Apartheid em Tróia criar PDF versão para impressão
07-Jul-2009

Álvaro ArranjaCom o início da época balnear, confirmam-se os efeitos da grande operação de especulação imobiliária de Belmiro de Azevedo em Tróia - os setubalenses estão de facto impedidos de frequentar as praias de Tróia.

O betão ocupou a praia do povo de Setúbal. Os setubalenses não são desejados numa urbanização de milhões, de carácter elitista, destinada a garantir lucros chorudos e rápidos. Os ferries aumentaram os preços para o dobro e levam os passageiros para a zona dos fuzileiros, tornando penoso o acesso à praia. Os prometidos empregos não existem, já que o objectivo não é a hotelaria mas vender imobiliário.

As viagens dos ferries para o novo cais junto aos fuzileiros, coincidindo com a área mais importante de alimentação dos golfinhos do Sado, constitui também grave ameaça à sua subsistência no estuário.

São agora evidentes os efeitos da conivência do poder central e local com os interesses imobiliários, bem como da farsa mediática que juntou Belmiro e Sócrates.

Praia do povo, ao longo dos tempos frequentada livremente pelas populações de Setúbal, foi nas décadas 60 e 70 que a Torralta construiu torres e bandas de prédios. Com o 25 de Abril foi possível garantir que esse betão não impediria o acesso à praia. Existiu uma convivência pacífica entre essa urbanização e os frequentadores da praia. Com a falência do projecto da Torralta, vieram os despedimentos do pessoal e um semi-abandono da área construída.

Um governo PS lançou um projecto diferente. Os créditos do estado foram oferecidos, praticamente dados, ao grupo SONAE, que foi impondo a sua vontade. Beneficiando da colaboração do PCP (nas câmaras de Grândola e Setúbal), garantido o do PS, e com o natural apoio e entusiasmo do PSD, os anos foram passando e os projectos avançando no papel.

Já com Sócrates, esse especialista em farsas mediáticas, os três partidos uniram-se, disputando lugares ao lado de Belmiro de Azevedo: as torres apodrecidas foram destruídas em directo nas televisões. Muitas pessoas baixaram os braços perante a indestrutível aliança destes partidos com o maior "empresário" do país.

No extremo da península de Tróia virada para Setúbal, a duna primária foi arrasada. A popular praia, do lado direito do passadiço de desembarque, desapareceu substituída por uma marina. Uma muralha de prédios de 4 e 5 pisos, bem próxima da água, deixa para trás, cercada e sem vistas, a antiga área edificada pela antiga Torralta (perante a indignação dos antigos proprietários). A erosão da costa é secundária perante a ganância de quem finge não ver a destruição das dunas.

Para os golfinhos do Sado, o "resort" actualmente em desenvolvimento em Tróia, levanta novas e graves ameaças. O projecto imobiliário, implicou a deslocação do cais dos ferries para a zona próxima das instalações da marinha. Essa zona coincide com a área de mais importante alimentação dos golfinhos.

O estudo de impacte ambiental efectuado pela Comissão de Avaliação do Projecto "Marina e novos cais dos ferries do Tróiaresort", deu parecer desfavorável por causa dos riscos eventuais para a população de golfinhos e por existir a alternativa de manter a actual localização. Este estudo foi ignorado pelo Governo. Um princípio mínimo de precaução, aconselharia a que a mudança do cais dos ferries não tivesse lugar e se mantivesse o actual cais.

A Tróia do povo está transformada numa espécie de condomínio privado de novos ricos e patos-bravos carentes de estatuto. É provável que mais dunas e cordões dunares sejam inevitavelmente destruídos, rompidos, a água comece a ameaçar com as marés e os temporais. Que a salinização e contaminação dos escassos aquíferos pela ocupação desenfreada, pelos campos de golfe, venha a sair cara a todos nós ou que cá estiver para ver.

Quando a operação imobiliária estiver concluída, Belmiro de Azevedo abandonará rapidamente Tróia e lá estará o orçamento do Estado a pagar os efeitos nefastos da destruição das dunas, construindo muros e diques para defender a selva de betão...

Álvaro Arranja

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