Quem tem medo de Judith Butler? criar PDF versão para impressão
29-Mai-2009

Margarida SantosAssisti, na Grande Sala do Centro Georges Pompidou, a uma fantástica conferência de Judith Butler. Para quem não conheça, trata-se duma filósofa americana, feminista, cujo estudo sobre o Género e a Teoria Queer tem marcado, desde o inicio dos anos 90, todo o pensamento produzido nessa área.

A Conferência pautou-se por uma leveza característica dos americanos, sem querer cair em grandes estereótipos. Ao som de "Natural Woman" de Aretha Franklin, Judiht Butler e Avital Ronell, também filósofa americana a quem coube a tarefa de conduzir a entrevista, entram de forma teatral no palco, deixando entusiasmado um público, habituado a coisas mais formais.

A escolha da música não é inocente. Butler pega no título de "Natural Woman", e inicia um discurso de desconstrução e questionamento, de todas as idealizações que fazemos acerca da mulher, do homem, do pai, e da mãe. E tal como a letra da canção, também ela defende que são os outros que nos fazem sentir "natural woman", e não nós que nascemos "natural woman".

Sob o tema "Problemas na Parentalidade", Juith Butler discorre sobre a questão da filiação, sobre o casamento, entre homossexuais e heterossexuais, sobre a adopção por estes, e sobre até que ponto existe um real desejo de se ser pai, de se ser mãe, e de nos casarmos.

Durante a conferência, pudemos assistir a trechos de "Tudo Sobre a Minha Mãe", de Pedro Almodóvar. Precisamente uma cena em que a personagem Lola, que está em vias de se tornar mulher, mantendo os seus órgãos masculinos, pega ao colo um dos seus filhos. De imediato, e face ao que tínhamos acabado de ouvir, vem à mente de todos nós, a questão sobre se Lola é o pai ou se Lola é a mãe, até porque a mãe biológica morreu no momento do parto. Mas também, até que ponto é realmente importante saber se Lola é o pai ou a mãe? Para quem é que esta questão é realmente importante?

Judith Butler fala também da questão legal, e de como, naturalmente, defende a necessidade de obter determinados direitos legais. Mas sublinha o facto de que, a luta por direitos legais, não deve ser considerada um fim em si mesmo, mas apenas como um elemento que faz parte dum caminho para conquistas mais progressivas.

Porquê o casamento? Porquê a luta por obter o direito a fazer parte duma instituição tão conservadora? Porquê ser-se pelo casamento entre homossexuais, que pressupõe a continuidade duma estrutura tão retrógrada, e não se ser apenas contra a interdição de se casarem? Parece o mesmo, mas não é. Há uma diferença radical entre um discurso que defende o direito ao casamento entre homossexuais, e um discurso que é contra a interdição, não só de se casarem, como de adoptarem. Todas estas questões foram colocadas ontem por Judith Butler, e constituem o cerne da Teoria Queer.

Margarida Santos

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