A esquerda insensível criar PDF versão para impressão
26-Jun-2009


Luis LeiriaUm clima de terror está a ser imposto nas ruas das principais cidades do Irão. Polícia, Guarda Revolucionária, milícias Basij patrulham as ruas, auxiliadas por helicópteros, e atacam com a máxima violência qualquer ajuntamento de pessoas que possa dar origem a uma manifestação de protesto.

Há um número indeterminado de mortes, que certamente já ultrapassam a vintena - mas podem ser muitos mais, já que todos os dias chegam à Internet novos vídeos documentando mortes ou feridos graves. Há um número indeterminado de presos, seguramente na casa dos milhares.

Um estado de excepção reina nas ruas de Teerão. Todas as manifestações estão proibidas, a censura impera na imprensa, há dezenas de jornalistas presos, correspondentes estrangeiros são expulsos do país e outros são impedidos de trabalhar. Os SMS dos telemóveis não funcionam e a Internet está sob a vigilância do mais sofisticado sistema de censura e rastreamento, instalado no Irão pela Siemens e a Nokia.

estádios desportivos transformados em quartéis da polícia e outros em prisões. O governo apresenta presos "arrependidos" na televisão que afirmam ter sido manipulados por potências estrangeiras, ter tido como objectivo apenas roubar e incendiar, e nem sequer terem votado nas eleições - um espectáculo degradante que nos traz tristes recordações.

Mas, apesar de tudo isto, a resistência ao regime de Khamenei/Ahmadinejad continua. Todos os dias há notícias de batalhas campais entre os manifestantes desarmados e as formidáveis forças repressivas. Todas as noites os gritos de "Deus é Grande", evocando uma forma de luta usada para derrubar o Xá em 1979 ecoam nas ruas das principais cidades.

A descrição que fizemos acima baseia-se em factos que são conhecidos e ninguém contesta. É uma descrição que evoca um clássico golpe de Estado de direita, que evoca o Chile de 1973, a Indonésia de 1965, ou até o Irão de 1953. Todo aquele que se diz de esquerda não deveria ter dúvidas sobre o lado da trincheira onde deveria estar.

E no entanto...

E no entanto, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, promotor do "socialismo bolivariano", foi o primeiro a congratular o mentor da repressão, Mahmoud Ahmadinejad, pela sua "grande vitória" eleitoral , "muito importante para os povos que lutam por um mundo melhor". Será que os iranianos, duas semanas depois das palavras de Chávez, estão a viver "um mundo melhor"?

Lula da Silva, presidente do Brasil, e do Partido dos Trabalhadores, não só felicitou Ahmadinejad, como confirmou a intenção de em breve visitar o país, disse que "não há provas" de que tenha havido fraude nas eleições , e desvalorizou os protestos dizendo que "é apenas, sabe, uma coisa entre flamenguistas e vascaínos".

Há quem em Portugal afine por este diapasão e diga que não há quaisquer provas de fraude.

Não há?

Mas não foi o próprio Conselho de Guardiães que reconheceu que em 50 cidades houve mais votos que eleitores inscritos ? Então isto não conforma uma gigantesca fraude? Ou só em Portugal ou na Europa seria fraude - no Irão é transparência democrática?

Há quem diga que os protestos são obra da CIA. Mas será que não se dão conta do que estão a dizer? Que esse sempre foi e sempre será o argumento de todas as ditaduras contra os seus opositores? Aliás, o regime Khamanei/Ahmadinejad chama agora aos protagonistas dos protestos "terroristas". Este termo não vos é familiar?

Além disso, mais uma vez se passa um atestado de menoridade aos iranianos e se sobrevaloriza a CIA - então a CIA tem capacidade de mobilizar dois milhões de iranianos? (foi este o tamanho da mobilização de dia 15).

O povo iraniano está a exigir respeito pela sua vontade, respeito pelo seu voto. No bojo deste movimento vêm outras reivindicações democráticas e sociais - e há notícia de sindicatos e organizações de trabalhadores a juntarem-se aos protestos com as suas reivindicações. Moussavi é um candidato do regime, mas durante a campanha evocou alguns princípios da revolução de 1979 que derrubou o Xá e que foram abandonados. É por isso que o povo, que se sentiu defraudado, usa muitos métodos e formas de luta daqueles tempos. O apoio a Moussavi canalizou os anseios democráticos de milhões. Ser de esquerda é identificar-se com estes anseios e apoiá-los, mesmo que com críticas. E, sobretudo, não pôr-se ao lado da repressão, dos assassinatos, das prisões, das milícias Basij - tão parecidas à Legião Portuguesa.

Ser de esquerda é ter memória. É, pelo menos, não ser insensível.

Luis Leiria

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