A pobreza na noite eleitoral criar PDF versão para impressão
11-Jun-2009

Carlos CarujoSaíram da noite eleitoral europeia três anúncios. O anúncio do governo de que nada iria mudar no rumo que acabava de ser censurado nas urnas. O anúncio da direita de que iria utilizar a censura das urnas para apresentar uma censura no parlamento. E o anúncio do Bloco de que, no dia seguinte ao seu melhor resultado eleitoral, iria lançar nas ruas do país um cartaz sobre o desemprego.

Os dois primeiros anúncios parecem pertencer à política maior e encheram as medidas mediáticas: um governo desorientado entre a máscara da firmeza que quis ostentar e a imagem da arrogância que espreitava sempre por detrás dessa máscara escolhe o que lhe parece ser o mal menor; a oposição à direita corre para marcar a agenda política e capitalizar o descontentamento e encontra-se novamente unida nesse voto excitado pela expectativa de voltar ao poder.

Face a isto o anúncio do Bloco de Esquerda parecia à partida mais modesto e sem quaisquer implicações políticas. O partido que mais cresceu eleitoralmente não trazia um trunfo na manga, colocar um cartaz nas ruas é um anúncio de política menor, e não seria ainda desta que os jornais usariam os títulos guardados há anos para quando o Bloco se render definitivamente ao inexorável apelo das sereias dos poderes.

Quanto ao conteúdo, algumas vozes comentarão o óbvio, um cartaz não resolve qualquer problema, outros acrescentarão que é também uma proclamação que tenta capitalizar votos através de um discurso fácil sobre o desemprego. Mas o que é certo é que a escolha do desemprego como prioridade marca a diferença relativamente a outros discursos políticos em noite eleitoral. E a escolha, dentro do grupo dos/as desempregados/as, dos/as que não têm direito ao subsídio de desemprego é ainda mais importante. Porque são os mais vulneráveis e ameaçados pela exclusão social. Porque são cada vez mais. E também porque aquilo que poderia parecer um discurso fácil e apelativo é afinal um discurso que pode trazer perdas eleitorais. O anátema lançado pela direita contra "os subsídios à preguiça", a ideia de que a caridade deve substituir o direito de todos/as à justiça, a manobra de sempre de lançar os remediados contra os mais pobres para que estes não culpem os verdadeiros poderes pela sua situação continua a resultar. Desfazê-lo é uma questão de política maior que custa o confronto com um certo senso comum.

Tantos outros anúncios seriam politicamente mais rentáveis mas, contudo, este era um dos que era indispensável fazer sem fazer cálculos eleitorais. Não sei se agradou a toda gente que votou no Bloco neste dia. Mas penso que era urgente que a pobreza, o desemprego e a exclusão social entrassem pela noite eleitoral não como demagogia fácil ou como discurso caridoso mas como um dos combates de sempre da esquerda.

Carlos Carujo

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