Irão: Os símbolos não são suficientes para ganhar esta batalha criar PDF versão para impressão
24-Jun-2009
Polícia motorizada persegue manifestantes no Irão. Foto Iran 360º, FlickRNão obstante os seus objectivos difíceis, o que rebentou no Irão é de facto uma "intifada". Mas não se derrubam revoluções islâmicas com as luzes do carro. E muito menos com velas. Os protestos pacíficos até podem ter servido a Gandhi, mas o Líder Supremo do Irão não vai preocupar-se com alguns milhares de manifestantes nas ruas mesmo que cantem "Allahu Akbar" nos seus telhados todas as noites.
Por Robert Fisk, The Independent, 23/6/2009

Este coro em direcção a Deus emanado dos telhados de Kandahar, todas as noites depois da invasão soviética do Afeganistão em 1979 - eu próprio ouvi-o em Kandahar e ouvi-o na semana passada nos telhados de Teerão - não impediu os ataques dos russos nem vai impedir os Basiji ou a Guarda Revolucionária. Os símbolos não são suficientes.

Na segunda-feira, a Guarda Revolucionária - um corpo que não é eleito nem representa a actual juventude iraniana - fez as suas ameaças para lidar com o "rebeldes" de "forma revolucionária".

Todos no Irão, até aqueles que são muito jovens para se recordarem do massacre dos oponentes ao regimes em 1988 - quando dezenas de milhar foram enforcados - sabem o que isso significa.

Largar um enxame de forças governamentais armadas nas ruas e afirmar que todos aqueles que são alvejados são "terroristas" é quase uma cópia perfeita da reacção pública do exército israelita à intifada palestiniana. Se os que atiram pedras são mortos a tiro, então a culpa é deles pois estão a infringir a lei e estão a trabalhar para as potências estrangeiras.

Quando isto acontece nos territórios ocupados pelos israelitas, estes alegam que as potências estrangeiras do Irão e da Síria estão por detrás da violência. Quando isto acontece nas cidades iranianas, o regime iraniano alega que são as potências estrangeiras dos Estados Unidos, Israel e Grã-Bretanha que estão por detrás da violência.

E foi de facto uma intifada que rebentou no Irão, não importa quais os objectivos impossíveis. Milhões de iranianos não aceitam a lei porque acreditam que as leis foram corrompidas pela eleição fraudulenta. A perigosa decisão do Líder Supremo, Ali Khamenei, ao usar todo o peso do seu prestígio para apoiar Mahmoud Ahmadinejad apagou qualquer hipótese de emergir acima da disputa como um árbitro neutral.

Parentes do poderoso aliado de Mir Hussein Moussavi, Ali Akbar Rafsanjani, são presos e depois libertos; Moussavi é ameaçado com a prisão pelo presidente do Parlamento. Contudo, um dos mais populares clérigos e aliado de Moussavi, Mohammad Khatami, continua intocável.

Moussavi pode ter sido primeiro-ministro, mas Khatami foi presidente. Para atingir Khatami, teria de retirar a futura protecção de Ahmadinejad. E o amigo político poderoso deste último, o ayatollah Yazdi, que gostaria de ser o próximo Líder Supremo, é uma ameaça para Khamenei. E enquanto todos os cadáveres nas ruas das cidades do Irão forem declarados como "terroristas" pelos amigos de Ahmadinejad, os seus inimigos irão declará-los como mártires.

Moussavi, para ganhar, necessita de organizar o seu protesto de forma mais coerente em vez de o fazer em "cima do joelho."Mas terá Khamenei uma plano a longo prazo que vá para além da mera sobrevivência?

Tradução de Sofia Gomes

{easycomments}

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
tit_todosdosiers.png
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.