À espera do Mister criar PDF versão para impressão
11-Jul-2006

daniel_oliveira.jpgUm tipo ainda tenta começar a ver o telejornal vinte minutos depois da hora. Não serve de nada. No domingo a selecção estava de volta e o festival estava prometido. Uma pequena multidão esperava os heróis da bola. Os jornalistas tinham-nos preparado uns chouriços bem aviados. A voz era dada aos portugueses. Portugueses que já não deviam estar em grande estado. Horas a fio com a moleirinha ao sol, no dia mais quente do ano. E logo o primeiro sai-me com esta: «queria agradecer ao Mister Scolari por ter conseguido o que os políticos não conseguem: unir os portugueses». Unir os portugueses, esse velho sonho nacional.

E é este o drama da bola transformada em orgulho pátrio. Ela toma logo o lugar da vida e tudo fica a parecer fácil. Difícil é explicar ao senhor que esperava o Mister que na vida não se ganha ou perde ao fim de 90 minutos, não há prolongamentos e o penalty raramente é marcado a quem faz a falta. Que na vida, e portanto na política, não queremos, felizmente, todos o mesmo. Que os portugueses não jogam todos na mesma equipa. Uns estão na Liga dos Campeões, outros na distrital B e a maioria não pode sonhar em ser mais do que treinador de bancada. Que na vida, e portanto na política, a unidade nacional à volta da bandeira – com um cantinho reservado ao Espírito Santo que, como se sabe, está em todo o lado – dá geralmente uma coisa triste e que ela costuma durar, mais coisa menos coisa, 48 anos.
O drama da bola transformado em auto-estima nacional é que dá a sensação que afinal, para isto correr bem, não era preciso fazer assim tanto. Bastava que houvesse um Mister que nos unisse, uma equipa que comesse a relva e que o árbitro não roubasse. Só que na vida, como na política, o Mister só treina equipa dele, quem come a relva raramente é convocado e o árbitro está comprado à partida. Segundo sei, no futebol também é assim. Mas na vida, assim como na política, estamos a falar de coisas sérias. Por isso, quando vir um político que queira «unir os portugueses», puxe logo do cartão vermelho. É que assim todos tão juntinhos, há más companhias que ficam demasiado perto.
 
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