Quando a Europa dos Cidadãos foi parar à gaveta criar PDF versão para impressão
28-Mai-2009

João Ricardo VasconcelosO excelente vídeo do tempo de antena do Bloco sublinha, e bem, um assunto que merece ser fortemente discutido nesta campanha: a aprovação do Tratado de Lisboa e os mecanismos de ratificação entretanto escolhidos pelos Governos da vasta maioria dos Estados-membros. Contrariando descaradamente o que prometeram nas legislativas de 2005, PS e PSD impediram o referendo e escolheram a ratificação parlamentar.

Ou seja, com um grosseiro passo de mágica que substituiu a palavra "Constituição" pela palavra "Tratado", começou a considerar-se que seria complicado demais para o cidadãos votarem as matérias em causa. Passaram a ser muitos artigos, passou a ser um articulado muito complicado, passaram a ser assuntos que os cidadãos dificilmente poderiam atingir, ficando portanto reféns dos "terríveis e malvados populismos" que então surgiriam contra o projecto europeu.

No fundo, uma espécie de paternalismo melado encarregou-se de livrar os cidadãos dessa chatice terrível que seria pensar e votar um projecto com contornos constituintes. Um projecto que traria alterações importantes àquele edifício comunitário que influi tanto nas suas vidas mas que, vá-se lá saber porquê, teima em não se aproximar dos cidadãos.

E assim, de um momento para o outro, e num gesto de estranha porreirice, a Europa dos Cidadãos foi enfiada na gaveta. Sem grandes disfarces, sem grandes cerimónias. Tudo em nome de uma suposta responsabilidade superior e de estranhos compromissos assumidos entre os líderes dos diversos Estados-membros.

Este episódio não deve ser esquecido nestas eleições. Antes pelo contrário. Os comportamentos então assumidos por diversas forças políticas no sentido de afastar os cidadãos dos processos de decisão não podem ser menorizados. Foi um episódio muito triste para a democracia. Diria mais: foi vergonhoso. A Europa necessita dos cidadãos e os cidadãos necessitam da verdade. De outro modo, a sustentabilidade política de qualquer grande projecto democrático europeu desvanecer-se-á.

João Ricardo Vasconcelos, autor do blogue Activismo de sofá

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