Resultados e escolhas criar PDF versão para impressão
08-Jun-2009

José Manuel PurezaNa véspera das eleições soube-se que a Polícia Judiciária tinha arrestado 12 milhões de euros de contas de administradores do BPP nas Ilhas Caimão. Na noite do pesadelo eleitoral do PS, José Sócrates declarou que o PS não mudará de rumo porque isso "não está no seu género". Estes dois factos condensam tudo o que há para dizer sobre os resultados eleitorais.

A desvergonha da elite que manda no país tem hoje diante de si gente mais forte e insubmissa que a denuncia. Essa elite não estava habituada a que alguém lhe fizesse frente, não concebia que houvesse quem não se deixasse encantar pelas prebendas pessoais e pelo discurso sedutor dos seus fazedores de opinião e de doutrina. Enganou-se. Diante de patamares de violência e sofrimento social inéditos - que os números do desemprego, a intensidade da falta de horizontes d@s precári@s e o volume de endividamento das famílias evidenciam - a mediocridade moral e cívica dessa elite ficou, como nunca, escancarada. Como nunca até hoje, ficou claro para tod@s que só há gente, cada vez mais gente, a ser condenada a sofrer porque há outra gente, muito pouca, que não quer abdicar de ganhar espezinhando. Há quem lhe chame irritação, zanga, protesto. Eu chamo-lhe consciência. A votação de ontem à esquerda foi expressão dessa consciência.

O que a elite medíocre faz ou não faz e o que @s mais pobres e vulneráveis são ou não condenadas a sofrer é a escolha política essencial. José Sócrates fez a sua, há muito tempo. O governo da maioria absoluta tem sido a ferramenta maior dessa escolha. O estilo - feito de arrogância e desdém, com um auto-convencimento sem limites - é apenas o invólucro do conteúdo. E é esse que conta. Ele vê-se na promiscuidade entre a política e os negócios da elite, ele vê-se na política de apoucamento d@s professor@s, ele vê-se na prevalência dos dogmas orçamentais sobre a garantia de direitos básicos (na saúde, por exemplo), ele vê-se no bloqueio à quebra do sigilo bancário ou na remissão para as calendas da igualdade de tod@s face ao casamento civil. Mas vê-se sobretudo na cumplicidade com o desmoronar de vidas subitamente marcadas por um desemprego tão inexplicável quanto irreversível.

Que José Sócrates tenha avisado ontem mesmo que não mudará de rumo é clarificador. A escolha dele está feita. A escolha da esquerda da decência e do combate por ela também. Os resultados de ontem mostram-no. Mas isso já é passado.

José Manuel Pureza

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