Algo vai podre no reino da União Europeia criar PDF versão para impressão
14-Jun-2009

Margarida SantosApós uma semana das eleições europeias, ainda se sente nas hostes socialistas, o golpe que lhes foi infligido. Efectivamente, por toda a Europa, os partidos da social-democracia, quer estivessem no governo, como no caso português, quer estivessem na oposição, como em França, foram os grandes derrotados destas eleições.

Com a derrota nas eleições europeias, o Partido Socialista Francês fica muito aquém daquilo que esperava, chegando apenas a 16,48% dos votos em França, e 13,57% na região parisiense. No momento em que parecia, finalmente, reunir à sua volta o grande eleitorado socialista francês, ainda saudoso da bem mais consensual Ségolène Royal, a secretária-geral do PSF Martine Aubry, sofre esta grande derrota, que embora não tenha sido isolada, tem um sabor talvez mais amargo, se pensarmos que o UMP de Sarkozy sai reforçado, apesar da imensa contestação social ao seu governo.

Um pouco por toda a Europa, há uma subida dos partidos verdes. Mas nenhuma se assemelha à subida da coligação de Daniel Cohn-Bendit, o eterno rebelde, e de José Bové, o grande defensor do mundo rural, sobretudo na região de Paris, chegando aos 20,86%. De facto, esta foi, com toda a certeza, a maior surpresa em França. A Daniel Cohn-Bendit reconhece-se uma verdadeira campanha europeia, marcada, nomeadamente, por um ataque feroz e permanente ao actual presidente da comissão europeia, Durão Barroso. Tal facto, coloca-o, claramente, do outro lado da barricada de Sarkozy, visto como "compagnon de route" de Durão Barroso. A mesma clareza não se pode apontar a Aubry, e, talvez por isso, o voto nos verdes em França, assuma um carácter de maior contestação do que possa parecer. A crescente centralidade da questão ecológica, aliada à visão dum partido socialista confuso e pouco credível, incapaz de se definir de forma clara em relação às políticas do actual governo, e ainda um governo de direita, cuja missão é destruir os serviços públicos franceses, fizeram com que as populações se virassem para aquilo que já bem conhecem e que lhes parece garantido, independentemente de crises políticas ou sociais, como é a defesa do ambiente.

O grupo dos socialistas descontentes, pois também aqui os há, juntamente com os comunistas, que se juntaram na designada Front de Gauche, conseguem um pouco mais que o PCF sozinho há 5 anos. Com 6,47%, elegem 4 deputados para a Europa. Esta coligação forma-se com o objectivo de concorrer às eleições europeias, e até agora não houve sinais que indicassem uma permanência no cenário político, nomeadamente, no sentido das regionais do próximo ano em França. Terá sido com base neste argumento que o NPA recusou aliar-se a esta frente, dizendo que um projecto político que pretenda, efectivamente, combater a política de direita de Sarkozy, teria que se fundar em algo mais duradouro, que a campanha para as eleições europeias.

A esquerda radical, a extrema-esquerda, "socialistas, anarquistas, libertários, sindicalistas...", como o próprio Olivier Besancenot designou os possíveis eleitores do Nouveau Parti Anticapitaliste, no congresso de encerramento da campanha para as europeias, ficou perto dos 5%.

Por enquanto, o NPA ainda é sinónimo de Olivier Besancenot, tal como outrora LCR era sinónimo de Alain Krivine. E apesar de Besancenot ser apenas o terceiro cabeça de lista para às eleições europeias, na região de Paris, esta opção não se revelou suficiente para que os restantes candidatos se impusessem. O NPA é um partido de políticos não profissionais, e se por um lado isso advoga em seu favor, pois cada candidato goza daquela aura de emergir directamente do movimento social, por outro, quando chega o momento de apelar ao voto, de fazer o tal discurso apelativo que chegue ao maior número de pessoas possível, estes políticos ficam um pouco aquém do que se pretende. Besancenot tem precisamente a vantagem de ter feito a "escola da política", apesar de muito jovem, e isso é claro nos seus discursos, bem estruturados e cativantes, mas também, de ser um carteiro, que pertence ao sindicato, e que participa nas manifestações e greves. Esta conjugação de factores faz dele um politico assertivo e eficaz nas suas defesas, mas por outro lado, alguém descontraído e próximo das populações, características ainda ausentes nos restantes candidatos, e que podem explicar alguma desconfiança em relação ao novo partido.

Uma coisa é certa, até em França, a quem se reconhece o bastião da mobilização social e das vitórias sociais, mesmo por cá, as eleições europeias dizem pouco às populações, tendo havido uma abstenção de perto dos 60%.

Algo vai podre no reino da União Europeia.

Margarida Santos

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