejornais ofuscando a manifestação. O movimento sindical precisa de dar a volta a esta situação que o ameaça e reforçar-se na unidade, no respeito, na combatividade.

Antonio Chora Delegado sindical do STIMMS e Coordenador da Comissão de Trabalhadores da VW Autoeuropa

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