O senhor Pacheco vai à pesca criar PDF versão para impressão
26-Mai-2009

Clara QueirozSecretamente, o cidadão Pacheco Pereira (historiador) construiu para uso próprio uma personagem que poderíamos designar por ‘O Senhor Pacheco'. À semelhança de outras personagens de série - por exemplo, Poirot que soluciona enigmas policiais nos mais variados quadrantes do globo; Tintin, que pugna pelo que o seu criador definiria como ‘o bem'; 007, que, embora por meios ínvios, acaba por dignificar os desígnios do agente secreto; ou Ruca, que, quer com varicela, quer num piquenique no campo, ensina as crianças a ir para a cama cedo e a adoptar comportamentos socialmente correctos -, o Senhor Pacheco é infalível e versa todos os temas: quando o Senhor Pacheco fala (na televisão, nos jornais, nos blogs) ficamos esclarecidos e detentores da última palavra sobre justiça, claques de futebol, partidos, intenções secretas dos vários actores políticos, aquém e além mar. Nestes tempos conturbados, onde imperam os boatos, as fugas parciais de informação, a manipulação de dados, todos seremos forçados a concordar que tal personagem se reveste de extrema utilidade. Da sua importância já, há tempos, o suplemento Inimigo Público tinha suspeitado ao inserir nas suas folhas uma divertida coluna, intitulada "Perguntem ao Pacheco".

As vantagens da ‘personagem' sobre o ‘cidadão' são óbvias. Um qualquer cidadão - como o cidadão Pacheco Pereira (historiador) - insere-se numa sociedade com características específicas, tem interesses pessoais, de classe e de grupo, tem ódios e tendências, em suma, tem uma história de vida própria. Já a personagem - O senhor Pacheco - surge-nos despida de preconceitos, aparece-nos fresca e nova em cada folhetim da série. Pugna pela verdade pura e dura, arrancada com determinação de qualquer lamaçal onde ela se esconda.

Se não, vejamos. Um exemplo, escolhido tão aleatoriamente como qualquer um dos temas sobre os quais o Senhor Pacheco se debruça, poderia ser a análise do artigo intitulado "Se Portugal fosse um país a sério..." (Público, 16 de Maio, 2009).

Embora o cidadão Pacheco Pereira (historiador) tenha aproveitado a personagem Senhor Pacheco para passar a letra de forma uma imagem literária tão extraordinária e original como "... e acima de tudo da moral, a épica noção que faz Louçã revirar os olhos das palavras." [sic], se o artigo fosse realmente da autoria do cidadão (historiador), o leitor ficaria intrigado com o seu súbito interesse por Francisco Louçã e pelo minúsculo (ele que tem vistas largas e olha o país e o mundo em dimensões ‘macro') Bloco de Esquerda. Há poucos anos atrás, o cidadão Pacheco Pereira (historiador) não teria gasto o seu tempo a discorrer sobre pequenos partidos que defendem uma "velha ideia antidemocrática, iliberal, ‘orgânica', populista, cujos estragos em mortes, sofrimento, atraso, violência, nos últimos cem anos, deixam a actual crise como uma brincadeira de bebé." E, ainda há mais alguns anos atrás, o militante estalinista Pacheco Pereira não se teria deixado impressionar com mortes, violência, fuzilamentos em massa.

É aí que a personagem aparece em toda a sua glória e eficácia: o Senhor Pacheco é uma personagem fictícia; existe hoje, aqui e agora: não temos que nos preocupar com o seu passado, com as suas ideias políticas, com as suas motivações ou com os seus interesses pessoais. Levamos à letra, sem reservas, o que nos diz: o BE é um partido social-fascista e Louçã o energúmeno de banda desenhada que, encoberto por uma montanha de pólvora, espalha o mal pela humanidade.

Já o mesmo não aconteceria se o leitor tivesse lido o artigo com a convicção de que ele saíra do punho do cidadão Pacheco Pereira (historiador). Seria, então, levado a discorrer que o crescimento do Bloco de Esquerda, quer nas sondagens quer no seu número de adeptos, se apresenta aos interesses do cidadão Pacheco Pereira (historiador) como uma ameaça. Poderia ser levado a pensar que o cidadão (historiador), ao tentar denegrir o Bloco de Esquerda, acusando aquele partido de ideais que não professa nem o público reconhece, não pretendia mais do que aliciar para o PSD (que apoia) parte da onda de descontentes com o governo que se vai afastando do PS. Podia mesmo pensar que o ódio do cidadão Pacheco Pereira a Francisco Louçã cresce na medida em que este último e o BE ganham popularidade.

Ora tudo isto seria devastante porque o leitor já não veria no referido artigo mais do que mera propaganda política, profunda raiva e ódios sectários a quem, pelos princípios que defende e pelas suas qualidades pessoais, nos tira o tapete debaixo dos pés. Poderia até pensar que todo o artigo se resume a pescar votos para o PSD com um isco viciado.

Clara Queiroz (leitora)

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