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18-Mai-2009

Margarida SantosSe há coisa que vou levar na bagagem de volta desta experiência em França, é sem dúvida alguma, a lembrança duma combatividade inigualável que caracteriza esta sociedade.

Mas porque é que por cá, tudo ganha uma dimensão diferente da dos outros países? Uma duração, uma permanência diferentes daquilo que se vê noutras paragens, particularmente na Europa?

Obviamente que há todas as razões históricas que conhecemos, desde a Revolução Francesa até a um Maio de 68, que apesar de tudo, está ainda bastante presente nos espíritos franceses. Há também razões políticas, se pensarmos no peso que a França tem a Europa e no Mundo, a sociedade francesa sabe bem tirar proveito dessa posição, e da visibilidade que lhe assiste. Enfim, motivações desta ordem não faltam. Mas há, em cada luta, em cada manifestação, em cada contestação, uma ideia chave que liga todos os combates de todos os sectores, por todo o país.

A criatividade, a capacidade de invenção e reinvenção, a imaginação que esta gente põe em tudo o que faz, é necessariamente, um dos principais contributos que podemos e devemos retirar das experiências de luta em França. Dar-vos-ei dois exemplos, um trata-se da acção mais mediatizada desde o inicio da greve das universidades francesas, em princípios de Fevereiro, e outro mais local menos mediático, mas igualmente criativo, de estudantes da Universidade de Marne-La-Vallée.

A Ronda Infinita dos Obstinados nasce dum apelo da comissão de greve da Universidade Paris 8, apelo esse que começou a ganhar um impacto extraordinário, e de repente aquilo que era apenas uns quantos estudantes e professores a andar à roda, em frente do edifício da câmara municipal de Paris, transforma-se no símbolo desta greve, dura 1000 horas sem parar, e tem direito a aparecer semanalmente na televisão, seja em dias de visitas como a de José Bové, seja porque se resolve declamar um manifesto contra a Lei do Ensino Superior e pelo Ensino Público e Gratuito. Ganha assim um impacto que ultrapassa as fronteiras regionais em França. Foi, definitivamente, a acção mais bem conseguida, que juntou mais gente diferente, e que mais contribuiu para conquistar o apoio geral das populações. Qual foi o segredo? Persistência e criatividade. Características também presentes num música composta por estudantes da Universidade de Marne-la-Vallée, na qual a critica às novas leis sobre o ensino superior em França, Processo de Bolonha e companhia, é feita com humor e simultaneamente com uma assertividade impressionantes.

A greve ainda decorre, ainda que com alguma desaceleração, em várias universidades em Paris. Afinal, as distribuições de panfletos às 7h00 da manhã, as assembleias-gerais com infinitas moções para votar, o esforço em empilhar cadeiras, etc, tudo isto valeu e está a valer a pena. Acções que não dependem só das associações de estudantes ou dos sindicatos de estudantes, mas que resultam em grande parte de comissões unitárias que se formam, espontaneamente, sempre que lhes começa a cheirar a reformas não consensuais, a cortes orçamentais, a abusos de poder. Vale a pena as candidaturas às associações de estudantes, aos núcleos, às várias estruturas representantes das escolas. Mas são sempre meios, e não fins, há que ir mais longe, há que não ter medo de elevar o debate político nas universidades em Portugal, não falo por exemplo de assumir cores politicas e partidárias em cada intervenção, como se faz por aqui, mas radicalizar o discurso, apelar a lutas que saiam das pequenas paredes da universidade, parece-me urgente e necessário.

Vale a pena espreitar este link.

Margarida Santos

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