As velhas roupas do Imperador criar PDF versão para impressão
08-Mai-2009

 

Uri AvneryToda a gente fala sobre os primeiros 100 dias de Barack Obama. E não há muito do que falar.

Tal como um jovem touro, ele irrompeu pela arena. Um dilúvio de novas ideias em todas as direcções, um tsunami de iniciativas concretas, algumas das quais já começaram a ser implementadas.

É evidente que tinha pensado sobre elas maduramente e que tencionava pô-las em prática a partir do primeiro momento da sua gestão.

Formara a sua equipa há muito tempo, e a sua gente começou a agir, mesmo antes da sua entrada triunfal na Casa Branca.

Durante os primeiros dias nomeou os seus ministros, a maioria dos quais já havia escolhido muito antes - este parece ser um Governo eficaz, cujos membros estão preparados para as suas tarefas.

Tudo de acordo com uma regra que foi estabelecida há muito tempo: a de que tudo aquilo que um novo presidente não inicie nos seus primeiros 100 dias, não irá conseguir concretizar mais tarde. No início tudo é mais fácil, porque a sociedade está pronta para a mudança.

Um israelita não pode resistir, naturalmente, a comparar Obama a Binyamin Netanyahu, o nosso novo-e-velho primeiro-ministro, que não irrompeu propriamente na arena. Antes rastejou.

* * *

Qualquer um poderia esperar que Netanyahu saisse a ganhar, até mesmo face a Obama.

Afinal, ele já lá tinha estado. Há dez anos estava sentado na cadeira do Primeiro-Ministro, ganhando experiência. E com a experiência - especialmente a má experiência - qualquer um pode e deve aprender.

Além disso, a vitória de Netanyahu não foi uma grande surpresa. A única parte imprevista nos resultados das eleições foi que a sua adversária Tzipi Livni obteve um pouco mais de votos do que ele, mas não o suficiente para impedi-lo de atingir - em conjunto com os seus parceiros - a maioria.

Teve, portanto, muito tempo para se preparar para a sua ascensão ao poder, consultar especialistas, ter planos perfeito em todos os campos, escolher a sua equipa, pensar sobre a nomeação dos ministros do seu próprio partido e dos partidos aliados.

Mas, inacreditavelmente, parece que nada, realmente nada, de tudo isto aconteceu. Nem planos, nem assistentes, nem equipe, nada de nada.

Até este momento, Netanyahu não conseguiu reunir a sua equipa pessoal - uma condição prévia fundamental para qualquer acção eficaz. Não tem um chefe de gabinete, a posição mais importante. No seu gabinete, o caos reina supremo.

A escolha dos ministros vomitou escândalo sobre escândalo. Não só juntou um gabinete hediondamente inchado (39 ministros e vice-ministros, a maioria deles ostentando títulos fictícios), mas quase todos os importantes ministérios estão atolados com pessoas totalmente inadequadas.

Numa altura de crise económica mundial, nomeou para as Finanças um ministro que não tem nenhuma ideia sobre economia, aparentemente achando que seria ele próprio a gerir o Ministério - absolutamente impossível para um homem que é responsável pelo Estado como um todo.

O Ministério da Saúde tem um rabino ortodoxo como adjunto. No meio de uma epidemia à escala mundial, não temos um ministro da Saúde, e de acordo com a lei, o primeiro-ministro terá de exercer essa função, também.

Em quase todos os outros ministérios - dos Transporte ao Turismo - existem responsáveis que não sabem nada sobre as suas áreas de responsabilidade e que nem sequer fingem estar nelas interessados - estão apenas à espera de uma oportunidade para avançar para coisas maiores e melhores.

Não há necessidade de desperdiçar muitas palavras sobre a nomeação de Avigdor Lieberman para o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Este difamador profissional provoca escândalos diários na área mais sensível do governo. O touro na loja da loiça chinesa já conseguiu transformar todos os diplomatas em pequenos bois, cada um dos quais corre de um lado para o outro, quebrando os pratos na sua vizinhança. No momento, estão ocupados em estragar as relações de Israel com a União Europeia.

Todas estas nomeações parecem o desesperado esforço de um político cínico que não se preocupa com outra coisa senão com regressar ao poder e, em seguida, rapidamente, forma um governo, independentemente da sua composição, pagando qualquer preço, a qualquer partido que esteja disposto a participar, mesmo sacrificando os interesses mais vitais do Estado.

* * *

Até no que diz respeito aos planos, nem nisso Netanyahu se assemelha a Obama. Chegou ao poder sem qualquer projecto em qualquer campo. Ficámos com a impressão de que passou os seus anos de oposição com a cabeça em hibernação.

Uma semana atrás apresentou um grandioso "plano económico", para salvar a nossa economia da devastação da crise económica mundial. Os economistas franziram as testas. O "plano" consiste em pouco mais do que uma colecção de velhos slogans e de um imposto sobre os cigarros. Os seus embaraçados colaboradores gaguejaram que era apenas um "quadro geral", que ainda não era um plano, e que agora iriam começar a trabalhar sobre um plano real.

Os israelitas realmente não se preocupam com a falta de um plano económico. Eles têm fé na improvisação, o maravilhoso talento israelita que mascara a incapacidade de planear o que quer que seja.

Mas, no campo político, a situação é ainda pior. Porque aí a impreparação de Netanyahu cruza-se com a super-preparação de Obama.

Obama tem um plano para a reestruturação do Médio Oriente, e um dos seus elementos é uma paz israelo-palestiniana baseada na consigna "Dois Estados para dois povos".

Netanyahu defende que não está em posição de responder, porque ainda não tem um plano próprio. Afinal, está há pouco tempo no governo. Agora está a trabalhar num tal plano. Muito em breve, numa semana ou num mês ou num ano, ele vai ter um plano, um verdadeiro plano, e irá apresentá-lo a Obama.

Claro que, Netanyahu tem um plano. Consiste numa palavra, que aprendeu com o seu mentor, Yitzhak Shamir: "NÃO".

Ou, mais precisamente, "NÃO, NÃO, NÃO" - os três nãos israelitas em Cartum: Não à paz, Não à retirada, não às negociações. (Recorde-se que a Cimeira Árabe de 1967, em Cartum, logo após a Guerra dos Seis-dias, aprovou uma resolução semelhante.)

O "plano", em que ele está a trabalhar realmente não diz respeito à essência daquela política, mas apenas à embalagem.

Como apresentar a Obama algo que não soe como um "não", mas sim como um "sim, mas". Algo que todos os servos do lóbi israelita no Congresso [americano] e nos meios de comunicação possam engolir sem dor.

* * *

Como amostra do "plano", Netanyahu já apresentou um dos seus ingredientes: a exigência de que os palestinos e outros árabes devem reconhecer Israel como "o Estado do povo judeu".

A maioria dos meios de comunicação em Israel e no exterior têm distorcido esta exigência e informaram que Netanyahu exige o reconhecimento de Israel como um "Estado judeu". Só por ignorância ou por preguiça, é que fazem desaparecer a importante diferença entre as duas fórmulas.

A diferença é enorme. Um "Estado judeu" é uma coisa, um "Estado do povo judeu" é algo radicalmente diferente.

Um "Estado judeu" pode significar um estado com uma maioria de cidadãos que se definem como judeus e ou um Estado cuja língua principal é o hebreu, cuja principal cultura é a hebraica, cujo dia de descanso semanal é o sábado, que só serve comida Kosher na cafetaria do Knesset, etc.

Um "Estado do povo judeu" é uma história completamente diferente.

Significa que o Estado não pertence apenas aos seus cidadãos, mas sim a algo que é chamado de "o povo judeu" - algo que existe dentro e fora do país.

Isto pode ter implicações de grande alcance. Por exemplo: a revogação da cidadania de não-judeus, como proposto por Lieberman. Ou a atribuição de cidadania israelita a todos os judeus do mundo, quer eles queiram ou não.

A primeira questão que se coloca é: o que significa "o povo judeu"?

O termo "povo" - "am" em hebraico, Volk em alemão - não tem definição precisa aceite. De uma maneira geral, entende-se um grupo de seres humanos que vivem num território específico e falam uma língua específica. O "Povo Judeu" não é assim.

Duzentos anos atrás, ficou claro que os judeus eram uma comunidade religiosa dispersa em todo o mundo e unidos por mitos e crenças religiosas (incluindo a crença numa ancestralidade comum).

Os sionistas decidiram alterar esta auto-percepção. "Somos um povo, um povo", escrevia em alemão, usando a palavra Volk, Theodor Herzl, o fundador do Sionismo.

A ideia do "Estado do povo judeu" é decididamente anti-sionista.

Herzl não sonhava com uma situação em que um Estado judeu e uma diáspora judaica coexistem.

De acordo com o seu plano, todos os judeus que desejassem manter-se judeus deveriam imigrar para o seu Estado.

Os judeus que preferissem viver fora do Estado deixariam de ser judeus e seriam absorvidos nas nações anfitriãs, finalmente tornar-se-iam realmente em alemães, ingleses e franceses.

Na concepção do "Visionário do Estado" (como ele é designado oficialmente em Israel) era suposto, quando posta em prática, conduzir ao desaparecimento da diáspora judaica - o povo judeu fora do "Judenstaat" [Estado judeu].

David Ben-Gurion partilhava desta visão.

Ele afirmou que um judeu que não imigrasse para Israel não era um sionista e não deveria usufruir de quaisquer direitos em Israel, excepto o direito de imigrar para lá.

Exigiu o desmantelamento da organização sionista, vendo nela apenas o "andaime" para a construção do estado. Uma vez que criado o Estado, ele pensou muito justamente, que os andaimes deveriam ser abandonados.

* * *

A exigência de Netanyahu para que os palestinianos reconheçam Israel como "o Estado do povo judeu" é ridícula, até mesmo como uma táctica para impedir a paz.

Um Estado reconhece um Estado, não a sua ideologia ou o seu regime político. Ninguém reconhece a Arábia Saudita, a pátria do Hajj, como "o estado da Umma muçulmana" (a comunidade dos crentes).

Além disso, a exigência coloca os judeus de todo o mundo numa posição impossível.

Se os palestinianos têm de reconhecer Israel como "o Estado do povo judeu", de seguida, todos os governos do mundo devem fazer o mesmo. Os Estados Unidos, por exemplo.

Isso significa que os cidadãos americanos judeus, Rahm Emmanuel e David Axelrod, os assessores mais próximos de Obama, são representados oficialmente pelo governo de Israel. O mesmo para os judeus na Rússia, no Reino Unido e na França.

Mesmo que Mahmoud Abbas fosse persuadido a aceitar esta exigência - e, assim, indirectamente pondo em dúvida, a cidadania de um milhão e meio de árabes em Israel - eu iria opor-me a isso tenazmente. Mais do que isso, eu consideraria tal como um acto hostil.

O carácter do Estado de Israel deve ser decidido pelos cidadãos de Israel (que possuem uma vasta gama de opiniões sobre este assunto). Pendente nos tribunais israelitas está um requerimento, proposto por dezenas de patriotas israelitas, incluindo eu próprio, que exigem que o Estado reconheça a "nação israelita".

Nós pedimos ao tribunal para instruir o governo a registar-nos nos serviços oficiais de Registo da População, sob o título de "nação", como israelitas. O governo recusa-se a tal, de forma inflexível, e insiste em que a nossa nação é Judia.

Peço a Mahmoud Abbas, a Obama e a todos aqueles que não são cidadãos israelitas a não interferirem neste debate nacional.

Netanyahu sabe, naturalmente, que ninguém levará a sério a sua exigência. É obviamente apenas mais um outro dispositivo para evitar negociações sérias de paz. Se for obrigado a abandoná-lo, não demorará muito que apareça com um outro.

Parafraseando Groucho Marx: "Este é o meu pretexto. Se não gostar dele, bem, eu tenho um monte de outros.

2/5/2009

Uri Avnery

 

Tradução do Fórum Palestina

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