"Mãe de todas as derrotas" criar PDF versão para impressão
03-Dez-2006
immanuel_wallerstein.jpgGeorge W. Bush é um jogador de apostas altas. Quando os jogadores de altas apostas perdem, perdem muito. George W. Bush perdeu muito - no Iraque e nos Estados Unidos. 
Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003, parecia que, apesar do esmagador poder militar, os Estados Unidos podiam até perder a guerra. Não demorou muito para se ver que os Estados Unidos estavam realmente a perder a guerra. Hoje, é óbvio que os Estados Unidos perderam irremediavelmente a guerra. O objectivo dos Estados Unidos era pôr no poder um governo estável e amigável, e que permitisse a instalação de bases militares americanas. Hoje, é claro que se for estável, não será amigável. E se for amigável não será estável.
  Em 7 de Novembro, o Partido Republicano perdeu as eleições intercalares. Como o próprio Bush disse, em todas as disputas mais apertadas, a margem foi pequena, mas globalmente foram uma "pancada". O nível da pancada foi sublinhado pelo facto de que, depois das eleições, as sondagens de Bush caíram ainda mais.

  A causa número um foi que a maioria dos americanos sentiu que a guerra estava a correr mal e queria trazer os soldados para casa. Mesmo em distritos onde o candidato democrata não levantou esta questão, ela teve o seu papel no fundo. Evidentemente que houve muitos outros motivos. Muitos eleitores centristas votaram contra a direita cristã, e o facto de haver alguns candidatos democratas que assumiram posições mais centristas nas questões "sociais" ajudou.

  A questão é o que vai acontecer agora. Bush não é, e nunca foi, um ideólogo. Ele é um político pragmático de direita, que faz o que pensa ser necessário para ganhar eleições. Nisto, tem sido bastante bom e ele tem consciência dos erros que cometeu nos anos recentes - não em geopolítica (onde ele basicamente não entende nada e pouco se importa), mas na política americana, onde ele apanhou uma "pancada". Está a fazer ajustes. Despediu Rumsfeld, vai reduzir a importância de Cheney, e (sem dúvida seguindo o conselho de Karl Rove) pediu ajuda à velha ala "realista" do Partido Republicano - o seu pai, James Baker, e o próximo secretário da Defesa, Robert Gates. Espera cooptar a liderança democrata para o seu ressuscitado verniz bipartidário.

  Vai conseguir fazê-lo? Especificamente, o que pode fazer em relação ao Iraque? E o que pode fazer em relação ao crescimento dos democratas? A resposta curta é que é difícil ver qualquer forma de se desenvencilhar elegantemente, a ele e aos Estados Unidos, do fiasco iraquiano. A comissão Baker-Hamilton vai-nos dizer em breve que "novas direcções" propõe, mas duvido que possam vir com alguma ideia que funcione.

  Alguns falam na divisão do Iraque em três partes. É uma ideia impossível de concretizar. Nem a Turquia nem o Irão pode tolerar um Curdistão independente, e os curdos estarão muito melhor na sua actual autonomia de facto do que numa guerra com vizinhos. A maioria dos xiitas não quer um estado separado. Por um motivo: por que a separação se eles podem mais ou menos dominar um Iraque unido? E, em qualquer caso, o que iria acontecer a Bagdad? Além de que, obviamente, os sunitas opõem-se mortalmente à separação. Assim como, obviamente, todos os vizinhos do Iraque, sem excepção. Tal como vimos na Jugoslávia, estados separados não acabam com os conflitos étnicos; a verdade é que os aumentam.

  Basicamente, há apenas duas formas de os Estados Unidos retirarem do Iraque com perdas mínimas de vidas e de danos políticos. Podem pedir ao Irão que seja o seu intermediário para amortecer o conflito interno no Iraque, o que pode funcionar. Ou, em alternativa, a facção al-Sadr dos xiitas e a resistência sunita podem juntar forças numa plataforma anti-americana e pedir educadamente aos Estados Unidos que saiam imediatamente (quer dizer, correr com os Estados Unidos), o que também pode resultar.

  Nenhuma destas alternativas é minimamente palatável por Bush ou pelo Congresso dos EUA. Mas estas duas alternativas representam provavelmente o melhor negócio que os Estados Unidos podem fazer nesta altura. Qualquer outro caminho quase certamente levará a um fim em que os helicópteros terão que retirar as pessoas da Zona Verde para o Kuwait.

  A única coisa que é certa é que não haverá tropas americanas no Iraque quando estivermos próximos das eleições de 2008. Os eleitores e os militares deixaram isso claro nas eleições de 2006. Claro que vai haver um grande jogo de atirar culpas para as costas do outro - entre os republicanos sobre quem perdeu as eleições de 2006, e entre os democratas e os republicanos sobre quem perdeu o Iraque. Mas a palavra que está na mente de todos é "derrota".

  Podemos também ter a certeza de que bombardear a Coreia do Norte ou o Irão está fora da agenda real (incluindo a de Israel). As Forças Armadas dos EUA e o eleitorado americano não vão tolerar uma acção como essa (já para não falar do resto do mundo). Onde é que isto vai levar os Estados Unidos enquanto potência mundial? Provavelmente, num grande impulso no sentido de virar-se para dentro. Já nas eleições de 2006, muitos candidatos venceram por se terem oposto ao "livre comércio", e o Iraque era um palavrão. A tentação política será dar a ênfase ao local. Um dos principais efeitos laterais será uma importante redução no apoio dos EUA à política externa israelita, o que será doloroso para Israel.

  Os democratas estão unidos na legislação económica interna - aumento do salário mínimo, melhores e mais baratos serviços de saúde, ajuda financeira aos estudantes secundários. Também vão impulsionar as questões ecológicas e os avanços na medicina (investigação das células estaminais, por exemplo). Se os republicanos esperam recuperar forças, terão que mover o seu programa económico, assim como o programa sobre as questões sociais de alguma forma na direcção centrista.

  O resultado, como já é óbvio, é criar mais confusão no Partido Republicano, e reduzi-la no Partido Democrata - o exacto oposto do que aconteceu na última década. E, no início de 2009, George W. Bush sairá do poder, lembrado (se nos dermos ao trabalho) por ser a vanguarda da mãe de todas as derrotas - no Iraque, no sistema-mundo, e em casa no Partido Republicano. 

  Immanuel Wallerstein

 
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