Quando ele diz sim - o que quer ele dizer? criar PDF versão para impressão
23-Jun-2009


Uri Avnery"Você deve estar a ccomemorar", disse-me o entrevistador de uma popular estação de rádio depois do discurso do Netanyahu. "Afinal, ele está a aceitar o plano que você propôs há 42 anos atrás!" (Na verdade, foi há 60 anos, mas quem é que está a contar?).

A primeira página do Haaretz trazia um artigo de Gideon Levy, no qual ele escreveu que "o corajoso apelo de Uri Avnery e dos seus amigos quatro décadas atrás está agora a repercutir-se, embora debilmente, de ponta a ponta (do espectro político israelita). "

Eu estaria mentindo se negasse ter sentido um breve brilho de satisfação, mas que rapidamente esmoreceu. Este não foi um "histórico" discurso, nem mesmo um "grande" discurso. Foi um discurso inteligente.

Continha alguma verborreia hipócrita para apaziguar Barack Obama, seguida imediatamente pelo seu contrário, para pacificar a extrema-direita israelita. Não muito mais.

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Netanyahu afirmou que "a nossa mão está estendida para a paz."

Nos meus ouvidos, tocou uma campainha: em 1956, durante a guerra do Sinai, um membro da minha equipa editorial ficou ligado à brigada que conquistou Sharm-al-Sheikh.

Uma vez que ele tinha crescido no Egipto, entrevistou o oficial egípcio de patente mais elevada capturado, um coronel, que lhe contou: "Sempre que David Ben-Gurion anunciava que a sua mão estava esticada para a paz, éramos colocados em alerta elevado."

E, de facto, este era o método de Ben-Gurion. Antes de cada provocação, ele declarava que "as nossas mãos estão estendidas para a paz", acrescentando condições que sabia serem totalmente inaceitáveis para a outra parte. Assim, uma situação ideal (para ele) foi criada: o mundo via Israel como um país que ama a paz, enquanto os árabes apareciam como os assassinos em série da paz. "A nossa arma secreta é a recusa árabe", era um gracejo usado em Jerusalém por aquela época.

Esta semana, Netanyahu usou o mesmo velho truque.

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Eu não menosprezo, obviamente, o significado do chefe do Likud proferir as duas palavras: "Estado palestiniano".

As palavras transportam peso político. Uma vez libertadas no mundo, têm uma vida própria. Ao contrário dos cães, não podem ser chamadas de volta.

Numa canção popular israelita de amor, o rapaz pergunta à rapariga: "Quando dizes que não, que queres dizer com isso?" Poderíamos assim perguntar: Quando Netanyahu diz que sim, o que quer dizer com isso?

Mas mesmo que a expressão "Estado palestiniano" tivesse ultrapassado os seus lábios apenas sob coacção, e quando Netanyahu não tivesse nenhuma intenção de transformá-las em realidade, é ainda importante que o chefe do governo e chefe do Likud tenha sido obrigado a proferi-las.

A ideia do Estado palestiniano tornou-se agora parte do consenso nacional, e apenas um punhado de extremistas de direita a rejeitará directamente. Mas este é apenas o começo. A principal luta será de como transformar a ideia em realidade.

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Todo o discurso foi dirigido a uma única pessoa: Barack Obama. Não foi concebido para apelar aos palestinianos. Ficou bem claro que os palestinianos são apenas o objecto passivo de uma discussão entre o presidente dos EUA e o primeiro-ministro de Israel. Excepto em alguns velhos e cansados clichés, Netanyahu falou sobre eles, não para eles.

Ele está pronto, segundo o que diz, a conduzir as negociações com a "comunidade palestina", e isso, naturalmente, "sem condições prévias". Significado: sem condições prévias palestinianas.

Por parte de Netanyahu, existem muitas condições prévias, cada um das quais foi concebida com a certeza de que nenhum palestino, nenhum árabe e na verdade nenhum muçulmano concordará em iniciar negociações.

Condição 1: Os árabes têm de reconhecer Israel como "Estado-nação do povo judeu" (e não apenas "um Estado judeu", como muitos nos meios de comunicação social erroneamente indicaram.)

Como Hosny Mubarak já respondeu: Nenhum árabe aceitará tal, porque isso significaria que 1,5 milhão de cidadãos árabes de Israel seriam amputados do estado, e porque iria negar antecipadamente o direito de regresso dos refugiados palestinianos - a principal moeda de troca da parte árabe.

Deve ser recordado que, quando as Nações Unidas resolveram, em 1947, a partição da Palestina entre um "Estado judeu" e um "Estado árabe", tal não significou uma definição da natureza dos estados. Estavam apenas declarando factos: existem duas populações mutuamente hostis no país e, portanto, o país tem de ser dividido entre eles. (De qualquer forma, 40% da população do estado "Judeu" era constituído por árabes.)

Condição 2: A Autoridade Palestiniana deve, em primeiro lugar, estabelecer o seu governo por toda a Faixa de Gaza.

Como? Afinal, o governo de Israel evita as deslocações entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, e nenhuma força palestina pode passar de um ponto para o outro. E a solução do problema através da criação de um governo palestiniano de unidade também está excluída: Netanyahu declarou categoricamente que não haverá negociações com a liderança palestiniana que inclua "terroristas que nos querem aniquilar" - a sua maneira de se referir ao Hamas.

Condição 3: O Estado palestiniano será desmilitarizado.

Isto não é uma ideia nova. Todos os planos de paz que foram apresentadas até agora falam de acordos de segurança que visam proteger Israel de ataques palestinos e a Palestina de ataques de Israel.

Mas não é isso que Netanyahu tem em mente: ele não fala de reciprocidade, mas de dominação.

Israel poderia controlar o espaço aéreo e as fronteiras do Estado palestino, transformando-o numa espécie de gigantesca Faixa de Gaza. Por outro lado, o estilo de Netanyahu foi deliberadamente autoritário e humilhante: ele espera que, obviamente, a palavra "desmilitarizado" será o suficiente para levar os palestinianos a dizer "não".

Condição 4: Jerusalém indivisa permanecerá sob governo israelita.

Isto não foi proposto como uma abertura de gambito para negociações, mas apresentado como uma decisão final. Isso por si só garante que nenhum palestino, nenhum árabe, ou mesmo qualquer muçulmano, poderia aceitar esta proposta.

No Acordo de Oslo, Israel comprometeu-se a negociar sobre o futuro de Jerusalém. Trata-se de uma norma jurídica aceite, onde cada um compromete-se a negociar e aceita fazê-lo de boa fé, com base no dar e receber. Por isso, todos os planos de paz prevêem que Jerusalém Oriental - total ou parcialmente - será devolvida ao Estado árabe.

Condição 5: Entre Israel e o Estado palestiniano haverá "fronteiras defensáveis".

Estas são palavras-código para extensas anexações por Israel.

O seu significado: Não ao retorno às fronteiras de 1967, nem mesmo com uma troca de territórios o que permitiria a alguns dos grandes colonatos juntarem-se a Israel. A fim de criar "fronteiras defensáveis", uma grande parte dos territórios palestinianos ocupados (que no total representam apenas 22% da Palestina pré-1948) serão absorvidos em Israel.

Condição 6: O problema dos refugiados será resolvido "fora do território de Israel".

Significado: Nem um único refugiado será autorizado a regressar.

É verdade, todas as pessoas realistas concordam que não pode haver o retorno de milhões de refugiados. De acordo com a iniciativa de paz árabe, a solução deve ser "mutuamente acordada" - o que significa que Israel tem de concordar com uma qualquer solução. A suposição é que as duas partes chegarão a acordo sobre o regresso de um número simbólico.

Esta é uma questão altamente emotiva e sensível, que deve ser tratada com a maior prudência e sensibilidade. Netanyahu fez o contrário: a sua provocativa afirmação, desprovida de toda a empatia, é claramente desenhada para levar a uma recusa automática.

Condição 7: Não congelar os colonatos. A "vida normal" dos colonos continuará.

Significado: a actividade de construção para dar resposta ao "crescimento natural" vai continuar. Isto ilustra o ditado de Michael Tarazy, um assessor jurídico da OLP: "Estamos a negociar a partilha de uma pizza e, entretanto, Israel já a está a comer."

Tudo isto estava no discurso. Não menos interessante é o que não estava.

Por exemplo, as palavras: Roteiro. Annapolis. Palestina. O plano de paz árabe. Ocupação. Soberania palestiniana. Abertura das fronteiras da Faixa de Gaza. Montes Golan. E, ainda mais importante: não houve uma pitada de respeito pelo inimigo que deve ser transformado num amigo, nas palavras de um antigo ditado judeu.

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Então, o que é mais importante? O reconhecimento verbal de "um Estado palestiniano", ou as condições que esvaziam estas palavras de todo o conteúdo?

A resposta do público é interessante.

Numa sondagem realizada imediatamente após a intervenção, 71% apoiaram-na, mas 55% acreditam que Netanyahu apenas "cedeu à pressão americana", e 70% não acreditam que um Estado palestiniano possa realmente surgir durante os próximos anos.

O que fazer exactamente aos 71% de apoio? Ligá-los à solução "Estado palestiniano" ou às condições que impeçam a sua aplicação - ou a ambos?

Há, evidentemente, uma extrema-direita minoritária que prefere um choque frontal com os Estados Unidos a entregar qualquer território entre o Mar Mediterrâneo e o rio Jordão. Ao longo da estrada para Jerusalém todos podem ver grandes cartazes mostrando uma foto manipulada de Obama usando um toucado árabe. (Isto dá um arrepio na espinha, porque lembra-nos que vimos exactamente o mesmo cartaz com Yitzhak Rabin sob o keffiyeh.) Mas a grande maioria das pessoas entende que uma ruptura com os EUA deve ser evitada a todo o custo.

Netanyahu e os da direita esperam que os palestinianos rejeitem categoricamente as suas palavras, pintando-se assim como os que consecutivamente recusam a paz, enquanto o governo israelita seria visto como tendo dado o primeiro, pequeno mas significativo, passo rumo à paz.

Eles estão certos de que isto poderá ser alcançado facilmente: o Estado palestino não será criado, o governo israelita não desistirá de nada, a ocupação permanecerá, a actividade de colonização continuará e Obama aceitará tudo isto.

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Portanto a principal questão é: como irá reagir Obama?

A primeira reacção foi breve. Uma resposta educadamente positiva.

Obama não procura um choque frontal com o governo israelita. Parece que pretende exercer uma pressão "suave", vigorosa, mas discretamente. Para mim, esta é uma abordagem sensata.

Poucas horas antes do discurso, encontrei-me com o ex-presidente Jimmy Carter. A reunião teve lugar no American Colony Hotel em Jerusalém Oriental. O encontro foi organizado pelo Gush Shalom, com a participação de várias outras organizações de paz israelitas.

Nas minhas considerações iniciais, salientei que estávamos exactamente na mesma sala onde há 16 anos, enquanto o Acordo de Oslo estava a ser assinado em Washington, os activistas da paz israelitas e os dirigentes da população palestiniana de Jerusalém se reuniram e abriram garrafas de champanhe. A euforia daqueles momentos desapareceu sem deixar um rasto.

Israelitas e palestinianos perderam a esperança. Em ambos os lados, a esmagadora maioria quer o fim do conflito, mas não acreditam que a paz é possível - e cada lado culpa o outro. A nossa tarefa é a de reavivar a crença de que é perfeitamente possível.

Para isso, há necessidade de um acontecimento dramático, uma espécie de choque eléctrico revigorante - como a histórica visita de Anwar Sadat a Jerusalém em 1977. Sugeri que Obama deveria vir a Jerusalém e falar directamente com a opinião pública israelita, talvez mesmo a partir da tribuna do Knesset, como Sadat.

Depois de ouvir atentamente os participantes, o ex-presidente encorajou-nos nas nossas actividades e apresentou algumas propostas da sua autoria.

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O decisivo neste momento é, obviamente, a questão dos colonatos. Obama irá insistir num total congelamento de toda actividade de construção, ou não?

Netanyahu espera safar-se.

Já encontrou novos artifícios: projectos que já tenham sido iniciados devem poder ser concluídos. Não podemos detê-los no meio. Os planos já foram aprovados. Os inquilinos estão à espera de seus apartamentos, e eles não devem ser prejudicados. O Supremo Tribunal não vai permitir um congelamento. (Um argumento particularmente ridículo, como se um tribunal permitisse a um ladrão gastar mais algum do dinheiro que roubou antes de o sentenciar.)

Se Obama cair nesta, não deverá ficar surpreso ao descobrir, tardiamente, que estes projectos incluem 100.000 novas unidades habitacionais.

Isto leva-nos ao facto mais importante desta semana: os colonos não armaram uma zaragata dos diabos depois da intervenção de Netanyahu. Pelo contrário. Aqui e ali algumas débeis críticas podem ter sido ouvidas, mas a grande e armada população de colonos manteve-se notavelmente calma.

O que nos traz de volta ao inesquecível Sherlock Holmes, que explicou como é que resolveu um dos seus mistérios, chamando a atenção para "o curioso incidente do cão durante a noite."

"Mas o cão não fez nada durante a noite!" alguém opôs.

"Esse foi o curioso incidente", assinalou Holmes.

22 de Junho de 2009

Tradução do Fórum Palestina

 
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