Homofobia à solta no instituto de sangue criar PDF versão para impressão
19-Jul-2009

João Semedo Os factos são conhecidos: uma mulher foi impedida de dar sangue no Hospital de Santo António, no Porto, por se ter declarado homossexual. Denunciado o caso pelo Bloco de Esquerda, o gabinete da ministra da Saúde vem dizer que os homossexuais masculinos estão impedidos de dar sangue em Portugal por constituírem um grupo de risco, o mesmo não se verificando com as mulheres lésbicas.

Primeiro problema: apesar do que disse o ministério da saúde, foi uma mulher que foi proibida de dar sangue. O mínimo que se pode exigir é a abertura de um inquérito ao serviço do hospital que impediu esta dádiva de sangue, apurar os responsáveis e não deixar sem punição a discriminação de que foram autores.

Segundo problema: não há grupos de risco, há comportamentos de risco que tanto podem verificar-se em homossexuais como em heterossexuais ou em bissexuais. Não há qualquer motivo para excluir liminarmente todo e qualquer homossexual apenas porque é homossexual. Todos os homens e mulheres, seja qual for a sua orientação sexual, devem ser sujeitos às mesmas regras e exames para avaliar a qualidade do sangue que pretendem doar.

Há, certamente, muitos heterossexuais com práticas e hábitos sexuais de muito maior risco que muitos homossexuais. Como também há, seguramente, muitos homossexuais que praticam sexo de risco. Ou seja, não é a orientação sexual que determina se há ou não risco, se há ou não contaminação do sangue. Cada caso é um caso, o risco deve ser avaliado caso a caso, pessoa a pessoa. O contrário, é discriminação.

Em 2008, em Portugal, nos novos casos de infecção VIH/SIDA, 57,6% são de portadores heterossexuais e apenas 16,8% de homossexuais.

A exclusão liminar e taxativa de todos os homossexuais da dádiva de sangue não tem qualquer fundamento técnico ou científico. Isso mesmo garante o coordenador nacional para a infecção VIH/SIDA, o bastonário da Ordem dos Médicos e a própria comissária europeia para a saúde, por acaso de visita ao nosso país. Por diferentes palavras, todos eles disseram que o aconteceu no hospital de Santo António é um disparate, uma exclusão sem sentido nem justificação, contrariando assim as "explicações" do ministério da saúde.

O médico ex-militar que dirige o Instituto Português de Sangue disse a uma rádio que a homossexualidade é em si mesmo o risco e, como tal, todos os homossexuais masculinos devem ser impedidos de dar sangue.

Além da ignorância, o dr. Olim não disfarça a sua homofobia. Para ele, ser homossexual é ser perverso e promíscuo. É precisamente neste ponto que se revela a natureza discriminatória da sua atitude.

A ignorância não é muito recomendável para o cargo exercido pelo dr. Olim. Mas, pior que a ignorância, é a sua indesmentível homofobia que nos ofende a todos, seja qual for a nossa orientação sexual. A democracia é a liberdade de escolha, é o direito da cada um a fazer as opções que entender sobre a sua própria vida. A democracia não aceita exclusões e muito menos castigos por opções diferentes das nossas.

O dr. Olim é um corpo estranho à democracia. Está a mais, não tem condições pessoais nem profissionais para continuar à frente de um organismo do estado.

A ministra da saúde é médica. O mínimo que pode fazer é corrigir a orientação divulgada pelo seu gabinete e mudar a prática dos serviços de sangue.

E, como a homofobia não se corrige, deve passar uma guia de marcha ao dr. Olim...

João Semedo

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