Bairros e violências criar PDF versão para impressão
18-Mai-2009

Tiago GillotO Bairro da Bela Vista, em Setúbal, voltou a ser notícia. Praticamente sete anos depois. Sim, temos que nos lembrar: em 2002, com o vergonhoso assassinato do Tony por um agente da polícia, a Bela Vista também abriu noticiários - infelizmente, o destaque já não foi igual no momento da total absolvição de quem tirou a vida àquele jovem.

Desta vez, a morte do Toninho, outro jovem do bairro, na sequência duma operação policial no Algarve, trouxe mais dias agitados à Bela Vista. O país voltou a espreitar para dentro do "gueto", mas apenas para ver "polícias contra ladrões" - nada mais se autoriza nas apertadas regras do mainstream mediático: ali estão, têm que estar, os animais. E esse "boneco" não é para mexer, porque, no mercado das notícias e na hipocrisia do debate ao centro, a realidade tem que ser simples - simplificada, para ser mais claro - para ser vendida a milhões.

É assim que a Bela Vista, como os outros bairros para onde foram atiradas milhares de pessoas nas últimas décadas, são notícia. É assim que a maioria das pessoas os conhecem: um intervalo na agenda mediática, sempre com um destaque que sublinha o "perigo" e a necessidade de "repor a ordem" para nos proteger dos intratáveis.

É preciso dizer que, de certa maneira, a violência é de facto o quotidiano destes bairros. Todos os dias e não apenas naqueles em que as redacções enviam câmaras para filmar um território de excepção, cercado por polícias num verdadeiro dispositivo militar, e destacam jornalistas para saber a opinião do sr. Comissário e do sr. Ministro sobre o andamento das operações. Como se estivéssemos em guerra e fosse essa a forma normal de pensar e apresentar a realidade. Como se não morassem ali pessoas que, já agora, não escolheram viver "à parte", em casas quase sempre sem nenhuma qualidade, pelas quais pagam a sua renda (muitas vezes bem alta, ao contrário do que se diz e pensa), longe dos equipamentos sociais, muitas vezes tratadas como estranhos nas escolas onde estudam e na cidade onde (não) vivem, onde os jovens não podem esperam mais do que a precariedade agravada pela exclusão ou simplesmente o desemprego. Como se estivéssemos longe, a olhar para um local distante que, por acaso, é no mesmo país e até, às vezes, na mesma cidade onde vivemos. Como se não fosse para estas violências que deveríamos, antes de mais, olhar com olhos de ver.

Décadas de irresponsabilidade trouxeram-nos até aqui. Governos e autarquias preferiram resolver, da forma que lhes pareceu menos onerosa, o "problema". O "problema" - as pessoas excluídas dos ritmos e regras das cidades onde ousaram ter que viver e trabalhar, empurradas para uma solução que lhes foi imposta por saber-se que a teriam que a aceitar - não foi resolvido. E os resultados desses erros, infelizmente, começam a não ser possíveis de esconder.

Ouvimos muitas vozes implacáveis com as principais vítimas da insensibilidade social e do explosivo arranjo urbanístico que achou normal edificar "guetos" nas grandes cidades. Continuaremos a ouvi-las: a insultarem as pessoas destes bairros, numa acusação colectiva de "criminosos", ignorando as causas e os responsáveis por esta situação, ao mesmo tempo que acusam de demagógicos cúmplices quem se atreve a querer pensar mais do que dois segundos nas imagens que nos aparecem na televisão. Este consenso forçado já nos trouxe a encenação do "Arrastão" e outras que tais, mas, infelizmente, a demagogia, o populismo e a chantagem não se deixam abalar pela evidência da sua fraude - essa é, pelo contrário, a sua força. Para acabar com as violências - todas as violências - nestes bairros é certamente preciso enfraquecer este consenso e estabelecer pontes, ouvindo as vozes de quem lá vive, em vez de apenas responder com a polícia - como Paris demonstrou a quem já tarde o quis ver, nenhum exército solucionará o que só a justiça social pode resolver. Porque, sobretudo, é inaceitável que se repitam histórias como a do Tony, do Kuko ou do Toninho.

Tiago Gillot

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