Adeus povo, adeus voto criar PDF versão para impressão
04-Jul-2009

Cecília HonórioO estudo da SEDES pôs em gráfico a desilusão da esmagadora maioria face ao poder político e aos governantes. O dado não é novo. As democracias liberais alimentam-se do equívoco da soberania popular: a origem do poder está no povo, mas o povo delega o poder através do voto e, uma vez delegado, adeus povo...

O que a maioria dos inquiridos denuncia é essa profunda insatisfação perante a frieza da democracia representativa, a frieza do desligamento crescente entre governantes e governados, mesmo se Sócrates invade as rotundas do país com uma imagem cândida de quem diz: "podem confiar, estou inocente".

Nem Sócrates nem o PS estão inocentes, nem da crise, nem do que os gráficos mostram. A verdade é que o PS se mostrou absolutamente incompetente como partido de "vocação maioritária"1. Gerindo sozinho programa e governo, exigia-se-lhe um compromisso realista e a capacidade de não ceder à demagogia.

Enfrentar o atraso e a debilidade do estado social, apostar nos serviços públicos e na criação de emprego, limpar o Estado das ameias privatistas e dos lóbis, seria o compromisso mínimo. Mas não só Sócrates e o seu governo atacaram os sectores profissionais do Estado, escavaram a precariedade, alimentaram a elite rentista, como levaram a sério a demagogia. Com ela procuraram galvanizar os eleitores, e galvanizarem-se a eles próprios. E tanto se galvanizaram que deixaram a sala às cadeiras na noite das europeias. Adeus povo, adeus voto.

Milhares de trabalhadores e trabalhadoras saíram às ruas para denunciar as políticas deste governo. Manifestações e greves, sem precedente nem comparação, de professores e professoras denunciaram os ataques deste governo à escola pública. Mas a resposta do governo do PS foi a de que com votozinho no papo não se dá cavaco ao poder que as pessoas acham que é, justamente, seu.

Nós por cá já usámos ao peito um crachá com um pequeno elefante, em nome da memória na política. E batemo-nos pelo direito à memória. Um "par de cornos" corrói, hoje, por dentro o governo, deixando o país em banho-maria. Mas milhares de professores e professoras, e de tantos outros profissionais, corroeram por fora as políticas deste governo. Viram caretas e esgares de desprezo dos responsáveis da educação, cada um mais esmerado do que o outro, foram alvo da sua chacota, ouviram e leram acusações e baboseiras sem fim, foram alvo de injustiças sem precedentes.

Mas a memória não esquece. E também não esquece o que Manuela Ferreira Leite fez como ministra da educação, nem ignora que não há pé para promessas de mudanças radicais na educação, quando a visão da escola pública como uma espécie de empresa, aberta a parcerias público-privadas, é o leme de uns e de outros.

Cecília Honório

1 Na proposta de análise feita há muito por Maurice Duverger, Les Partis Politiques, Paris, Armand Colin, 8º ed, 1973.

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