A permanente ameaça do trabalho temporário criar PDF versão para impressão
01-Jun-2009

Tiago GillotA Confederação Internacional das Agências Privadas de Emprego (CIETT), ou seja, a associação dos patrões das empresas de trabalho temporário (ETT) de vários países, reuniu-se em Lisboa na semana passada. A "Conferência Anual" da CIETT foi uma iniciativa relativamente discreta. Mas o conteúdo dos debates e as participações que conseguiu reunir revelam bem a força deste sector da exploração laboral e as ambições destes "empresários". E, já agora, mostra como Portugal se está a tornar num suave paraíso para este negócio.

O programa da "Conferência" - distribuído por três dias de reuniões e assembleias, mas também com os habituais espaços de convívio, tão propícios aos bons negócios - anunciava o estafado chavão das "oportunidades e ameaças" para a "indústria" do trabalho temporário, em tempos de crise. Mas um olhar mais atento sobre o programa revela-nos outras coisas, que infelizmente já não nos podem surpreender.

Nesta reunião convocou-se o Estado: não só porque o Governo esteve presente, mas também porque se deixa claro que este negócio é para furar o "sector público". "Como alargar o negócio, fornecendo trabalhadores ao sector público" ou "Como avançar nas parcerias público/privado" foram temas de debate. É assim, com toda a clareza, que as ETT exigem mais uma fatia do mercado. E sabem que a vão ter, até porque já a têm.

Vieira da Silva esteve presente para falar sobre "como podem os Governos relacionar-se com as ETT para ultrapassar as dificuldades" da crise. Um tema que não podia ser mais adequado à figura: este Governo está a passar para as mãos das ETT a contratação de pessoas para funções vitais - e permanentes, já agora - do Estado, como o prova o exemplo gritante da subcontratação de trabalhadores, com vínculos precários, para o novo call center da Segurança Social, em Castelo Branco. Não admira, pois, que Vieira da Silva tenha declarado, à saída do encontro, que as ETT "podem ser um instrumento ao serviço do emprego".

Vieira da Silva, mas também Sócrates ou o inevitável "Provedor" Vitalino Canas. Todos convocados pelas ETT e anunciados no programa da "Conferência". Todos disponíveis para facilitar as tais "oportunidades" que a crise pode trazer ao obsceno negócio do "trabalho temporário". Todos de acordo, oferecendo o "mercado"-Estado para o negócio da exploração.

Em Portugal, as ETT engordam à custa de dezenas de milhares pessoas, empurradas para uma situação permanentemente temporária, chantageadas e sem direitos nem perspectivas. Muitas pessoas, que se juntam aos assustadores números da precariedade, que hoje afecta já cerca de dois milhões de trabalhadores e trabalhadoras neste país: uma ameaça permanente, de mãos dadas com o desemprego, para impor condições de trabalho cada vez piores a toda a gente.

Tiago Gillot

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