Lições? Vietname, Indonésia, Iraque criar PDF versão para impressão
07-Dez-2006
immanuel_wallerstein.jpgGeorge W. Bush acabou de visitar o Vietname e a Indonésia. Tanto ele quanto a imprensa em geral usaram a ocasião para reflectir sobre as "lições" da guerra do Vietname, referindo-se às suas implicações na política americana para o Iraque. Teria sido mais útil reflectir sobre as lições da Indonésia, e as diferentes recepções que Bush teve nos dois países.

O Vietname é hoje um dos poucos países no mundo onde os Serviços Secretos americanos permitem que Bush se desloque em cortejo automóvel público. Durante a estadia, Bush disse que a guerra do Vietname deveria ensinar aos Estados Unidos a ter paciência. Numa frase citada por todas as agências de notícias, ele acrescentou: "Vamos ter sucesso, a menos que desistamos".

Só George W. Bush poderia ter dito que a lição que retirou do Vietname para o Iraque foi que os EUA vão ter sucesso, a menos que desistam. Porque, como até ele devia saber, os Estados Unidos realmente desistiram no Vietname. Será que o comentário de Bush pretendia ser uma denúncia de Gerald Ford por ter desistido, por não ter tido a paciência de vencer? Ou terá sido apenas uma tola insistência na sua linha de "manter o rumo" no Iraque, apesar do que aconteceu no Vietname?

Quais são as mais óbvias lições a retirar da longa guerra do Vietname? Uma é que os Estados Unidos foram derrotados por uma pequena nação que não podia nem de perto equivaler-se a eles em equipamento militar. A segunda é que a longa guerra com o Vietname dividiu o povo americano e enfraqueceu de muitas formas a força da economia dos Estados Unidos a longo prazo. A terceira é que, apesar de tudo isso, ou talvez precisamente porque o Vietname derrotou os Estados Unidos, ele é hoje um dos países do mundo mais amigáveis com Washington, na verdade um dos poucos países amigáveis.

A razão ostensiva do combate americano no Vietname foi a oposição ao comunismo e assegurar-se de que não haveria "efeito dominó" do comunismo no Sudeste asiático. Bem, o Partido Comunista ainda governa no Vietname de hoje, e eles são realmente amigáveis com os Estados Unidos. E não houve efeito dominó. Porque é que então os Estados Unidos sacrificaram todas aquelas vidas e recursos financeiros? Talvez tivesse feito mais sentido, em primeiro lugar, nunca ter-se envolvido.

O presidente Bush prosseguiu a viagem para a Indonésia, onde passou algumas horas escondido num palácio de governo. Nada de cortejo automóvel - muito perigoso; nada de ficar sequer uma noite - muito perigoso. Passemos então em revista a política dos EUA para a Indonésia. Lá, diferente do Vietname, a intervenção dos EUA foi "bem-sucedida". A CIA ajudou a derrubar Sukarno, o líder de uma potência mundial "não-alinhada" - alguém que os Estados Unidos achou demasiado amigável com a União Soviética. No seu lugar, subiu ao poder um general de direita, Suharto, que prontamente desencadeou o massacre do Partido Comunista Indonésio, o maior do mundo fora dos estados onde Partidos Comunistas governavam.

A Indonésia é também o estado de maior população muçulmana do mundo. O Islão indonésio tem sido, pelos padrões mundiais, uma variante bastante "moderada". Mas depois da queda do secular Sukarno, o governo indonésio sentiu a necessidade de levar em conta as visões políticas dos partidos muçulmanos. E na Indonésia houve o efeito "dominó" que nunca aconteceu no Vietname. Só que este efeito dominó veio da política americana no Iraque. Os Estados Unidos são vistos hoje por muitos, possivelmente a maioria dos muçulmanos indonésios, que estão muito zangados, como inimigos do Islão. Se tivesse havido um cortejo automóvel em Jakarta, provavelmente teria sido apedrejado. Por isso, os serviços secretos não o quiseram fazer.

Que lições podiam ser retiradas? Em 2006, um dos últimos poucos governos comunistas do mundo é amigo, falando relativamente, dos Estados Unidos. E o país onde demos um jeito de varrer o Partido Comunista é um país no qual é fisicamente perigoso que o presidente dos EUA ponha os pés.

Será que o presidente dos EUA que visitar o Iraque daqui a 20 anos vai receber o tipo de recepção que George W. Bush recebeu no Vietname, ou o tipo de recepção que Bush recebeu na Indonésia?

 

1/12/2006. Immanuel Wallerstein

 

 
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